segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Sob a proteção de Ísis
Vera Pinheiro

            Ísis (em egípcio, Aset) é uma das principais divindades da mitologia egípcia que foi cultuada e adorada no Egito, no Império Romano, na Grécia, na Alemanha, e ainda venerada em inúmeros lugares em todo o mundo, como deusa da maternidade e da fertilidade, modelo de mãe e de esposa ideais, protetora da natureza e da magia. Além de ser considerada a representação maior da essência materna e da esposa perfeita, é atribuído a Ela também velar pelo reino natural, portanto, por todas as dimensões da existência e da magia. Deusa lunar, Ísis simboliza o princípio feminino personificado na natureza e no cosmos, outorga a vida e a saúde, e é protetora e condutora dos mortos.
            Os primeiros registros escritos acerca de sua adoração surgem pouco depois de 2500 a.C, durante a V dinastia egípcia, período em que são encontradas as primeiras inscrições literárias a seu respeito, embora o seu culto apenas tenha proeminência ao final da história do antigo Egito, quando se iniciaram também cultos firmemente estabelecidos de muitas outras deusas.
O culto à Ísis difundiu-se além das fronteiras do Egito e se alastrou por todas as partes do Império Romano. Na península Itálica, a fé nessa deusa egípcia era uma força dominante. Em Pompeia, evidências arqueológicas revelam que Ísis desempenhava um papel importante. Em Roma, templos e obeliscos foram erguidos em sua homenagem. Na Grécia Antiga, os tradicionais centros de culto em Delos, Delfos e Elêusis foram retomados por seguidores de Ísis, e isso ocorreu no norte da Grécia e também em Atenas. Inscrições mostram que Ísis possuía seguidores na Gália, na Espanha, na Alemanha, na Arábia Saudita, na Ásia Menor, em Portugal, na Irlanda e na Grã-Bretanha.
           A morte e o renascimento de Osíris eram revividos anualmente em rituais e o Egito preserva uma cerimônia denominada a Noite das Lágrimas, lembrando as lágrimas de Ísis durante a busca de seu amado Osíris. Ela ocorre em junho, portanto é conhecida como Festival Junino de Lelat-al-Nuktah. Nessa tradição, mantida pelo povo árabe, revive-se o enlace de Geb e Nut, ou seja, da Terra e do Firmamento, e o surgimento de sua descendência, que inclui Ísis e Osíris, além de seus irmãos, que assim totalizam nove deuses, a famosa Enéada, que teve seu princípio com a Divindade criadora originária.
             Juntos, Ísis e Osíris simbolizavam a realeza do Egito. Ela representava o trono no qual despontava o poder real do marido. O culto desta deusa foi de grande importância na Antiguidade, especialmente no Império Romano, no qual ela obteve muitos discípulos como Senhora da Lua e Mãe do Sol, rainha da Terra e das estrelas, deusa-mãe do amor e da magia, perdurando o seu culto até à supressão do paganismo na Era Cristã. Hoje a arqueologia comprova este fato, e é possível encontrar vestígios de templos e monumentos piramidais em todas as partes de Roma.
        A estrela Spica (“Alpha Virginis”) e a constelação, que modernamente corresponde aproximadamente à de Virgo, surge no firmamento acima do horizonte em uma época do ano associada à colheita de trigo e grãos e, desse modo, ficou associada a divindades da fertilidade, como Hathor. Ísis viria a ser associada a esses astros devido à posterior fusão de seus atributos com os de Hathor.
          Ísis também assimilou atributos de  Sopdet, deusa da mitologia egípcia descrita como uma mulher com uma estrela de cinco pontas sobre a cabeça, que foi a deificação de Sothis, a estrela considerada por quase todos os egiptólogos como a Sirius. O nome Sopdet significa “Ela quem é”, uma referência ao brilho de Sirius, que é a estrela mais brilhante no céu noturno. Logo após Sirius aparecer no céu de julho, o rio Nilo começa seu ano de inundação, e assim os antigos egípcios ligaram os dois fenômenos. Consequentemente, Sopdet foi identificada como uma deusa da fertilidade do solo, que foi trazida a ele por inundações do Nilo. Outras fontes indicam que o surgimento de Sirius no firmamento significava o advento de um novo ano e que os antigos egípcios acreditaram que as cheias anuais do rio Nilo ocorriam por causa das lágrimas de tristeza de Ísis pela morte de seu marido Osíris.
     O mito sobre Ísis, de grande importância nas crenças religiosas egípcias, retrata-a como uma linda mulher, de longos cabelos negros, pele morena, olhos brilhantes como duas contas de ônix, usando um vestido ricamente bordado com esmeraldas e rubis, adornada com uma tiara e várias pulseiras de ouro, e coroada com o hieróglifo (um sinal de escrita de antigas civilizações) que significava “trono”. 
      Embora Ísis fosse considerada como mãe universal, ela era venerada como protetora das mulheres em particular. Sendo aquela que dá a vida, que preside a vida e a morte, ela era protetora das mulheres durante o parto e confortava aquelas que perdiam seus entes queridos. Em Ísis as mulheres encontravam o apoio e a inspiração para prosseguirem suas vidas. Ísis proclamava ser, em hinos antigos, a deusa das mulheres e dotava suas seguidoras de poderes iguais aos do homem.
        O MITO - Ísis é a primeira filha de Geb (deus egípcio da terra) e Nut (deusa do firmamento), esposa de seu irmão Osíris e mãe de Hórus (deus dos céus deus do firmamento, inebriado de energia solar, cuja designação na língua egípcia era Horu-sa-Aset, que significa exatamente Hórus, Filho de Ísis), com os quais integra a principal tríade (ÍSIS, Osíris, Hórus) da religião do antigo Egito. O outro irmão, Seth, responsável pelos desertos, se transforma no principal inimigo do casal.
         Seth invejava profundamente Osíris, que tinha como missão governar a terra, mais especificamente o Egito, e assim tinha a oportunidade de transmitir aos homens conhecimentos preciosos sobre agricultura e trato com os animais. Segundo a mitologia egípcia, Osíris é traído por Seth, morto e esquartejado por esta divindade que é associada à essência do mal.
       Ísis, desesperada, procurou e conseguiu reunir todas as partes do corpo que tinham sido despedaçadas e espalhadas por todo o Egito por Seth e, por meio de suas habilidades mágicas e de seu poder da cura, recompõe o corpo do amado Osíris, com exceção do genital masculino, trocado por um órgão de ouro. Após isto, ela consegue procriar com o corpo de Osíris, gerando o filho solar Hórus, e manteve o corpo recomposto do marido para proteger Hórus enquanto criança, para que ele crescesse e então tivesse direito a reivindicar o trono usurpado por seu tio Seth, a quem ele mata.
     Após ter assimilado muitos dos papéis da deusa Hathor, a cobertura de cabeça de Ísis passa a ser a de Hathor: os cornos de uma vaca, com o disco solar inscrito entre eles. Às vezes, também representada como uma vaca, ou uma cabeça de vaca. Frequentemente, porém, era retratada com o seu filho pequeno, Hórus (o faraó), com uma coroa e um abutre. Também foi representada ou como um abutre pairando sobre o corpo de Osíris, ou com Osíris morto em seu colo enquanto o trazia de volta à vida por meio de artes mágicas.
            Literalmente, o seu nome significa "Ela do trono". A sua cobertura original para a cabeça foi um trono. Como personificação do trono, ela foi uma representação importante do poder do faraó, assim como o faraó foi representado como seu filho, que se sentou no trono que ela forneceu. Na maioria das vezes, Ísis é retratada segurando apenas o símbolo Ankh, cruz ansata, que na escrita hieroglífica egípcia era o símbolo da vida, conhecido também como símbolo da vida eterna. Os egípcios usavam-na para indicar a vida após a morte. Entretanto, no período final de sua história, as imagens mostram-na com itens geralmente associados apenas a Hathor: o sistro sagrado e o colar símbolo de fertilidade “menat”.
       O sistro é um instrumento de percussão que produz um som de chocalho. O instrumento já existia na Suméria do ano 2500 a.C. No Antigo Egito recebia o nome de sechechet e era utilizado por mulheres da nobreza e pelas sacerdotisas. Geralmente feito em bronze, também existiam exemplares em madeira e em faiança, uma espécie de cerâmica branca. Os sistros estavam particularmente associados ao culto da deusa Hathor, mas poderiam também ser empregados no de Ísis. Agitando-se o sistro pelo cabo produzia-se um som agudo e prolongad, muito apropriado para acompanhar ou ritmar o canto.
     Acreditava-se que o sistro tivesse virtudes de apaziguamento, aliviasse as mulheres no parto, afastasse os malefícios e abrandasse os modos das pessoas. Eram sempre tocados em momentos de alto significado religioso como, por exemplo, quando chegavam os que estavam de luto, quando o faraó e a rainha apareciam, quando as cantoras começavam a cantar. As sacerdotisas de Hátor e as de Bastet costumavam agitá-los como parte dos rituais que realizavam e, ao que parece, supunha-se que eles estimulavam a fecundidade. A própria forma do instrumento tinha conotações com a junção das energias masculina e feminina: sua parte superior continha as sementes ou címbalos, simbolizando o ventre da mulher e o cabo alongado simbolizava o falo do homem. Quando o culto de Ísis se difundiu na bacia do Mediterrâneo, o sistro tornou-se um instrumento popular entre os romanos.
     O menat é um misto de instrumento musical e colar. Eram largom e pesadom colares feitos com pérolas ou contas coloridas de cerâmica, pedra dura ou metal precioso, montadas em semicírculo formando um grande crescente. A borda externa podia ou não ser guarnecida por pingentes. Eram dotados de longos contrapesos, os quais equilibravam seu peso considerável quando eram colocados no dorso do portador. Ao serem agitados nas festividades produziam o ruído característico do choque das miçangas. Esse som transmitia vida e poder, tornava as jovens mulheres fecundas, mas também favorecia o renascimento espiritual do ser no além-túmulo.
     Esses instrumentos também eram empunhados e agitados principalmente pelas sacerdotisas, que podiam usar o colar no pescoço ou, levando-o nas mãos, apresentá-lo à pessoa a quem desejasse oferecer boas vibrações. Diversos estudiosos concordam que o menat simbolizava prazer e júbilo, tanto do ponto de vista da fertilidade, quanto da perspectiva da satisfação sexual. As suas fileiras de contas e o contrapeso de aparência fálica parecem combinar os princípios feminino e masculino em ação. Ele evocava a união de Ísis e Osíris na criação de Hórus e, ao ser oferecido aos mortos, o instrumento permitia a revitalização deles no outro mundo.
    Por fim, na mitologia egípcia, Hórus (ou Horu-sa-Aset, Heru-sa-Aset, Her'ur, Hrw, Hr ou Hor-Hekenu) é segunda pessoa da divina família egípcia, composta por Osíris, o pai; Hórus, o filho e Ísis, a mãe. Hórus tinha cabeça de falcão e os olhos representavam o Sol e a Lua. Matou Seth, tanto por vingança pela morte do pai, Osíris, como pela disputa do comando do Egito. Após derrotar Seth, tornou-se o rei dos vivos no Egito. Perdeu um olho lutando com Seth, e o Olho de Hórus, anteriormente chamado de Olho de Rá, que simbolizava o poder real, foi um dos amuletos mais usados no Egito em todas as épocas. Depois da recuperação, Hórus conseguiu organizar novos combates que o levaram à vitória decisiva sobre Seth.
       O olho que Hórus feriu (o olho esquerdo) é o olho da Lua, o outro é o olho do Sol. Esta é uma explicação dos egípcios para as fases da lua, que seria o olho ferido de Hórus. O Olho de Hórus, um dos amuletos mais importantes no Egito Antigo, tornou-se um importante símbolo de poder também conhecido como udyat e significa poder e proteção e era usado como representação de força, vigor, segurança e saúde.
      E como, afinal, podemos trazer a deusa Ísis para a nossa vida? As Melissas, em canção de Clarissa Vargas, sugere apelar: “Ísis, me proteja! Oh, Grande Ísis, me proteja nas suas asas, gavião. Ísis me preencha! Oh, Grande Ísis, me preencha com sua cura e visão! ÍSIS me preencha! Oh, Grande Ísis, me preencha de amor e gratidão! ÍSIS que abençoa, faz a cura e voa. Ísis eu sou tua!”. E assim tem de ser, com entrega, qualquer apelo à Grande Ísis. Não apenas pela hora da morte, para que nos conduza e proteja, mas para que nos traga a vida plena, com exuberante saúde em nossos corpos físico, mental, espiritual, emocional e energético, para que possamos revivescer de pequenas mortes cotidianas em forma de sofrimentos causados por decepções, desilusões, angústias e tristezas, quando então mais precisamos do amparo dessa deusa amorosa para nos conduzir em nossa jornada humana e espiritual. Ísis, nos proteja!!! Sigamos, pois, confiantes de que estamos, desde já e para sempre, sob a proteção de Ísis. Que seja assim. E assim é!


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