segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Os nossos ovos (Equinócio de Primavera)
Vera Pinheiro

            Nós, mulheres, botamos ovos. Eles são os nossos sonhos, desejos e projetos, a nossa esperança, os nossos quereres e as vontades que alimentamos no mais profundo de nosso ser. Nós gestamos ovos de expectativa acerca de acontecimentos futuros e projetamos neles a nossa necessidade de ser feliz. Isso é uma aposta com a vida e suas surpresas. Vence quem tem tenacidade, capacidade de reinventar as ambições e de administrar bem todas as possibilidades que nos oferece a existência.
            Quantas vezes choramos os ovos que não vingaram, os que apodreceram, os que foram esquecidos em algum canto do ninho, os subtraídos por alguém que não acompanhou o nosso gestar e não deu a devida importância por não estar em unissonância com as nossas aspirações. Os ovos femininos são a nossa contribuição para um mundo melhor, que renasce das cinzas das incertezas para se tornar concreto, palpável e realizável.
            Os nossos ovos acondicionam filhos que oferecemos para a vida, sem nos prepararmos para a independência nossa e deles. O estreito vínculo entre nós e eles permanece, não importa que idade eles tenham nem a consciência que alcançamos de que os filhos não nos pertencem, apesar de terem vindo de nossos úteros e planos. Sempre e para sempre queremos nos manter em vigília sobre os nossos ovos, cuidá-los e protegê-los das vicissitudes e dos perigos. Eles nos dispensam, mas nós nos mantemos atreladas ao ovo como se a razão de nossa existência dependesse de quão bem eles se norteiam na vida. Falta-nos a aceitação de que eles, os ovos filhos, têm direito a sua independência e ao seu aprendizado, sem a nossa tutela. Como nos é difícil o desvínculo dos ovos humanos que queríamos ter eterna e ternamente sob as nossas asas e debaixo de nossos cuidados. Essa é uma lição de desprendimento.
            No mais das vezes, cantamos ao universo os ovos de êxitos que realizamos no mundo, mas nos recolhemos em silêncio quando eles se transformam em lições que preferíamos não aprender, sem nos darmos conta de que os ovos nos ensinam muito sobre quem somos e a respeito de nossa vida atual, assim como das vidas pregressas também. Essa é uma lição de compreensão.
            Os ovos que sonhamos felizes nem sempre se tornam realidade. Conviver em harmonia com as frustrações nos dá maturidade, mas exige de nós uma humildade que não construímos, por termos nos forjado apenas para as vitórias e os sucessos. Afinal, é o que exigem de nós e é o que nos exigimos sem dar trégua para impossibilidades ou limitações. Essa é uma lição de paciência.
            Os ovos que se tornam o que aspiramos para eles nos dão a lição da gratidão, além da consciência de que tudo o que acontece resulta de uma conjugação de fatores que vão além de nosso entendimento. Então, nos tornamos gratos em máxima plenitude por saber que nem tudo depende de nós. Nem mesmo quando tudo parece depender de nós. Então, aceitamos a existência de forças além das nossas e o que é traçado pelas linhas sagradas do universo em consonância com o nosso merecimento. Essa é uma lição de reconhecimento.
            As esperanças são ovos que acalentamos em nosso peito, jogando as esperas para um logo ali que não sabemos onde se situa. Queremos algo que se faça em algum tempo, antes que a vida se esgote e que as oportunidades passem. Esperança é um querer tênue, que não se debate com as chances nem provoca o destino a fazer o que queremos. É uma pretensão que se deita na cama do tempo, sem saber se um dia se tornará possível. Mas a alma se alimenta de esperança, enquanto a mente não perde o viço do querer profundo. E de esperanças a vida se nutre, pois que nada esperar é o retrato do desânimo.

            Somos os nossos ovos, e cada um de nossos ovos nos representa e define. O que queremos de nós está nos ovos que oferecemos ao mundo, e o que o mundo nos dá tem a ver com os ovos que vieram de nossas ações, atitudes, comportamentos. E nada é em vão ou inútil, a gente sabe. O que produzimos (ovos, sementes ou obras) é a nossa essência revelada. E tudo o que vai de nós, um diavolta. O que plantamos será a nossa colheita e os ovos que botamos serão as vidas que vão desabrochar um dia, a nossa energia em formato de realização dos nossos desejos mais profundos. Inclusive os que calamos, os que não temos coragem de anunciar ou de admitir. Afinal, tudo é em absoluta consonância e harmonia com quem somos, com o que queremos e com o que pensamos.

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