segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Deusas Parteiras e da Fertilidade
Por Vera Pinheiro

            As Deusas Parteiras e da Fertilidade dão o sustento da vida. O aspecto de Parteira diz intimamente à condição humana e, especialmente, à feminina e sagrada, uma vez que todos os seres humanos nasceram de uma mulher. Porém, essa perspectiva tem alcance ainda maior: refere-se, também, aos diversos e necessários partos ao longo da existência, para fazer surgir uma mulher mais forte e feliz, desvinculada de dores e opressões primitivas que se arrastaram por gerações, e liberta de experiências amargas que deixaram marcas de sofrimento, os mais variados, às vezes apenas por ser mulher.
            O nascimento é um ato assistido pela Deusa, sempre foi. Como Senhora que tem o dom da vida, Ela ampara a mulher e a criança no momento em que a sacralidade feminina se une ao eterno por laços que perpetuam a linhagem familiar e a ancestralidade. A gravidez em si é a manifestação da Grande Mãe, e as Suas representações a honravam celebrando a fertilidade, e assim também a dança da vida e da morte, os ciclos da lua, as energias e os seres da natureza, como destaca a escritora e sacerdotisa da Deusa Mirella Faur.
            A fertilidade feminina, cuja avaliação deve ser realizada por profissional especializado em reprodução humana, assinala um período de possibilidades de engravidar, enquanto o adiamento da gravidez é uma opção baseada em vários fatores, tais como estabilidade profissional, a espera por um relacionamento estável, o desejo de atingir segurança financeira, ou a incerteza sobre o desejo da maternidade. Mas se a fertilidade da mulher, no sentido da concepção de um novo ser, se vincula a determinadas condições, a fertilidade no âmbito de seus sonhos, de suas metas e de suas realizações como ser humano não se restringem à idade ou à fase fértil de sua vida, pois, em todos os ciclos femininos é possível recriar a vida e fazê-la feliz e produtiva. Esse é outro enfoque da fertilidade, por uma existência sem restrições pelo fato tempo ou pela idade.
            Em seu livro “Anuário da Grande Mãe”, Mirella Faur enumera Al-Zat, Anahita, Anna Perenna, Ártemis, Asae Yaa, Boan, Djanggawul, Eostre, Epona. Fortuna, Freya, Frigg, Hertha, Madder Akka, Omamama, Ranu Bai e Ymojá como Deusas da Fertilidade, e cita, na mesma obra, Ajysit, Ártemis, Carmenta, Dea Mater, Egeria, Eileithya, Ix Chel, Kalika, Leto, Lucina, mater Matuta, Madder-Akka, Mami, Mawu, Neith, Perséfone, Postvolrta, Sar Akka, Saule, Savitri, Sheelah Na Gig, Srabhi, Uks-Akka, Umaj, Vesta, Ymojá e Zemya como Deusas do Nascimento e Renascimento.
            Dentre as Deusas mencionadas nos dois aspectos – Parteira e Fertilidade – estão Ártemis e Ymojá. Ártemis é a mais complexa das doze divindades olímpicas e representa as variações da natureza feminina como deusa virgem lunar, ninfa caçadora, deusa guerreira, padroeira das florestas e dos animais, além de protetora e ajudante dos partos e das crianças, porque ela nasceu sem complicações e ajudou o parto de seu irmão gêmeo Apollo.
            A natureza de Ártemis é complexa e contraditória, conforme Mirella: ela é virgem, mas cuida e auxilia parturientes e crianças; é caçadora e ao mesmo tempo protetora dos animais, é guerreira e rainha das Amazonas, mas também é A Mãe dos Mil Seios, senhora da fertilidade. Simboliza a dualidade do bem e do mal, ora aparecendo como uma linda donzela, ora deusa vingativa, agindo como parteira amorosa ou feroz guerreira, protetora das crianças sem nunca ter sido mãe, cuidando da vida ou promovendo a morte.
             Originariamente, Ártemis era a Mãe da Floresta, invocada por caçadores e viajantes que eram por Ela protegidos, desde que eles não matassem fêmeas prenhas e filhotes, não caçassem por esporte ou distração, nem desperdiçassem recursos e riquezas naturais.
            No mito grego Ártemis aparece como filha de Zeus e Leto (que originariamente era uma deusa pré-grega chamada apenas “Nossa Senhora”), que tinha sido amaldiçoada pela Hera para não poder parir em nenhum lugar onde os raios solares incidissem. Leto foi ajudada pela sua irmã Asteria, que se transformou em uma ilha mágica, Ortigia, que flutuava sob a superfície do oceano e assim sendo, livre da maldição. Ártemis nasceu com facilidade, mas como seu irmão gêmeo custava a nascer e Leto sofria dores terríveis, Ártemis ajudou a trazer Apollo ao mundo. Foi assim que se originaram os nomes de Ártemis como Eileithya e Partenos, a Parteira amorosa e o título de “Aquela que trazia a luz”. A ilha mágica - renomeada Delos (“brilhante”) - foi consagrada a Ártemis e Apollo, sendo que lá nenhum ser humano podia nascer ou morrer.
            Quando Ártemis completou três anos, foi apresentada ao seu pai e Zeus encantado com sua precocidade lhe ofereceu quaisquer presentes que ela quisesse. Ártemis pediu para jamais precisar casar (“e assim permaneceu, sendo imune aos encantamentos de Afrodite e Eros”), ter mais nomes do que seu irmão, mas ter arco e flechas como ele, poder usar sempre uma túnica curta para correr à vontade nos bosques, ter como companhia 60 ninfas do oceano e 30 dos rios que cuidassem dos seus animais, reger a Lua e a luz (na sua qualidade de Phoebe, “a luminosa”), ter o domínio das montanhas e florestas e o direito de fazer sempre suas próprias escolhas.
            Seus inúmeros títulos se referiam às Suas funções e domínios múltiplos, como regente das florestas, dos animais, da caça, dos lagos, pântanos, rios, mares, campos, das clareiras, da madrugada, da Lua, da luz, dos partos, da cura e da proteção. Ela regia as fases da vida, as transições e dimensões das experiências femininas, (infância, adolescência, gravidez, amamentação, menopausa, solidão, morte), protegendo-as das ações ou interferências masculinas.
            De acordo com Mirella, eram três as grandes áreas regidas por Ártemis: a sobrevivência das espécies (fertilidade, reprodução e nascimentos), o controle do tempo, das águas e das marés e o ciclo de vida, destruição e morte (como caçadora ela mantinha o fluxo e o intercâmbio natural das energias), regendo também a lua negra e a noite, junto com Hécate. As matas, os bosques e campos pertenciam à Ártemis e às Suas ninfas que moravam nas árvores, plantas, nascentes e rios, cuidando e protegendo tudo com amor e dedicação. A paixão e a virgindade são aspectos entrelaçados de forma estranha e profunda, assim como também é o habitat selvagem e longínquo, que resiste e reage a qualquer forma de violação.
            De todas as deusas gregas, Ártemis é a mais próxima das mulheres, por isso é considerada sua Protetora por excelência, como comprovam as dezenas de títulos e atributos a Ela conferidos, distribuídos em várias áreas por eles regidos. Para as mulheres que seguem o Caminho da Deusa, Ártemis personifica o espírito feminino independente, que lhes possibilita estabelecer e defender seus próprios objetivos e escolhas, agindo com confiança e determinação, sem precisar da aprovação masculina. Sentindo-se completas em si e por elas mesmas, o arquétipo de Ártemis reencontrado e reavivado pelas mulheres modernas, lhes confere a habilidade de se concentrar naquilo que é importante, sem se perturbar com a competição, as exigências ou necessidades alheias. O enfoque nos objetivos e a perseverança facilitam a superação dos desafios e obstáculos, direcionando a vontade para alcançar o alvo estabelecido”, diz Mirella.

            MÃE DE NOSSAS ÁGUAS

            Saudada na forma tradicional com “Odo Iyá”, Ymojá ou Yemoyá, mais conhecida entre nós como Yemanjá, é deusa ioruba do mar e da Lua, protetora das mulheres e crianças, considerada a Mãe de todos os Orixás e uma das maiores deusas africanas.  Em sua pátria, era a deusa ioruba regente do Rio Ogum, filha do mar, para cujo seio ela fluía. Era também a Mama Watta, a Mãe D’Água, que deu origem a todas as águas e gerou inúmeras divindades. Mesmo dormindo, ela criava, incessantemente, novas fontes de água.
            O mar engloba as misteriosas origens da vida, que, após inúmeras transmutações e percursos, para ele volta no final do seu ciclo, observa Mirella Faur. “Desde o instante em que nascemos do líquido salgado do ventre materno, até quando os nossos pulmões se preenchem com os fluidos corporais no momento da morte, somos um receptáculo para o caminho da água, o nosso mais precioso e sagrado presente. Desde a antiguidade o mar simbolizou vida, magia e mistério, sendo o berço da própria vida, pois ele existiu desde o começo dos tempos, antes que a terra fosse formada”.
            Mirella lembra que a Deusa se manifesta em todos os elementos: Ela é a Mãe Terra, o Sopro da Inspiração, a Senhora das Chamas, mas o elemento em que a encontramos mais facilmente é a água, pois assim está presente em todos nós. A vida começou no mar e o nosso corpo guarda esta lembrança no líquido amniótico, nas lágrimas, no sangue, nas células e nos fluidos corporais. Nossos ventres e nossas emoções respondem ao chamado das marés e da Lua e retornaremos ao ventre primordial seguindo o eterno fluir do tempo, do seu inicio até o fim. “A Grande Deusa é a quintessência fluida formada das águas, as celestes e as subterrâneas (onde pertencem os córregos, riachos, rios, cachoeiras, fontes, lagos, mares), em cujo ventre a vida se formou como se fosse um peixe”.
            Mirella diz que, originariamente, Yemanjá era divindade das águas doces, regente do rio Ogum, associada à fertilidade das mulheres, maternidade, criação do mundo e continuidade da vida. Por ser regente do plantio e colheita (dos inhames) e da pesca, seu nome ficou Yeyé Omo Ejá, a “Mãe dos filhos peixes”. Nas representações míticas e nas várias imagens seus poderes - gerador e nutridor - são revelados pelos seios fartos e as ancas largas. Nos mitos Ela aparece como uma Grande Mãe, protetora das cabeças dos mortais, generosa nas suas dádivas e representando os diversos papéis da mulher: mãe, filha, esposa, irmã.
            Na transposição para o Brasil foi transferido para Yemanjá a regência do mar, que na África pertencia a seu pai ou mãe, Olokun, pois segundo conta uma lenda “as lágrimas derramadas pelos escravos na travessia do oceano salgaram as águas doces de Iemanjá”. Mas mesmo considerada orixá do mar, Yemanjá continua sendo saudada no Candomblé como Odo Iyá, Mãe do rio, da qual sua filha Oxum herdou o domínio das águas doces.
            Concebida popularmente como a Mãe propiciadora de saúde, prosperidade e boa sorte, além de garantir sanidade, equilíbrio e clareza mental, Yemanjá perdeu aos poucos os seus atributos originais de divindade guerreira e mulher sensual dos mitos africanos e teve ampliado o seu papel de deusa mãe, diz Mirella. À medida do fortalecimento do seu papel materno, Yemanjá foi aproximada da figura de Nossa Senhora com quem Ela é sincretizada em Cuba e no Brasil, e suas festas comemoradas de acordo com o calendário católico (como Nossa Senhora das Candeias na Bahia, do Carmo no Recife, dos Navegantes no Rio Grande do Sul, da Conceição em São Paulo).
            Aos poucos Yemanjá foi assumindo novos aspectos iconográficos trocando seus traços africanos por características européias e sendo retratada como uma mulher branca, com longos cabelos negros e lisos, de vestido azul com cauda, caminhando sobre as ondas do mar, espalhando rosas brancas e usando uma tiara em forma de estrela. Na Umbanda foi atribuída à Yemanjá a chefia de falanges de “caboclos e caboclas do mar” e associada a diferentes Mães d’Água indígenas foi chamada de Iara, a Mãe d’Água ou Senhora Janaina.
            A crescente participação da população nas Suas festas nas praias brasileiras - principalmente nos dias 31 de janeiro e 2 de fevereiro - tornou Yemanjá o orixá mais popular e reverenciado no Brasil, não somente pelos adeptos de Candomblé e Umbanda, mas pela sociedade como um todo.
            Transcendendo as tradições afro-caribenhas que deram origem aos cultos modernos, Yemanjá é cultuada atualmente pelos círculos sagrados femininos, adeptos dos grupos da tradição Wicca e neo-pagãos, nos Estados Unidos e no Brasil, como uma Deusa Mãe. Apesar das suas modificações ao longo do tempo e espaço, os atributos de amor e nutrição que Yemanjá traz para seus adeptos são prova do seu poder milenar como protetora das crianças, mulheres e famílias.
            “Enquanto Olokum detém os poderes de destruição subindo enfurecida das profundezas do mar, Yemanjá rege a superfície e a calmaria. A suavidade da filha pode acalmar a fúria da mãe, pois ambas representam os ciclos de mudança: dar a vida, proteger, abrigar, nutrir, transformar ou dar-lhe o fim. Com a ajuda de Yemanjá podemos superar as marés e mudanças na nossa vida e buscar a tranqüilidade mesmo no meio da tempestade”, assegura Mirella. Quem quiser parir, inclusive a si mesma (tantas vezes quantas forem necessárias para o próprio bem estar) e quem quiser animar a sua fertilidade (inclusa a criativa) deve lembrar-se disso. A Deusa, em seus aspectos de parteira e de fertilidade, está sempre pronta a nos guarnecer, amparar e proteger para quem tenhamos uma vida renascida e plena em qualquer ciclo, para que possamos dar à luz um filho ou um projeto.

              Abençoadas sejamos todas nós.

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