Vera Pinheiro
Estou em estado de graça! Na minha fase atual, a vida ganhou encantos extras e qualquer prazer me diverte. Não preciso, então, de grandes acontecimentos, pois aprendi a valorizar todos os bons momentos e a passar serenamente pelos “nem tanto”. Além de ser um aprendizado do viver, isso, definitivamente, é uma bênção!
O motivo de tanta alegria é um par de botas de estimação. Pretas, de camurça macia, bicos arredondados e com tiras para amarrar são as minhas botas preferidas. Só que, como tudo nesta vida, um dia ela entregou os pontos! O solado de borracha se acabou de tanto que a usei. Rasgou! Fiquei com o calcanhar de fora, no chão, acreditem! Depois de muitas pesquisas pela cidade, finalmente encontrei uma sapataria que reconstituísse o calçado, colocando nele um solado de couro. Outras se negaram a fazer o serviço. Não tinham competência para esse trabalho, tampouco sensibilidade para perceber que se tratava de um bem inestimável.
Nesses tempos em que tudo é descartável, incluindo sentimentos, gostei muito de ter encontrado um sapateiro para dar vazão à centopéia que sou. Adoro sapatos, mas tenho dificuldade de encontrar um par que não fira os calos antigos dos meus pés. Felizmente, sempre há um sapato velho que sirva a um pé dolorido, esperança que se estende às expectativas do amor. Curioso é que não ouço ninguém dizendo “fui ao sapateiro mandar fazer um conserto”. Parece que todo mundo compra sapatos novos. Os pares velhos – que não chegam a ficar velhos – são repassados, doados, o que não deixa de ser uma boa ação, mas me faz questionar o consumo e o aproveitamento do que se tem. Estou num tempo de aproveitar bem e reaproveitar o máximo possível o que tenho e sou, até que se esgotem todas as possibilidades. Sentimentos e vivências, em especial.
Mas, afinal, por que, raios, a estima por aquelas botas? Essa não é pergunta de resposta fácil! Não sei. Talvez pelo conforto. Nem sempre sei por que gosto de algo ou de alguém. Gosto e pronto. E às vezes amo, e muito, movida pela sensibilidade, sem qualquer explicação racional. Geralmente é bom o meu gostar e não me arrependo dele. Quando não é, não há outra coisa a fazer senão confiar que tudo passa. E passa mesmo! Até as paixões mais arrebatadoras, e principalmente elas, passam. O que custa a passar – nem sei se passa – é o amor que chega devagar e se instala, fazendo ninho e mimo no coração da gente. O amor não passa, mas com o tempo, as atitudes, as decepções e as experiências ele pode transformar-se em outro sentir, mudando para afeto, carinho, uma aguda tristeza e até mesmo o oposto dele, o ódio, que é pior do que não amar.
O amor faz bem pela sua essência primordial de pacificidade, que acalma as emoções e abranda as reações, contribuindo para o diálogo e o entendimento entre as pessoas. Se açoitar com palavras e impuser sofrimento não pode ser amor. Há que ter outro nome o vínculo que mantém o convívio, e razões que o justifiquem. Amor é o bem em si mesmo. Se vinculado ao que é nocivo e prejudicial, tem denominação diversa. O amor é gentil. Se machucar o coração e se associar a procedimentos que escapem da amabilidade, enveredando para a truculência, não chamem isso de amor e não se confundam, doravante.
O amor é como aquele meu par de botas que dura e se revigora pelo conserto – e o amor tem conserto justamente por ser o que é e como é. Tem detalhes belíssimos que agradam e embelezam o ser, o que o diferencia de tudo o mais, por isso é único. Tem uma maciez que aconchega pés cansados e os leva a grandes distâncias. Aliás, não há distância quando há amor, embora alguns a usem como desculpa para o afastamento, mas nesse caso não é amor também. O amor acolhe a alma em todas as circunstâncias e é confortável, o que não significa acomodação, por isso quem se ama quer estar junto, e isso é tão bom como calçar um sapato que não aperta, não machuca os calos e, de quebra, ainda é bonito.
Relacionamentos bons são confortáveis
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