segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A Mulher Búfala Branca
            Vera Pinheiro

Há muito tempo atrás, a tribo nativa norte-americana Lakota (ou Sioux) vivia de forma simples, caçando búfalos nas campinas para sua sobrevivência. Um dia, dois jovens índios saíram a caminhar, atentos a qualquer movimento, quando vislumbraram no horizonte algo se movendo com rapidez. Chegando mais perto viram que era uma linda mulher, envolta por uma luz brilhante.
Os jovens tinham índoles diferentes: um deles apenas apreciou a beleza da mulher, enquanto o outro dela se aproximou com intenções de violentá-la. A mulher abriu seus braços e cobriu o conquistador com seu xale, ambos ficando dentro de uma névoa. Quando a neblina se dissipou, o outro jovem viu com espanto, saindo do xale da mulher o esqueleto do seu companheiro, que logo se transformou em poeira soprada pelo vento. Comovido, o jovem se ajoelhou perante a misteriosa mulher e pediu-lhe que fosse com ele para ensinar à sua tribo os mistérios da vida e da morte. Ela concordou e pediu que preparassem uma grande tenda onde toda a tribo pudesse se reunir.
 Lá a mulher mostrou um cachimbo feito de argila vermelha com um longo cabo de madeira, e pediu que o cachimbo fosse usado em ritos sagrados para lembrar e honrar a ligação dos seres humanos com todas as outras formas de vida, além de reverenciar a Mãe Terra, pois cada passo que fosse dado sobre seu solo seria como uma oração. Após esses ensinamentos a mulher se afastou e se transformou lentamente em uma novilha de búfalo branco. Foi por isso que essa misteriosa mestra foi denominada Mulher Búfala Branca, detentora do cachimbo sagrado e de seus mistérios.
O relato deste mito faz parte das publicações da escritora Mirella Faur, sobre a Mulher Búfala Branca, cujo ventre era Wakan, a causa primeva de tudo, o princípio primordial da Criação na antiga tradição Lakota. Reverenciado como o vazio cósmico, um receptáculo de infinitas possibilidades de Criação, Wakan era descrito como um grande recipiente estrelado, contendo inúmeras centelhas de vida adormecidas, esperando serem ativadas para se integrarem à realidade terrena. O principio ativo e co-procriador era Skan que, semelhante a um relâmpago cósmico, mergulhava no receptáculo sagrado e acordava as centelhas para a luz da existência. E nós, como toda a Criação, somos essas centelhas de luz!
Nas tradições nativas, diz a pesquisadora e escritora, a mulher era a representante de Wakan na Terra, responsável pela continuação da vida humana, sendo um ser sagrado respeitado por todos. Ela também tinha a missão de preservar e cuidar da paz e da harmonia dos relacionamentos entre os membros do clã, com as outras tribos e com os reinos da Criação. Eram as mulheres que criavam e cuidavam da complexa teia das atividades e relacionamentos humanos, evitando conflitos e divisões e ensinando como “caminhar suavemente sobre a terra”.
Mesmo com a chegada dos conquistadores europeus, que despertou a cobiça, a rivalidade e a violência entre as tribos, os Conselhos das Matriarcas dos clãs e das Avós se empenhavam em restabelecer a paz e relembrar a suprema lei da Criação: “viver em harmonia com todos os seres do círculo da vida”. As decisões finais competiam às avós, por desfrutarem de muito respeito e honra por sua sabedoria ancestral e experiência de vida.
Mirella conta que, desde tenra idade, os meninos eram ensinados pelas mães a respeitar e vivenciar as qualidades femininas. Eles viviam no meio das mulheres até os sete anos e aprendiam qualidades e artes femininas como gentileza, respeito, compaixão, cozinhar, costurar, plantar, colher, bem como manter as tradições e a harmonia, natural e humana. Quando passavam para o círculo dos homens aprendiam as atividades masculinas, mas jamais lhes era incutida a violência ou falta de respeito para com a Natureza, as mulheres, as crianças, os idosos ou os doentes. “Um homem de respeito e autoridade era aquele que cuidava bem da sua família e da sua tribo, preservava os reinos da Criação e honrava as tradições e os ritos sagrados”, observa.
A LIÇÃO
Segundo Mirella Faur, a mensagem que a Mulher Búfala Branca trouxe para o mundo contemporâneo é lembrar que todos os humanos, independentemente de cor, origem, gênero ou situação social, fazem parte da complexa teia da vida e “somente vivendo com respeito, harmonia e paz, poderemos atravessar os períodos cruciais que nos aguardam”.
Para ela, a lição da Mulher Búfala Branca é: “viver em paz com todas as nossas relações” e “tudo o que fizermos à grande teia da Criação faremos a nós mesmos, pois somos um só ser vivo”. A expressão ”todas as nossas relações” é usada para representar o círculo da vida ao qual todos nós pertencemos, simbolizado pelo cachimbo sagrado. O bojo feito de argila vermelha representa a Terra e no seu interior está gravado um búfalo, significando todos os seres de quatro patas, e também a abundância da Terra que sustenta toda a vida. O cabo ou tubo do cachimbo, feito de madeira, simboliza tudo o que cresce sobre a terra. As doze penas que o enfeitam são de águia e descrevem as criaturas que voam, enquanto as conchas representam o reino aquático. Ao acender e fumar o cachimbo reúnem-se os elementos (associados com as ervas, a chama, a fumaça, as cinzas) e também todos os reinos da Criação. A oração que acompanha o ato de fumar o cachimbo é direcionada em benefício de todos e do Todo, e é o objetivo principal desse rito sagrado.
Mirella assinala que a Mulher Búfala Branca continua se comunicando conosco através das visões e mensagens recebidas por muitas mulheres contemporâneas. Um comovente testemunho é o encontrado em uma linda canção, recebida em uma visão pela xamã, compositora e divulgadora dos antigos rituais sagrados, Brooke Medicine Eagle, sugerindo refletir e colocar em prática esses atuais e necessários conselhos:
Mulher Búfalo está chamando!/ Quem vai responder a ela?/ Ela está chamando luz, ela está chamando paz! Ela está chamando o espírito, ela está chamando você! Mulher Búfalo está chamando!/ Quem vai responder a ela?/Eu responderei a Ela!/Nós responderemos a Ela!/
            Como trazer os ensinamentos da Mulher Búfala Branca para a realidade atual, em que os diferentes círculos da existência parecem não se cruzar, e quando o fazem, são permeados de conflitos e contradições? A Mulher Búfala Branca nos ensina a lição da harmonia com todos os seres do círculo da vida e, não à toa nem por coincidência, que a Matriarca da Primeira Lunação, “A Que Fala Com Todos Os Seres”, é reverenciada nesta época, em janeiro, justamente para nos ensinar o diálogo com todas as manifestações de vida. Somos uma grande irmandade universal vivendo no colo da Mãe Terra e o princípio da unidade nos sugere honrar, amar e respeitar todos os seres em sua forma e em sua individualidade.
            Devemos caminhar com suavidade e delicadeza sobre a Terra, com a consciência de que todas as formas de agressão ao solo são capazes de feri-la. Quanto mais esse entendimento estiver translúcido em nossas mentes, mais os nossos corações sinalizarão o respeito que devemos ter com todos os seres da existência, a começar por aquela que é a nossa Mãe, a que nos deu a vida e todas as suas inquietantes possibilidades.
Assim como a reverência à Mãe Terra e por todas as formas de vida, pois tudo veio da divina Criação, a Mulher Búfala Branca nos relembra os sentimentos de amor e gratidão ao Grande Espírito pela chama sagrada da nossa existência e precisamos nos conectar com a nossa sagrada e luminosa centelha de luz interior, a que anima o nosso ser. A tradição do cachimbo sagrado é uma forma de reverenciar todos os seres, vivam eles na terra, no ar ou nas águas, e com eles os humanos precisam harmonizar-se para o seu bem, o bem de todos e o bem do Todo.
E a busca da harmonia vai além, deve estender-se aos próprios humanos, para que se relacionem em paz, com amor e respeito por sua sacralidade e pelo sagrado que o outro é, sem que ninguém se considere melhor do que outrem, já que estamos, todos, em um processo de evolução humana e espiritual. Que jamais nos falte humildade, portanto, pois todos os seres são sagrados. Os humanos, apesar de suas limitações e imperfeições, também o são. Que todos os humanos sejam despertados pela grandeza, inspiração, beleza e sabedoria do Grande Espírito, que nos mostra o caminho e nos ensina a caminhar, mas depende de nossa boa vontade seguir as suas orientações. Em caso de desconexão com a sacralidade de todos os seres, a Mulher Búfala Branca nos instrui a, primeiro, reconhecer-nos sagrados; depois, a ver o outro como sagrado também. A partir disso, toda a Natureza será reconhecida e reverenciada com amor e gratidão.
Outro dos ensinamentos preciosos da Mulher Búfala Branca diz respeito à forma como criamos os filhos para o convívio com as mulheres, amando-as e respeitando-as na totalidade do seu sagrado ser, para uma significativa e harmônica troca entre o feminino e o masculino complementares, não opostos e sem qualquer forma de subjugação física, mental, espiritual, emocional ou energética.

Extrai-se, ainda, do mito da Mulher Búfala Branca que o homem movido por paixões, atraído apenas pela beleza exterior da mulher, não é merecedor de alcançar a sua beleza divina. Esse privilégio é concedido apenas aos que não se deixam consumir pelo desejo físico em detrimento dos valores do Grande Espírito que habita na mulher, desconhecendo também as necessidades do próprio espírito. Mas esse é um longo caminho a percorrer no processo evolutivo masculino, enquanto as mulheres reafirmam e crescem nas qualidades e virtudes femininas. Que esta Grande Mãe nos agigante em paciência, amor e consideração uns pelos outros para que vivamos em paz, harmonia e equilíbrio. Que seja assim.

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