segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Euzile, os opostos do feminino
Por Vera Pinheiro 

            A deusa lunar Erzulie contempla a alma feminina. Nem só feita de virtudes, não apenas as suas sombras. Como cada uma de nós. O dual cabendo num único ser. Os opostos e todo o contraditório do comportamento feminino. A elegância, a vaidade, a beleza, a sexualidade, a feminilidade extremada alternando-se com os excessos, o ciúme que brota do nascedouro do ego ferido e as discórdias que daí se derivam. A Deusa Erzulie é em cada mulher, e dessa constatação escapam as que não querem investigar as entranhas de suas emoções e sentimentos. Comparar-se com Ela, identificar-se em sua dualidade, impõe voltar os olhos para quem nós, real e secretamente, somos. Adoráveis, sábias, amorosas, mas ao sopro dos ventos contrários fazendo o despertar de nossa face mais obscura, rejeitada e temida.
            Erzulie (nome haitiano) ou Ezili (nome africano) é a deusa do amor haitiana cujas raízes remontam à África Ocidental. É conhecida como uma deusa lunar muito elegante, sensual, afetuosa, perfumada e ricamente vestida, que vive com grande luxo e passa grande parte de seu tempo embelezando-se. Quem jamais, em tempo algum, se enquadrou em pelo menos parte de uma descrição como essa? Ela, a Deusa, gosta de flores, joias, belos vestidos e delicados perfumes. Alguma semelhança conosco não é mera coincidência.  Tampouco, acaso. Não é inútil.
Em seu aspecto luminoso, Erzulie é regente do amor, da alegria, da beleza, da magia, da cura e da boa sorte. Quase tudo o que aspiramos ser! No Caribe, Erzulie era chamada de “La Siréne”, sendo representada alimentando-se de bananas, como uma sereia ou serpente aquática. Nesse aspecto, regia a água salgada e era amante do Deus Agone T´Arroyo. Como regente da água doce, da beleza e do amor, era chamada de Oxum na tradição ioruba e ainda de “A Senhora do Vodu”, sendo considerada a esposa do deus Damballhah.
Ela é um sinônimo de beleza, amor, doçura e sensualidade e é reconhecida por sua generosidade. As artes, em particular a dança, são os seus domínios. Rios, riachos, lagos e cachoeiras lhe pertencem e Ela pode curar problemas de útero através de sua água fresca. A “raquete” que segura é de Osogbo, Nigéria, e pertence a uma sacerdotisa de Oxum, sendo mediador entre o divino ou o mundo natural e o mundo das pessoas, e a cruz no círculo indica o encontro dos dois mundos.
Erzulie é frequentemente referida como uma mulher negra muito bonita e de grande riqueza, vestindo quantidade excessiva de joias. Ela usa três anéis de casamento, um para cada marido - Damballah, Agwé e Ogoun. A ela são consagrados os quartos de dormir, razão pela qual a cama aparece como um dos seus emblemas. Outro é o coração. Suas cores são rosa, azul, branco e ouro, podendo estar em roupas do altar, itens, velas, presentes, garrafas e até mesmo alimentos. Suas oferendas favoritas incluem joias, perfumes, tortas doces e licores. No compartimento a Ela dedicado nos templos de vodu, nunca faltam sabonetes, toalhas, perfumes e outros artigos de toucador. Seus dias sagrados são 28 de fevereiro, 12 e 16 de julho de todos os anos. É de costume no Haiti realizar uma procissão rumo à cachoeira sagrada da deusa do amor Erzulie Freda. As pessoas invocam seus poderes mágicos com cânticos e danças extáticas. Depois se banham nas águas detentoras de poderes milagrosos de cura e regeneração e ofertam flores e presentes em agradecimentos.
Amante da beleza e elegância, Erzulie simboliza a feminilidade e a compaixão. No entanto, ela também tem um lado sombrio, que seria consequente à característica de ser ciumenta, mimada, vaidosa, volúvel, caprichosa, extravagante e até mesmo tirânica. Tão humanamente feminina em seu aspecto escuro quando, em vez de propiciar o amor, Ela provoca ciúmes, egoísmo, discórdias e vinganças. Por pior - e difícil - que seja absorver o conceito da sombra em uma divindade, ela representa um aspecto que realmente precisa ser encarado, curado e superado no universo feminino. Negado, jamais. Nem mesmo em uma Deusa.
Ela possui vários aspectos ou qualidades. Erzulie Freda Dahomey, o aspecto Rada de Erzulie, é o espírito do amor, da beleza, das joias, dança, luxo e das flores. A Grande Erzulie é tida como uma anciã austera que chora por não ter sido amada quando jovem e bela e agora é velha e feia, e ninguém quer saber dela. Erzulie Ge-Rouge (Erzulie de olhos vermelhos) nunca fala, mas derrama lágrimas de fúria e dor através de seus olhos semicerrados. Ezili Couer Noir (Erzulie de coração negro) é um espírito violento e temido por sua crueldade. Erzulie Trois Femmes (Erzulie três mulheres) aparece sob a forma de três. Como Erzulie Dantor tem o coração, que é seu vevé (brasão), transpassado por punhais, e Ela é, então, o amor paixão, que sublima o amor selvagem.
Na iconografia Cristã é associada com a Mater Dolorosa, a Virgem Maria, usando pérolas e ouro, entre gemas com forma de coração e medalhões de todos os tipos. Uma espada atravessa seu coração e Ela suporta a ferida calmamente, segurando o manto sob a espada com as próprias mãos. Deusas e mulheres, cada uma com suas dores tamanhas, a sensatez de mãos dadas com o paradoxo, a coerência passeando com o disparate, enquanto cruzamos as fronteiras de nosso ser sagrado e humano, em busca da totalidade.
Não é confortável reconhecer e encarar os aspectos sombrios que nos habitam, mas olhar para eles é um processo necessário, embora doloroso, à evolução e ao crescimento. Com a aceitação sem julgamento de sua existência vem a consciência e a cura para, enfim, fazer brilhar a intensa luz que coexiste com a sombra em nosso ser. Na imensidão do universo feminino, Erzulie nos revela que, em todas as formas de relacionamento, podemos vivificar as nossas melhores qualidades, atributos e virtudes ou dar vazão ao inverso, ao reverso e ao avesso da sacralidade que existe em nós. A inspiração é divinal, a escolha é nossa, o resultado também. Que a Deusa anime toda a nossa feminilidade, enquanto acolhe as dúvidas, incertezas e dificuldades do exercício de ser mulher.


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