sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Coisinhas inúteis

Vera Pinheiro
 Por que os restaurantes dos shoppings insistem em colocar junto dos pratos um pacotinho de sal e um palito? Coisinhas mais inúteis! Adicionar sal à comida é envenenar as refeições e esgaravatar os dentes com palito é um horror inominável. Será que ninguém da área da alimentação se toca que quem quiser sal deve pedir (ou carregar) e que palitos devem ser banidos da mesa?
 Há tantas coisinhas inúteis, que a gente não precisa e devia descartar. Zangas prolongadas e desnecessárias, raiva pelo que não tem solução, angústia por aquilo que não depende de nós, ansiedade pelo que ainda não aconteceu, temores amplos e gerais pelo que não sabe e não tem como saber.

Nessas horas é valioso fazer uma avaliação do que é inútil e do que é necessário viver, e manter o autocontrole para não perder a capacidade de discernir os fatos. Serenar e depois fazer o que se faz com o pacotinho de sal e o palito: deixar de lado. São coisinhas inúteis.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Tensão e chocolate

Vera Pinheiro
Hoje estou com a vó amarrada no toco! Tensa! Hipertensa! Nem eu me agüento! Preciso de um sossega-leão urgente. Não, não estou falando de sexo, mas de uma boa sessão de acupuntura! Ando sem tempo para isso, que é algo que adoro e de que preciso, embora saiba que preciso me dar prioridade.

Hoje, ao meio dia, comi um pratão de salada e um pedaço de carne. Sim, estou de regime. Não, é melhor dizer reeducação alimentar. Aprendi a comer quase tudo sem sal e com isso a reconhecer o verdadeiro sabor dos alimentos. Essa é a parte boa da restrição. Só não quero comer jiló e moranga. Nunca provei jiló e comi moranga demais quando era criança.

Naqueles idos, na casa de minha mãe criança não tinha direito de dizer “não gosto”. Era fazer cara feia para uma comida e a mamita lascava: “Vai comer o que quiser quando tiveres a tua casa”. Foi exatamente isso o que fiz. Nunca cozinhei moranga e quibebe. A minha bronca com jiló não tem nada a ver com a infância, é só antipatia mesmo. Jamais servi miúdos de galinha – ninguém me convence de que coraçãozinho tem bom sabor. Criei meus filhos sem bife de fígado – e eles cresceram bem fortinhos, apesar disso.

Vejo muita criança empurrar o prato e dizer “não quero, não gosto”. Os pais deviam ensinar os filhos a dar graças pelo prato de comida que têm sobre a mesa, lembrando-os das muitas crianças que passam fome.

Minha mãe era durona, mas sou-lhe muito grata por suas lições. E gratidão também é algo que se ensina em casa. Quem não aprendeu gratidão não dá valor para nada.

Como estava dizendo, hoje eu comi um pratão de salada mista (de tudo um pouco), mas me permiti um, está bem, dois bombons. Curou-se rapidinho o meu humor lascado de hoje. Será que sou chocólatra?! Claro que não! Passo muito tempo sem comer chocolate. Aliás, nem gosto de doce, só de pudim de leite condensado. Reeducação alimentar não significa privação de uma das melhores coisas da vida – comer, mas ter hábitos saudáveis que, muito lá de vez em quando, podem ser quebrados por um chocolatinho inocente.

Estou calminha agora...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Ele foi embora

Vera Pinheiro

Amiga minha está casada há alguns anos e tem um filho de sete. Outro dia, o marido comunicou-lhe que a empresa onde trabalha decidiu transferi-lo para outro estado e que, no começo, até conhecer melhor a cidade, ele iria sozinho. Depois, no período mais apropriado para mudanças escolares, viria busca-la com o menino. Ele foi embora, ela ficou.

Logo começou a estranhar a ausência dele, mas, boa de coração uma barbaridade, creditou o fato à nova etapa, o emprego novo, morando de qualquer jeito, sem ela para ajudá-lo, coitado. Estava acostumada a relevar tudo desse homem por quem era apaixonada.

Os primeiros 15 dias. Ela se revirando na cama, sozinha, a espera dele. Um mês. Bom, vou dar um jeito na vida, arrumar as coisas para mudar em breve. Dois meses, um telefonema. “Oi, amor, vou falar rápido. Estou muito cheio de serviço. Tudo bem com vocês? Mandei dinheiro”. Ah, que lindo, ele todo generoso. Três meses. Por que ele não comprou ainda um celular e por que não dá o endereço para eu visitá-lo?, pensou. Está correndo demais, tadinho. Quatro meses. Eu nem sei onde ele trabalha... Vai ver não quer me preocupar. Ela é boazinha demais mesmo.

Cinco meses depois, ele ainda não apareceu em casa, não deu endereço da empresa nem da moradia e diz não ter celular. Pacientemente, ela espera. Como sempre, aliás.

Um dia, encontrou-se com a cunhada num shopping. “Aparece lá casa pra gente conversar”, convidou a outra. No sábado, ela foi. Tomaram chá com biscoitinhos caseiros, enquanto as crianças brincavam.

- Você sabe onde está o fulano?, perguntou a cunhada, sobre o paradeiro do irmão.
- Não exatamente, titubeou a minha amiga. Ela queria dizer: não sei absolutamente nada dele, mas ficou envergonhada da própria ignorância.
- Pois eu sei!
- Sabe?!
- Sim. O teu marido saiu daqui para morar com outra em tal cidade, em tal estado.
- Cuméquié?!?! Estupefata, ela não acreditava no que ouvia.
- Verdade! E vou dizer mais: ele anda com essa mulher desde que vocês se casaram. Não é coisa de ontem!
- Não é possível...
- É possível, sim. E outra: você é muito mais bonita do que ela. Não posso entender os homens! (Nisso, a cunhada desandou em um discurso feminista daqueles!).
- Como assim? Ela não é bonita? (A minha amiga nem ouviu o mais que a outra havia dito).
- Não, minha filha. A criatura é uma coisinha assim, sabe? Tudo meio.
- Hã?!
- Meio feinha, meio burrinha, meio grossa, meio chatinha... Resumindo: é meio roceirinha.
- Isso não! (A minha amiga revoltou-se). Não admito! Pode me trocar por outra, mas que seja melhor que eu, senão me ofende! Sabe o que é isso? Não adianta a humanidade ter evoluído: homem não quer mulher que seja igual ou mais que ele.

A minha amiga contou que deu uma choradinha básica, mas depois pensou no que fazer. Rapidinho, arrumou outro e não atende as ligações do ex. Se quiser falar com ela, terá que ser pessoalmente, cara a cara. Assim, já vão direto para os “finalmente” da separação. Por que estresse se a vida é curta e sofrer não vale a pena? Foi o que ela disse.

sábado, 20 de novembro de 2010

Na frente do espelho (*)

Vera Pinheiro

Não é a irmã, o irmão, a filha, a mãe, a pessoa a quem a gente conta quase tudo nem o namorado. Quando se trata de imagem, o espelho é o melhor amigo da mulher. E o dinheiro, claro, pois beleza custa caro. O espelho denuncia as precariedades e as virtudes do nosso visual e dependendo do grau de intimidade e da sinceridade com que estabelecemos uma relação com ele, esse objeto pode fazer milagres pela nossa autoestima. Ou não. O espelho fala mesmo! O problema é que nem sempre queremos ouvir o que ele tem a dizer e o ignoramos. Mas quando o enfrentamos com determinação e coragem, pedindo que mostre tudo o que deve ser mostrado, aprendemos muito sobre nós e a respeito de mudanças positivas também. A propósito, quantas vezes ao dia tu te olhas no espelho?

     Amiga minha, Paula Fragale-Noble, que nesta semana completou 28 anos, acorda já na frente do espelho. Tanto é que a mãe dela e minha amiga Rita Helena, em visita que fez à filha nos Estados Unidos, observando os costumes da nova vida de Paula, comentou (com os devidos cuidados de sogra em casa de genro pela vez primeira): “Filha, você dorme maquiada?!”.
     - Dããããrrrr, mah! Até parece que você não sabe que eu acordo e me maquio!

Pois assim é. O último bocejo e a espreguiçada derradeira são na frente do espelho. Quando Nicolas Noble, com quem Paula é casada há dois anos, acorda... ela já está com a estampa feita! Mas não se importa que saia um pouquinho do batom no beijo de bom dia. Tudo certo. Nem precisava tanto, porque ela é linda e tem a juventude a seu favor, vantagem que não me assiste. Com cinco décadas e lá vai caco (neste dezembro, com 5 + 5 matematicamente vou ficar nota dez), não saio ao portão para atender o carteiro, se estiver sem maquiagem. Em caso de pressa extrema – eventual fuga dos cães ou ser chamada para acudir vizinha que passa mal – cubro-me com um véu, e isso será menos assustador do que a tragicômica realidade do rosto sem chapisco, emboço e reboco, antes da caiada básica diária. Não dá! O peso e estrago do tempo são implacáveis!

Bem, admito um pouco de exagero nisso. Há, sim, dias em que saio só com um creme que proteja a minha linda pele dos efeitos danosos dos raios solares. Nesse caso, torço fervorosamente para encontrar apenas pessoas que não me conheçam e não cruzar com nenhum ex alguma coisa ou inimigo figadal. Se encontrar amiga ou antiga colega espero que ela esteja sem os óculos e não me veja, e que eu não atravesse o caminho de quem está no passado nem de quem representa uma mínima possibilidade de relacionamento futuro. Como medida preventiva contra encontros inesperados em situação de cara lavada, levo um chapéu de apara-castigo, de abas grandes e caídas, para cobrir a cabeça e metade do rosto, sem esquecer da pose de estrela que ralou muito para ficar conhecida e depois impõe a si mesma um misterioso recolhimento e anonimato.

     Se sair atrasada de casa, carrego o kit beleza, que tem de tudo um pouco. Enfio óculos escuros na cara e não tiro até que esteja confinada e a sós para fazer a maquiagem. Se por qualquer razão não puder me maquiar, prefiro usar uma burka! Produtos de beleza – cremes hidratantes, um para cada pequenina área do corpo, milimetricamente subdivido, maquiagem mais perfumes (no plural) – são produtos de primeiríssima necessidade. São a minha cesta básica, não posso ficar sem! Pago uma espécie de dízimo para a minha porção Barbie, que adora se enfeitar e viver, digamos assim, a parte cor de rosa da existência, contrabalançando com o lado rude, solitário e amargo, que também existe. Em caso de choro, compulsivo ou não, sigo o conselho de outra amiga, Adriana Carvalho: chorar na frente do espelho. É riso na certa, comprovei. Não há motivo que resista! Assim, duas coisas estão na lista do que não faço diante de espectadores: andar sem maquiagem e chorar. Fico muito feia. Fico, porque não sou!
    
     E se há um tanto de invencionice nisso, uma verdade é irretocável como a primeira hora de uma maquiagem bem feita: quando estamos felizes, a vida nos enfeita e embeleza de tal modo que sequer importa se usamos batom ou não. Vai do gosto de cada uma. Eu gosto de ser mulher com tudo o que isso representa, do universo da aparência cheia de detalhes, potinhos e pincéis a essa alma de inquietudes, sonhos, desejos, buscas e realizações. E de espelhos, sempre.


(*) Crônica publicada na edição de 20 e 21 de novembro de 2010 do jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Silêncio

Vera Pinheiro

Quanto mais o tempo passa mais me convenço da necessidade e da importância de cultivar o silêncio. Tantas palavras que a gente diz e ouve e que não devia ter dito e não merecia ter ouvido, tantas mentiras que negaram a verdade e tantos silêncios que a confessaram.

Não dá para crer em tudo o que nos dizem, assim como devemos pensar muito antes de falar, recuando de palavras que enganem ou firam.

Mais a gente se arrepende das palavras que brotam dos ímpetos do que do silêncio que se guarda no sossego do espírito.