segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Deusa Gerda, a Luminosa
Vera Pinheiro

            Pertencente à raça dos gigantes, filha de Gymir e Aurboda, Gerda era a deusa da luz, status adquirido pelo casamento com o deus Frey. Conhecida por sua radiante beleza, ao caminhar ela deixava um rastro de fagulhas e, quando levantava os braços, irradiava uma luminosidade brilhante sobre o céu, a terra e os mares, conforme a escritora Mirella Faur, que descreve Gerda (Gerd, Gerdi ou Gerth) como a “Deusa Luminosa”, em seu livro Mistérios Nórdicos (Ed. Pensamento). Para alguns autores, essa luminosidade é a Aurora Boreal.
Na Islândia, em 22 de abril, celebrava-se o Dia da Terra, que comemorava a chegada da primavera e homenageava Gerda, a severa deusa escandinava, Senhora da Terra Congelada pelo inverno, que despertava pelo toque luminoso de Frey, o alegre deus da primavera e da vegetação.
            Antes de se casar, a giganta Gerda habitava uma casa simples de madeira, cercada de montanhas, em Jötunheim, de onde saiu para morar  no faustoso palácio de Frey em Alfheim, junto com Frey, adquirindo, pelo casamento, o status de deusa. Seu nome era associado com a terra, os lugares sagrados e os campos, e o seu casamento foi descrito como “a união sagrada entre o céu e a terra”, celebrado nos rituais dos Sabbats celtas e dos Blots nórdicos.
            No seu livro Ragnarök, o crepúsculo dos Deuses – Uma Introdução à Mitologia Nórdica (Ed. Cultrix) Mirella Faur diz que a principal característica de Gerda era a sua maneira reservada de se comportar e a sua firme recusa em se deixar coagir ou comprar com presentes. “Como seu nome é associado também a local cercado, templo, a sua determinação em não ceder mostra o recolhimento no seu próprio espaço sagrado, simbolizando, assim, a preservação do self”.
            Como giganta, Gerda tinha o potencial de manifestação do poder primal, caótico e destrutivo, que ela controlava e continha com maestria e domínio. Gerda não se deixava governar por impulsos e paixões, pois sabia como dominar o caos e por isso ensinava o respeito e a manutenção dos limites. “Ela orienta, portanto, a manutenção da integridade, o fortalecimento da autoestima, a lealdade dos próprios valores e o recolhimento interior”.
De acordo com Mirella Faur, a deusa Gerda pode ser invocada nas situações em que é preciso vencer a oposição ou a resistência de pessoas ou de circunstâncias, e para ativar e reforçar novos projetos, bem como em rituais de embelezamento, para aumentar a sensualidade e o poder de sedução. Mas a sua proteção vai muito além disso. “Como protetora das mulheres solteiras, Gerda lhes recomendava o respeito pela própria sacralidade feminina, para que assim abrissem seu “templo” apenas no devido tempo, para o parceiro certo e com a necessária observação, avaliação e precaução”.
A escritora explica que “a autopreservação é uma qualidade importante que era conferida por Gerda àquelas que dela precisavam, seja como proteção nas práticas mágicas e espirituais, seja nos relacionamentos familiares e afetivos. Ela protegia contra a falsidade, as ilusões e as armadilhas emocionais ou sensoriais, evitando que as mulheres ficassem enfraquecidas pelas concessões ou submissões, recomendando-lhes a clara observação e a prudência nas escolhas e ações”.
No livro “Ragnarök”, Mirella Faur dá uma significativa maneira de recorrer a essa deusa nórdica. “Gerda ensinava também como fortalecer a hamingja (sorte, poder) pessoal e familiar e honrar os ancestrais, resgatando os vínculos com as energias sagradas da terra, dos ciclos e das estações, das pedras e das plantas”. A sabedoria de Gerda recomendava paciência, autoestima e a reverência pela sacralidade dos espaços exterior (nas práticas espirituais) e interior (o templo do Eu Superior), onde devia ser procurado o silêncio e ouvida a voz divina.
As gigantas são descritas nos mitos como lindas e atraentes mulheres, corajosas e dotadas de poderes mágicos. Em razão de conhecerem o “wyrd” (o destino), algumas delas foram cultuadas com fervor mesmo depois da cristianização.
A relação entre deuses e gigantes, e seus eternos combates, é analisado pela pesquisadora como uma alegoria da conquista e da submissão da sociedade e dos valores matrifocais e geocêntricos pelos povos e deuses patriarcais. “Na Tradição Nórdica, a Terra também era feminina, sempre disputada e conquistada, segundo contam todos os mitos que exaltam a vitória dos deuses sobre os gigantes e seu desejo pelas gigantas, cobiçadas por sua beleza, força física ou poder mágico. Muitas se tornaram amantes ou esposas dos deuses e algumas conquistaram seu status divino graças a essas alianças”. Os deuses jamais subjugavam ou maltratavam as gigantas. “Pelo contrário, elas eram respeitadas, desejadas e adoradas, e seus conselhos e auxílio eram muito valorizados”, diz ela.

            

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