segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Um pouco sobre o amor
Vera Pinheiro

            Quem de nós jamais entregou às deusas o amor que transpassa o peito sem solução, feito de desejos e esperanças, sem compensação nem respostas, que frauda as nossas expectativas e nos retém em uma demora sem prazo para terminar? Que jogue o lencinho encharcado de lágrimas e borrado de delineador quem não pediu socorro durante os suplícios amorosos! Seriam os deuses e deusas insensíveis aos nossos tão flamejantes desejos? Não! Nós é que não sabemos pedir direito! Nós invertemos a ordem do amor e queremos recompensa à altura, com o mesmo peso e idêntica medida. Nós nos submetemos aos tormentos do amor não correspondido e esperamos que a história chegue a bom termo, com um final feliz ao melhor estilo novelesco. Não é assim como queremos. Amar alguém e esperar que essa pessoa corresponda ao que esperamos do amor é jogar em braços alheios a força que carregamos em nosso próprio ser amoroso e belo. É permitir que outra pessoa escreva a nossa história e dê um destino aos nossos sentimentos. Entretanto, podemos escolher amar o amor em vez de amar alguém que julgamos ser especial – e alguém realmente o será?
            A sustentar nossos anseios de um amor duradouro e feliz, as deusas nórdicas do amor nos abraçam e estão a vibrar em nosso ser quando estamos em agonia por um amor que não deu certo ou que não foi exatamente aquilo que dele esperávamos.  
            Que haja amor e que o amor se faça em cada um, em todos nós, para que a vida seja mais feliz. Não que o amor garanta a almejada felicidade, mas por ser o amor o que dá sentido às relações humanas, e nelas o viver se exerce.
            Que o amor seja tanto que pulverize as dores, alivie as mágoas e aniquile qualquer resistência ao perdão. Que brote espontâneo como um jardim feito ao acaso pela Natureza, que siga o curso dos rios e ganhe as marés, percorra todos os ciclos, anime as quatro estações. Que o amor escorra sem pressa pelas horas, demorando-se no instante que cabe em um minuto, e embeleze cada um dos dias de todas as semanas, dos meses de cada ano, e faça o futuro se tornar um passado de alegres recordações, enquanto o agora se desenlaça feliz como um presente.
            Que o amor não se limite a uma pessoa, com quem se quer correspondência e partilha, mas se expanda a todos os que estão em volta sem desejar nada em troca, e abranja os ausentes, os que estão longe, os que se foram e aqueles que estão por vir, enlaçando vidas no pulsar de um mesmo coração. Que não se circunscreva aos conhecidos, mas se alastre em benefício de toda a humanidade, irmanada pelos vínculos sutis dos sentimentos.
            Que o amor, por ser tamanho, não possa ter definição, parâmetros, explicação. Por amor, simplesmente. Com amor, isso é tudo. E que amar seja muito mais que um verbo que se conjuga pela vontade, ou um querer ardente, mas que seja um estado do espírito em tal harmonia consigo que alcance os outros e com eles se una.
            Que o amor seja o princípio de todas as atitudes e intenções para lhes conferir um toque do Divino Ser que em cada um habita. Que seja a meta e o desejo. O plano e a estratégia. A teoria e a prática. Que o amor não seja somente um sonho, mas a realidade possível.
            Que o amor não tenha sombras nem sobras. Que acalme a tristeza e a adormeça, e não se faça por migalhas, pedaços, trechos, mas tenha uma intereza que preencha a alma de satisfação, enlevo, prazer e graça. Que o amor não precise de justificativas para ser como é e não tema ser mal recebido ou negado. Que se manifeste com a delicadeza de que é feito e com o entusiasmo de que se reveste, entre esperanças, incertezas e confiança.
            Que o amor dissipe as dúvidas de que todos merecem ser amados, e que por amar bastante a pessoa se inunde de amor em si e disso não precise contrapartida, pois amar assim basta para refletir o amor em cada partícula do seu ser até que a totalidade aconteça em êxtase.
            Que o amor ande de mãos dadas com a generosidade e com a compaixão para acolher quem pouco o conhece e os que nunca o receberam. Seja, o amor, o colo em que se deitam os abandonados, os esquecidos, os rejeitados, e para aqueles que tudo perderam seja, o amor, o conforto e a energia do recomeço feito de coragem, determinação, persistência.
            Que o amor não se enquadre em conceitos, mas seja uma vivência em que amar sempre, e cada vez mais, seja um exercício prazeroso e sem nenhum sacrifício. Que seja o amor capaz de extrair de nós a porção melhor, exibir a nossa face mais bonita, mostrar a nossa alma nua, livre e bela. E que possa atravessar o tempo para ser inesquecível sem se consagrar à saudade, sem carregar pesares.
            Que o amor tenha liberdade de chegar e de partir, de vir e ficar, de estar pelo tempo que faça a gente entender que não se pode aprisioná-lo refém de nossas ansiedades e carências. Que seja, mais do que uma busca, o encontro da unidade, que cinge todos os seres, e a precisa sensação de pertencimento, de exato ajuste ao que o coração procura.
            Que o amor seja a espera e a chegada, o plantio e a colheita, o dar e o receber, o sonho e a realização, o que persiste além dos obstáculos, a entrega, a doação, o ilimitado que se ajusta às possibilidades. Que seja, o amor, a coragem que resiste às dificuldades e a humildade da aceitação. Que seja tão grandioso que o faça modesto, tão nobre que a todos alcance, tão sublime que se molde eterno, tão justo que a ninguém esqueça, tão nosso que o sinta meu, tão meu que seja sempre nosso. Que nos invada com doçura e nos anime a cada amanhecer. Que nos faça apreciar a vida com jeito de criança, que tudo gosta de descobrir. Que nos acolha como o fazem as mães, sem condicionamentos. Que nos faça donzelas e príncipes ansiosos uns pelos outros só para nos fazermos felizes. E que nos ampare com a paciência amorosa dos anciãos, que nos abraçam antes de arguir sobre as nossas angústias.


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