segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Deusa Befana: a alegre sabedoria da anciã
Vera Pinheiro

Buona Befana!
La Befana vien di notte
Con le scarpe tutte rotte
Col vestito alla romana
Viva! Viva La Befana!

         A deusa italiana e etrusca Befana, chamada de Marantega (Mãe Antiga) era celebrada no final dos Doze Dias, intervalo entre as celebrações antigas do solstício de Inverno (Sabbat Celta Yule) e a data que corresponde à atual festa cristã da Epifânia. No calendário celta, esta noite chama-se “A Décima Segunda Noite” e assinala o fim dos festejos de Natal (Yule) e o início das atividades interrompidas durante as festividades. O período de doze dias entre o Natal e a Epifânia era, antigamente, um tempo de repouso e alegrias. Segundo a tradição, as decorações de Natal devem ser retiradas e guardadas no dia 5 de janeiro. Os povos antigos, nesta data, abençoavam a terra e as casas, oferecendo sidra e bolos às árvores frutíferas para atrair a prosperidade das colheitas. Nesse intervalo, relata Mirella Faur, as Mães Antigas ensinavam à humanidade os segredos da agricultura e das artes domésticas: fiar, tecer, bordar, cuidar e educar as crianças, manter vivas as tradições ancestrais e os antigos ritos sagrados. “Elas recebiam oferendas de pão, mel, leite e tranças de pão para substituir as oferendas feitas pelas mulheres com seu próprio cabelo, do qual se guardava uma parte para ser usada em curas ao longo do ano, sempre que necessário”.
            Na Sicília, a memória de Befana permanece na figura e nos costumes de La Strega ou La Vecchia (bruxa, velha), a Anciã de outrora, que até hoje deixa presentes para as crianças boazinhas ou uma varinha e pedaços de carvão para as desobedientes, na véspera de Epifânia (6 de janeiro), vindo das montanhas cavalgando uma vassoura e descendo pela chaminé. Ela usava sua vassoura para varrer as energias negativas que se acumulavam ao longo dos dias e tinha um bode no qual montava para presentear com doçura e carinho as casas dignas de sua visita. Então, diz a lenda, era costume ouvir pelas ruas o som do sino que o bode de Befana trazia no pescoço. Era sinal de que casa poderia ser ou não abençoada e todos aguardavam muito por isso. Era o respeito para com sua sabedoria, sua arte, sua história.
            Um costume antigo era pendurar ervas nas portas para que essa deusa abençoasse. Se a erva permanecesse verde e brilhante após a passagem de Befana, a casa teria fartura, felicidade, prosperidade e fertilidade. Mas se a erva secasse, o frio seria longo e seria preciso meditar sobre os passos e as direções a serem seguidas. Não havia punição, mas um aviso de que era preciso mais dedicação às coisas realmente importantes.
            A origem dessa tradição é incerta e há várias versões sobre o seu surgimento, as mais comuns remontam ao período arcaico e fundem elementos do folclore e da tradição cristã. Uma delas dá conta de que Befana foi uma velhinha que auxiliou os três reis magos a encontrarem Jesus quando ele nasceu. 
            Além do mito de que seu nome provém da celebração da Epifania, há também  sugestões de que Befana deriva da deusa pagã sabina/romana denominada Strina, que patrocinava os presentes de ano novo, "Strenae", da qual, de fato, provém o seu nome. Os presentes de Strina eram do mesmo tipo dos de Befana - figos, tâmaras e mel. De seu nome derivam palavras como a latina strix (coruja - animal relacionado à noite, à magia, à sabedoria e aos mistérios), e a italiana strega (bruxa). Talvez daí a ideia de representar Befana como bruxa. De acordo com os mitos desses povos, a deusa Strina era uma deusa anciã, uma velha sábia celebrada ao fim das festividades do solstício de inverno, que durava cerca de doze dias e marcava o auge do inverno - e o consequente retorno do sol, da luz do mundo. Strina trazia presentes para as pessoas: o retorno da vida e da luz na terra. Ela deixava frutas secas e pães nas casas como presentes que simbolizavam o fechamento do ciclo anterior e um recomeço, com nova vida e novas esperanças.
            A festa da Befana pode derivar de antigos elementos folclóricos pré-cristãos, adotados e adaptados pela tradição cristã. A origem desta figura provavelmente se pode vincular com tradições agrárias pagãs relacionadas com o começo do ano. Befana é celebrada em toda a Itália, onde é um ícone nacional, mas a comuna de Urbania é considerada sua “casa” oficial. Todo ano há um grande festival para celebrar o feriado, e as pessoas se reúnem para celebrar a data. A passagem de Befana é uma das tradições pagãs que mais divertem as crianças italianas, que escrevem cartas para Befana e costumam deixar meias e saquinhos pendurados para receber chocolates, caramelos e brinquedos, mas estabelecendo com Ela uma relação de amor e medo. 
            Semelhante à passagem de Nicolau para os criatãos europeus e à passagem dos Reis Magos trazendo presentes no dia 6  de Janeiro, o folclore popular diz que Befana visita todas as crianças da Itália na noite de 5 para 6 de janeiro, para encher de caramelos as meias das que se comportaram-se bem, ou com pedaços de carvão - ou “carbones”, uma representação de carvão em forma de doce – para as que não se comportaram direito. Sendo uma boa dona de casa, diz-se que varrerá o piso antes de sair. A tradição recomenda que as crianças da casa deixem uma garrafinha de vinho e uma porção de um prato típico ou local para Befana.
            Ela é representada como uma velhinha de xale negro, coberta de fuligem porque entra nas casas pela chaminé. Veste saia rodada, muitas vezes remendada, avental com um grande bolso e exibe quase sempre um lenço amarrado na cabeça, mas também pode usar o chapéu tradicional de bruxa, calça chinelos velhos e surrados, e jamais lhe falta uma vassoura para montar. Ela voa montada numa vassoura, sempre sorri, e carrega um cesto cheio de doces e presentes (ou carvão, dependendo do merecimento). Aliás, mesmo quem ganha coisas boas quase sempre costuma ganhar um carvãozinho também. O carvão representa a transformação pela qual todos nós podemos e devemos passar, para melhorar sempre. Entre as lembrancinhas com significado “educativo”, também estão as pedrinhas, ligadas à busca pela estabilidade e firmeza, assim como representam a superação dos obstáculos do caminho.
            Em algumas regiões da Itália, as pessoas se vestem como Befana, com um lenço pendurado no pescoço, saia, capa, óculos e junto com os seguidores passam pelas casas que tem uma bonequinha com a imagem da Befana nas janelas que é uma espécie de sinal de que a deusa Befana e seus seguidores são bem vindos àquela casa. Depois do final da celebração de La Befana, as bonecas são queimadas como forma de simbolizar que as coisas ruins que aconteceram no ano anterior devem ser esquecidas e que no ano seguinte coisas boas vão acontecer.
            Algumas obras associam Befana à Hécate, enquanto desenhos do século XIX mostram La Befana como a Deusa Mãe, sentada e cercada por frutos, grãos e outros itens da colheita. Para reforçar essa teoria, a queima da efígie de La Befana nas celebrações, é feita em uma fogueira de espigas de milho, gravetos e galhos de pinheiro, empilhados. A tradição fala que se a fumaça for em direção ao Oeste, a colheita será pobre. Se for para o Leste, será um ano de abundância.
            Observa-se uma relação entre a figura de La Befana e os espíritos ancestrais e, assim, ela passa a representar uma ancestralidade mítica que retorna a cada ano. Sua principal função é reafirmar a ligação entre a família e os ancestrais, através da troca de presentes. As crianças ganham presentes que simbolizam civilizações arcaicas, já que elas são consideradas como aquelas que guardam e prolongam a memória da ancestralidade. Em algumas regiões, como na Toscana, Befana é figura mascarada que guia um cortejo de crianças e recebe ofertas das famílias que, em troca, recebem dela o presente da prosperidade.
            Quanto às meias penduradas nas lareiras, elas não são apenas portadoras dos presentes ou de ofertas de alimentos: ela própria - a meia - é um presente e tem função evocativa, já que trabalhada artesanalmente com figuras míticas que são patronos dos narradores de histórias e tecelões, próximos de Befana, tais como Frau Holda e Bertha, que visitam as casas durante o período natalino.
            Por fim, Befana ocupa uma função pedagógica, como uma espécie de “educadora de fora”, que lembra e pune, e tem importante papel no desenvolvimento das crianças. A “Grande Avó” que é, acompanha as várias fases da vida da criança e os ritos de iniciação do Ano Novo. A tradição de que La Befana chega voando em uma vassoura testemunha sua associação às plantas e animais que na antiguidade tinham um valor sagrado como representativas ou simulações da linha totêmica da ancestralidade, tanto quanto eram divindades. Na mitologia, o galho das árvores é a casa do espírito dos ancestrais, que recebeu a mágica função de voar, que tanto poderia simbolizar a evocação quanto o distanciamento do espírito. Estas ações eram concebidas como uma viagem, um vôo para um reino distante.
            Originalmente, Befana é uma Deusa do Inverno, da Magia, da Noite, da Lua Minguante, da Sabedoria, do Destino. Como Mãe Antiga é guardiã dos mistérios e das tradições ancestrais. É a sábia, a tecelã, agente de cura e transformadora. A Anciã conhece os caminhos entre os mundos, sendo um repositório de sabedoria feminina, do conhecimento da mulher que não mais menstrua, mas mantém dentro de si o seu poder. A Anciã é fonte de sabedoria e de compreensão. Ela é conhecedora dos caminhos da magia e tece a teia cósmica, sabedora da trama que  envolve tudo, sendo esse tudo parte do todo. Ela pode ser ao mesmo tempo bondosa e simpática como uma doce velhinha, ou a bruxa das sombras, assustadora e cruel. Assim é Befana, que nos instiga a ir cada vez mais para o profundo de nós, nos auxiliando a perceber e compreender o momento de mudança, o momento de renascer.
            Mirella Faur lembra que a igreja cristã proibiu o culto e as oferendas das deusas anciãs – consideradas bruxas nocivas e perigosas para a alma cristã – assim como as danças nos campos para ativar a fertilidade da terra, divulgando apenas os aspectos “demoníacos” destes costumes. Mas, na noite de 5 de janeiro, reverencie e receba Befana com velas acesas pela casa, incenso de mirra ou olíbano. Abençoe e consagre seu espaço, doméstico ou profissional, aspergindo água da fonte ou de chuva, acendendo um incenso de mirra, bejoin ou olíbano, orando para seus protetores espirituais e recitando algum mantra ou prece de proteção. Faça oferendas com pães, mel, leite ou sidra para a Terra e peça as bênçãos de prosperidade e proteção de La Vecchia para você e para a sua casa, agradecendo as futuras realizações e aprendizados no novo ano. Para garantir sua situação financeira, chupe três sementes de romã e três grãos de trigo ou arroz. Coloque-os depois em sua carteira ou bolsa, junto com três folhas de louro e um objeto de ouro, pedindo às deusas do destino que assegurem sua segurança material.
            Ainda de acordo com Mirella Faur, podemos perceber em todas as lendas pagãs, bem como nos contos de fada, a presença poderosa do arquétipo da Deusa Anciã, Senhora dos ciclos, transições e transmutações, cujos significados e atributos não eram ignorados ou distorcidos, mas conhecidos e reverenciados com sabedoria e aceitação das leis inexoráveis da vida e da morte, seguidas de renovação e renascimento. “Cabe a nós, mulheres seguidoras da Tradição da Deusa, honrar e compreender as leis do eterno girar da Roda Cósmica e Telúrica manifestadas nos inúmeros aspectos, situações e eventos da nossa trajetória humana, vivendo plenamente e sabiamente a realidade presente e confiando na proteção e orientação divinas”, diz a mestra. E eu assino embaixo.


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