segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O despertar da nossa Deusa Gerda
Vera Pinheiro

A Deusa está dentro de nós. Às vezes, totalmente esquecida; de outras, apenas adormecida em nossa lembrança ancestral, mas basta um querer profundo para que Ela se manifeste e um chamado do coração para que nos atenda. E o chamado é nosso, pois que a Deusa está – como sempre esteve – presente e disponível. Essa conexão não é difícil, porque, para a Grande Mãe, não há impossibilidades além das que, por nosso livre arbítrio, escolhemos para atravancar a nossa vida, do ponto de vista físico, mental, emocional, espiritual ou energético.
A um chamado nosso, vindo das entranhas do nosso ser mais intensamente revelado, a Deusa nos acode e nos acolhe, nos dá colo na solidão e força nas batalhas, sabedoria nos desafios e equilíbrio nas dificuldades, além de uma alegria que faz brilhar a vida dentro e fora de nós. A Deusa é uma luz que se acende em nós e que se sustenta em qualquer escuridão que tenhamos de enfrentar, seja uma dor, um desapontamento, uma frustração ou um sofrimento.
A Deusa, que tem Mil Nomes, se chama Gerda também. Reverenciamos Gerda, a Senhora da Terra Congelada que habita dentro de nós, reconhecendo as nossas limitações humanas, já que os nossos dons espirituais são infinitos, ainda que não utilizados em sua plenitude.
Um dos limites que costumamos nos impor é o que impede a própria felicidade. Muitas pessoas, por suas completas e respeitáveis razões, mantêm congeladas as suas emoções para que, julgam elas, se mantenham a salvo do amor e da paixão, negando que esses sentimentos sejam fontes da energia que movimenta a vida e lhe dá sabor. Lutam uma vida toda para não se entregar aos prazeres e dissabores do amor e da paixão, que não se dissociam, porque mutuamente se alimentam e se fortalecem, mantendo, cada um, as suas indissociáveis características.
Pensam, essas pessoas, que o amor enfraquece e que a paixão fragiliza, então fogem desses sentimentos como se pudessem viver sem eles. E não, claro que não. Não podemos viver sem amor e sem paixão, que vão muito além do senso comum que limita o amor e a paixão à troca emocional entre duas pessoas.
O amor é tão gigantesco e grandioso que não pode ser limitado ao que existe nos parcos limites de nossos traçados humanos, ou seja, embora exista pessoa especial que mereça tamanho e dedicado amor – e tomara que exista! -, o amor precisa se expandir para além dos relacionamentos amorosos, a fim de atingir toda a grande irmandade universal. Não há amor que seja plena e inteiramente feliz em se circunscrever somente ao limitado círculo de nossas relações humanas. Há que se amar a Natureza em volta, porque ela expressa a generosidade do amor. Há que se amar todos os seres da criação, porque o mesmo amor a todos nos criou. Há que se amar os nossos iguais, por mais diferentes que se nos pareçam, pois que eles vieram da mesma expressão criativa que tudo gerou.
E enquanto choramos ausências, por pessoas que não vieram ou por pessoas que nos deixaram, a vida nos pede mais e mais amor por tudo e por todos que respiram a existência, apesar de nossas tristezas ou do pouco mérito alheio. Não nos cabe julgar. Cabe-nos amar indistintamente todos os seres, e então conheceremos a verdadeira unidade. E com todos somos um. O que a um fere, em nós doi. O que a um contenta, a nós traz felicidade. Somos indivisíveis com o Todo.
As nossas decepções têm a capacidade de nos impedir de crer de novo, de acreditar na felicidade outra vez, sem reservas nem resguardos. Então, não nos entregamos com toda a nossa identidade a um novo amor, por pensarmos que ele carregará os infortúnios de relações passadas, que, na realidade, entre lágrimas e mágoas, nos serviram de aprendizado e de instrumento para a nossa evolução. Mas é preciso crer e se entregar, se a felicidade é o que queremos para as nossas vidas. Um carro não anda com o freio de mão puxado, e a gente não avança no amor quando se deixa tomar de desconfianças, ainda que nos seja exigida alguma – e sempre bem vinda – cautela, o outro nome da deusa Gerda. O problema é quando a necessária cautela se torna a dispensável repressão dos sentimentos e a gente se torna – ou quer se tornar – blindada aos nossos mais genuínos sentimentos.
Apesar de nossas justificáveis dúvidas, a paixão nos é vitalmente necessária. Ela nos anima quando a vida se apresenta desbotada e nos empolga quando tudo parece sem qualquer graça. É preciso apaixonar-se pela própria existência e, claro, por quem se é. A paixão não é apenas ilusão dos sentidos. É o que dá sentido às nossas ilusões. Evitar a paixão é botar gelo em uma das mais autênticas emoções humanas. É preciso se apaixonar pela vida, por novos projetos, por toda a humanidade.
Congelar os próprios sentimentos até pode dar certo, mas é devastador do ponto de vista do aprendizado das relações humanas. Não crescemos se não nos entregamos aos sentimentos, não aprendemos se fugimos da essência de qualquer emoção. Tudo o que vivemos nos acresce e nos faz crescer, se não ficamos no limite entre o que achamos que nos preserva e o que deveria ser. Todos os dias a gente precisa avançar no aprendizado do amor e da paixão, sinônimos da nossa essência humana.
Quando Gerda se deixou tocar pelo toque luminoso de Frey, o alegre deus da primavera e da vegetação, essa deusa fez uma concessão a novas possibilidades, apesar de todas as suas anteriores e firmes convicções, e ninguém pode criticá-la por isso. A sua flexibilidade permitiu que conhecesse o amor de Frey, que lhe dedicava grande devoção. Ela aceitou a proposta de casamento dele, não sem antes estabelecer as suas regras, e esse limite a manteve em saudável individualidade. Fez suas exigências, tomando-lhe bens preciosos como a espada e o cavalo, por julgar-se merecedora desses dotes, e com isso nos ensina a valorizar quem nós somos, com plena capacidade de exigir o que seja melhor para nós, ainda que vislumbremos os pedidos alheios.
Deixemo-nos tocar pela amorosidade dos outros sem medo nem qualquer reserva. Se não pudermos acreditar, que possamos nos permitir a possibilidade de aprender com o que vier. Se não pudermos confiar, que tenhamos a convicção de que tudo faz parte de um projeto divino, que nos inclui (e que bom!). Que o amor possa fazer adormecer as nossas excessivas precauções e nos fazer receptivas a pessoas e a novas chances de felicidade. Que os nossos temores sejam menores do que a nossa vontade de ser feliz. Que o gelo de nossas inseguranças sejam derretidos pelo amor e pela paixão, e assim como Frey conquistou Gerda, elevando-a à condição de deusa, que sejamos deusas em nossa máxima expressão para que um Frey nos encontre e, embevecido, nos ofereça o melhor dos mundos, pois, afinal, merecemos! Que a deusa Gerda desperte em nós e nos faça mais receptivas ao amor, apesar de todas as nossas desconfianças e receios. E que os homens se justifiquem como deuses em nossas vidas, fazendo por merecer essa prestigiosa condição!




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