sábado, 12 de outubro de 2019

AINDA BEM!

Vera Pinheiro
Hoje, ao contrário de muitas pessoas, resisti bravamente à tentação de postar fotinhos dos meus filhos quando eram crianças. Não tenho mais criança em casa. Aliás, não tenho mais filhos em casa. Graças dou! Eles cresceram! São donos de suas vidas e sabem onde colocam os seus narizes. Sabem cuidar de si mesmos, responsabilizam-se por suas escolhas, cumprem os seus compromissos, determinam de moto próprio onde vão colocar pés e desejos, têm consciência do que podem e do que não devem, enfrentam seus desafios, traçam os seus limites, definem o que querem e decidem o que não querem. Aprenderam a administrar a sua existência fora do ninho da mãe, embora saibam que podem contar comigo sempre que e se precisarem.
Que alívio! Meus filhos não são mais crianças! Não preciso me ocupar de orientar os seus passos e cuidar para que não caiam. Eu lhes ensinei o básico necessário para uma existência em bom caminho. E lhes dei uma lição preciosa: a gente sempre se levanta, a gente sempre recomeça, a gente sempre se refaz, não importa o que aconteça. Tudo é aprendizado. Fiz isso com a didática do exemplo, que vale por um discurso inteiro!
Ah, que alegria! Meus filhos cresceram! Eu me tornei desnecessária e não há sensação melhor do que essa certeza. O melhor de ser mãe é ter dado tudo, e tanto, até que os filhos não precisem mais receber, porque aprenderam a construir. Isso é o tal do dever cumprido. Não gostaria, sinceramente, que passados dos 30, beirando os 40, meus filhos ainda devessem satisfações à mãe do que resolveram fazer com as suas vidas. Agora o que importa é o que eu vou fazer da minha vida, porque deles cuidei o bastante para agora não ser necessária a eles para outra coisa que não seja compartilhar amor. Agora eu me sou necessária e absolutamente imprescindível. Hora de me voltar para mim!
Essa desnecessidade de cuidar dos filhos quando eles crescem é, de certa forma, um amoroso abandono da missão materna de nutrir, cuidar, manter, sustentar, sem, porém, deixar de amparar e acolher. Isso é, também, um necessário desapego que se faz por amor, porque eles já não são mais crianças e porque confiamos naquilo que lhes ensinamos.
O melhor de ser mãe é já não precisar ser mãe o tempo todo, porque a gente fez o melhor, o que julgava mais certo, o que era mais adequado, o possível dentro das nossas limitações. É olhar para trás e sentir-se em paz com o passado. É olhar o futuro e confiar que os filhos poderão fazê-lo feliz. É olhar o presente e aplaudir, com aquele orgulho que só a mães têm, as pessoas que os nossos filhos se tornaram.
Para quem tem filhos criados, o tal “trabalho dobrado” é ser capaz de vislumbrar a si mesma como uma mulher inteira, que não coloca a própria felicidade nas mãos dos filhos, que cortou o cordão umbilical sem desfazer os laços de amor, que consegue entrever as próprias possibilidades sem fazer dos filhos uma bengala para alcançar a felicidade.
O grande desafio quando os filhos deixam de ser crianças é buscar aquela pessoa que se esqueceu de si entre fraldas e papinhas. É reencontrar a mulher que se dedicou aos pequenos e se abandonou. É prosseguir sua busca pela completude sem depender dos filhos, porque eles cresceram e, pelo bem deles, não se deve fazê-los eternas crianças.

sábado, 25 de maio de 2019

Santa Sarah Kali e o povo cigano


VERA PINHEIRO

Salve Santa Sarah Kali e salve o povo cigano!

SANTA SARAH KALI
Santa Sarah Kali é a santa protetora e provedora de sorte, amor, saúde, fartura e vida longa e nos dias 24 e 25 de Maio celebra-se o seu nome.

Apesar de ser mais conhecida como protetora do povo cigano, Santa Sarah Kali também é conhecida por ajudar as pessoas com dificuldades em engravidar, os desesperados e os desemparados.

Apesar de ter sido canonizada pela Igreja Católica em 1712, o seu culto é omitido até hoje. Os festejos da sua data, normalmente celebrada no dia 24 de maio, envolvem procissões e banhos de mar.

É ainda interessante saber que o Kali do seu nome significa “negra”, porque Santa Sarah tinha a pele escura e que seu culto está relacionado com as Madonas Negras.

Santa Sarah Kali é protetora das mulheres com dificuldades de engravidar.Há muitos anos, as ciganas que não conseguiam ter filhos faziam promessas à santa. Ofereciam uma noite de vigília do seu leito e um lenço cigano, um diklô, o mais bonito que encontrassem. Por este motivo, Santa Sarah Kali ficou conhecida em relação à prosperidade das mulheres que querem engravidar.

ORAÇÃO PARA SANTA SARAH KALI

Santa Sarah, minha protetora, cubra-me com seu manto celestial. Afaste as negatividades com que porventura estejam querendo me atingir. 

Santa Sarah, protetora dos ciganos, sempre que estivermos nas estradas do mundo, proteja-nos e ilumine nossas caminhadas.

Santa Sarah, pela força das águas, pela força da Mãe Natureza, esteja sempre ao nosso lado com seus mistérios. Nós, filhos dos ventos, das estrelas, da Lua cheia e do Pai, só pedimos a sua proteção contra os inimigos.

Santa Sarah, ilumine nossas vidas com seu poder celestial, para que tenhamos um presente e um futuro tão brilhantes como são os brilhos dos cristais.

Santa Sarah, ajude os necessitados, dê luz para os que vivem na escuridão, saúde para os que estão enfermos, arrependimento para os culpados e paz para os intranquilos.

Santa Sarah, que o seu raio de paz, de saúde e de amor possa entrar em cada lar, neste momento.

Santa Sarah, dê esperança de dias melhores para essa humanidade tão sofrida.

Santa Sarah milagrosa, protetora do povo cigano, abençoe a todos nós, que somos filhos do mesmo Deus.


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quinta-feira, 23 de maio de 2019

Desafio


VERA PINHEIRO
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A cada dia, um desafio. Para esquecer dores que nos causaram, para não esmorecer diante das dificuldades, para manter a calma nos momentos de tensão, para multiplicar esperanças no meio do caos, para reavivar sonhos que andavam esquecidos, para renovar a coragem de seguir em frente em busca do melhor.

Cada desafio que se enfrenta é crescimento que se alcança. Seria mais simples, bem mais fácil e muito cômodo deixar as coisas como estão, não se rebelar, não tentar mudar e deixar que a vida se encarregue de modificar o nosso caminho. Ou esperar que outras pessoas tomem conta da nossa vida e que o destino se encarregue do nosso futuro.

Mas temos responsabilidades com o nosso bem-estar, com a felicidade que devemos construir e com a própria vida. Por isso, fazemos escolhas e decidimos que caminho trilhar, que trabalho fazer, com quem estar.

Sabendo o que se quer, se alcança. Sabendo aonde se quer ir, se chega lá. Com luta, com sacrifício, mas também com vontade, determinação, autoconfiança e disposição de vitória.

Os desafios são propostas de crescimento, não são motivo para desanimar ou temer. Os desafios colocam à prova a nossa capacidade, bravura, e valor. Vence quem tem a alma elevada, o coração firme e a mente lúcida. E quem não se torna pequeno diante do que vive por ser maior do que os entraves, os obstáculos e os desafios.

Antes de todos os desafios, é preciso vencer os que moram dentro do ser humano. É quando superamos as limitações, afastamos os medos, desistimos do pessimismo e nos afastamos do conformismo, que deixa tudo como está “para ver como é que fica”.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Abraço


Vera Pinheiro

Às vezes, a gente acorda nublada. Em momentos assim é quando mais se precisa de um abraço extenso, forte, acolhedor, que nos enrole completamente nos braços de alguém e nos dê a impressão de que ali é o melhor abrigo, senão o único, e que nesse recanto está toda a proteção contra riscos, perigos, dores, frustrações, desencantos.
O melhor abraço não é o que se dá nem o que se recebe, é o que se troca. Num abraço compartilhado estão o coração, a expressão do sentir, um pedaço da alma, o intercâmbio das sensações, o impulso das vontades, a generosidade e o estímulo, a confiança e a coragem.
Um abraço precisa do corpo inteiro para tocar o coração. Não pode ser vago nem distraído, tampouco frouxo. Enrosca o coração do outro, aninha no peito, põe as almas em contato. Demora-se, não tem pressa nem se esquiva ou foge. Acaricia a alma, desfaz temores e angústias, encoraja a enfrentar o que parece pesado demais aos ombros e além dos limites da suportabilidade. Recompõe as forças e manifesta afeto. É entrega de si mesmo sem medidas. Abraçamos as pessoas com a própria vida e ofertamos inteiramente nosso afeto.
Um abraço expressa o que se sente, traduz o que não se diz. Não mente, não consegue fingir. Sentimos quando um abraço é sincero, integral, e quando ele é dissimulado, falso, meramente protocolar. Abraços que apenas cumprem formalidades não emocionam nem comovem, falta espontaneidade para o entrelaçamento, e logo a gente se desvencilha dele. É muito difícil permanecer abraçado a pessoas que rejeitamos, e não é pelo corpo, é rechaço de uma vida que não se encaixa na nossa.
A gente abraça de coração quando sente vontade. É uma deliberação ou um impulso que não se contém. Mima, enternece, ampara, cura. É contentamento, explosão de alegria que marca reencontros felizes. É confidência silenciosa do bem-querer. Não é preciso dizer nada quando se troca um abraço de amor. Não há o que exprima solidariedade de um jeito tão bonito quanto um abraço com sentimento.
Podemos conhecer as pessoas pelo jeito como abraçam. Há quem não se deixa tocar, não chega perto, não se envolve no contato, há quem evite mesmo abraçar e ser abraçado. Estendem as mãos, beijam na boca, fazem sexo, mas não trocam abraços, que revelam a intimidade da pessoa, se é pouco generosa, fugidia, desconfiada, nada confiável.
Quem não confia não abraça de verdade. Não abraçamos os inimigos, embora possamos cumprimentá-los e conviver harmoniosamente com eles. Abraços a gente reserva para os amigos, as pessoas da família, os verdadeiros afetos, os que estão próximos de nós e nos conhecem bem. Os desconhecidos se abraçam para dar boas-vindas um ao outro, mas a continuidade disso dependerá da caminhada da amizade.
Abraçamos por razões diversas. Porque alguém precisa, porque estamos com saudade, porque há tempos não vemos uma pessoa querida. Voltando de viagem, despedindo-se na partida, na surpresa do encontro, na hora da dor, numa situação de tristeza, para consolar ou ser consolado, nas comemorações. Para mostrar que estamos solidários com o problema de alguém, felizes com uma boa notícia, exultantes com uma grande vitória, contentes porque um projeto deu certo, alegres por um resultado há muito esperado.
Tendo uma boa razão, abraçamos as pessoas da nossa estima para dizer de nossa felicidade ou corremos para o abraço delas nos momentos de desalento, preocupação, tristeza ou dor. No entanto, o melhor abraço não precisa de razão, não requer explicação, exposição de motivos, arrazoado prévio. Feliz mesmo é abraçar por abraçar quem a gente ama, abraçar só por amor, e de mais não se precisa.
Abraçar a pessoa amada demoradamente só porque ela existe. Abraçar os filhos e os pais apenas porque estão nas nossas vidas. Abraçar os amigos mais queridos por nada e qualquer coisa. Abraçar todos os dias para alimentar a alma de afeto, para transbordar de carinho, para se iluminar de felicidade nesse gesto simples e grandioso, trivial e extraordinário. Por um mundo mais fraterno, vamos nos abraçar uns aos outros e abraçar a vida carinhosamente. É o maior presente que se dá e o melhor que se recebe.

domingo, 11 de novembro de 2018

ESTOU DE VOLTA

Vera Pinheiro

Eu voltei.
E agora é pra ficar.
Porque aqui,
Aqui é o meu lugar!
(O Portão - Roberto Carlos)

A gente sempre acha que algum lugar é o lugar da gente.

E precisa disso para sentir-se bem no mundo, para não se sentir à parte do todo e a ele insignificante, como se a nada nem a ninguém a gente importasse.

A quantos lugares pertenci? De quantas vidas fiz parte? A que pessoas importei? E a quantas não fiz a menor diferença?  A que pessoas fui tudo e a quantas simplesmente nada representei?

Nisso tudo, um monte de ilusão e um tanto de desapontamento. Achei que era muito importante para alguns e me enganei. Na vida de outros nem sabia que  estava. Do mesmo modo, muitas delas nem sabem o quanto importaram para mim e outras, igualmente iludidas, pensam que lhes dei mais importância do que realmente tiveram.

O fato é que tudo, no campo das emoções, é muito relativo. A gente pensa que é e não é. Pensa que foi o que nunca será.

E a única certeza é que, de fato, nós pertencemos a algum lugar, o que é nosso, mas que não nos pertence. E nisso está todo o enigma e o melhor encantamento.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Sarasvati, Deusa da Sabedoria e da Arte

Vera Pinheiro

Sarasvati é uma jovem conhecida por sua refulgente beleza, deusa hindu da sabedoria universal, das artes e da música, e a shákti, que na religião e mitologia indianos significa, ao mesmo tempo, “poder de um deus” e “esposa”, de Brahma, o deus da criação universal. Chamado de “O Avô dos Mundos”, Brahma é a primeira pessoa da trindade hindu, descrita com quatro faces e testemunha da totalidade dos universos criados. É o deus da sabedoria, o portador do Vedas e o cônjuge de Sarasvati, deusa adorada pelos povos da Índia, Tibete, China e Japão.
Mãe dos principais sábios, de ascetas (pessoas que desdenham os prazeres da vida e renunciam às coisas terrenas) e de vários deuses do universo, Sarasvati é a protetora dos artesãos, pintores, músicos, atores, escritores e artistas em geral. Ela também protege aqueles que buscam conhecimento, os estudantes, os professores, e tudo o que está relacionado à eloquência, às artes, à literatura, sendo ainda invocada para fertilidade, procriação e purificação. Ela é o arquétipo da criatividade humana.
Sarasvati é a “Mãe da Palavra Escrita” que trouxe os caracteres do alfabeto Devanagari para a civilização sânscrita. Ela preside as artes, a música e a poesia, protege os nascimentos e as mulheres, e é a senhora do conhecimento, da fertilidade e da prosperidade. Venerada como uma deusa dos rios, ela tem o dom da eloquência e as palavras dela fluem fácil e suavemente.
No hinduísmo, Sarasvati representa a consciência, a inteligência, o conhecimento cósmico, a criatividade, a educação, a iluminação, as artes, a eloquência e o poder. Hindus adoram essa deusa não só para “conhecimento acadêmico”, mas para “conhecimento divino”, essencial para alcançar o “Moksha” que, em termos gerais, significa a libertação do ciclo do renascimento e da morte, e a iluminação espiritual.
O nome dessa deusa vem de Sarasvati Saras (que significa “fluxo”) e Wati (que significa “aquela que tem o fluxo”. Então, Sarasvati é símbolo do conhecimento. Seu fluxo (ou crescimento) é como um rio, e o conhecimento é extremamente sedutor, como uma mulher bonita. Além do nome de Sarasvati, ela também é conhecida como Sarasvati, Gayatri, Brahmani, Bharati, Vac, Vagdevi, Vagisvari, Vani, Vaani, VidhatrI, Veenapani,  Sarad, Veenapani, Sharade, Sharadha, Sharadamba, Pustaka Veena Dharini, Vaakdevi, Varadhanayagi, Vidyadayini, Kalaimagal, Kalaivaani e por muitos outros nomes.
Sarasvati é conhecida como uma deidade guardiã do Budismo, que defende os ensinamentos de Gautama Buda, oferecendo proteção e assistência aos praticantes. Buda foi um príncipe de uma região ao Sul do atual Nepal, que renunciou ao trono e se dedicou à busca da erradicação das causas do sofrimento humano e de todos os seres, e desta forma encontrou um caminho até o “despertar” ou a “iluminação”, tornando-se um mestre espiritual, fundador do Budismo.
Deusa da aprendizagem e da fala, Sarasvati é representada com quatro braços, que representam os quatro aspectos da personalidade humana no aprendizado: mente, intelecto, alerta e ego. Alternativamente, estes quatro braços representam também os quatro Vedas, os livros sagrados para os hindus primários. Vedas, por sua vez, representam as três formas de literatura: Poesia, o Rigveda contendo hinos, representando a poesia; Prosa, Yajurveda contendo prosa, e Música, Samaveda representando a música.
As quatro mãos descrevem-se assim também: a prosa é representada pelo livro na mão; a poesia, pela coroa de cristal e a música, pela Veena. O pote de água sagrada, com que às vezes é representada, significa os poderes criativos e a pureza da arte ou o seu poder de purificar o pensamento humano. Para outros estudiosos, as quatro mãos representam as quatro cabeças de Brahma.
Nas mãos do lado direito, ela segura um broto de lótus e um rosário. Nas mãos do lado esquerdo ela traz o Livro dos Vedas, com o conteúdo do conhecimento universal, divino, eterno e verdadeiro bem, como a perfeição das ciências e das escrituras. Em outras descrições, Sarasvati aparece também com um pavão, simbolizando beleza, harmonia e perfeição, mas também a arrogância e o orgulho por sua beleza. Por ter um pavão em sua representação, Sarasvati ensina a não se preocupar com a aparência externa e a ter sabedoria em relação à verdade eterna. É apresentada, ainda, sentada em um cisne, em um leão ou em um lótus que, como fundação, representa a consciência pura e a busca da luz do conhecimento.
O cisne é muitas vezes apresentado próximo aos pés dessa deusa.  Dizem que se for oferecida uma mistura de leite e água para essa ave sagrada, ela é capaz de beber apenas o leite, simbolizando, assim, a capacidade de discriminar o bem e o mal, o eterno e o efêmero. Devido à sua associação com essa ave, Sarasvati é também referida como Hamsavahini, o que significa “aquela que tem um hamsa (proteção) como seu veículo”. Ela é geralmente representada perto de um rio, que pode estar relacionado à sua história inicial como uma deusa do rio.
Pode ser vista portando uma Rudraksha de diamantes e segurando os livros Védicos. Rudraksha é o nome dado a uma terapia na cultura hindu, existente há vários séculos e considerada sagrada e milagrosa. Seu nome vem das sementes oriundas da árvore da espécie Elaeocarpus ganitrus, encontrada na Índia, no Nepal, no Tibete, na Indonésia e na Malásia.
Segura uma seta, uma concha, uma Sitar ou Veena, instrumento musical indiano de cordas, que é uma expressão da sabedoria que cria harmonia no mundo e a representação da perfeição de todas as artes e ciências. Sarasvati é também associada com anuraga, o amor e ritmo da música, que representa todas as emoções e sentimentos expressos em palavras ou música.
Historiadores acreditam que a Sitar originou-se da Veena, um instrumento de cordas muito popular na Índia antiga, tocada pela deusa indiana da música e da aprendizagem, Sarasvati. Ao norte da Índia, a Veena é considerada uma Cítara, porém tecnicamente, Cítara e Sitar são de famílias diferentes. A Deusa tocando Sitar significa harmonia de todas as sequências mentais, ações e atitudes.
Ainda que retratada de diferentes maneiras, a imagem dessa deusa é sempre associada à cor branca, a começar por sua pele, alva como leite, expressando a pureza do verdadeiro conhecimento, a beleza da lua cheia, conhecimento, refinamento, memória e inteligência. A deusa adornada em traje branco radiante significa caráter impecável e mente imaculada. Seus símbolos são um cisne, indicativo da curiosidade e da habilidade para discriminar as ações que são boas e sábias das que não o são, e geralmente é apresentada sobre uma flor de lótus, que indica sua transcendência e  experiência na verdade absoluta. Assim, Sarasvati não só tem o conhecimento, mas também a experiência da realidade mais elevada. Ocasionalmente, no entanto, ela também está associada à cor amarela, a cor das flores da planta da mostarda que floresce no momento da sua festa na primavera. 
Sarasvati também é o nome de um rio extinto da Índia, do vale do rio Indo, onde se desenvolveu a civilização Sarasvati-Sindhu, por volta de 3000 a.C.. O rio foi redescoberto por satélite no fim do século XX. Essa deusa era homenageada no chamado dia de Savitu-Vrata, comemorado na Índia em 16 de maio e dedicado à deusa Savitri, uma das oito mães divinas, considerada a Mãe Ancestral dos hindus. A Energia Primordial (Adi Shakti) tem duas correntes, a espiritual e a material. A energia espiritual é chamada Gayatri, um dos aspectos da deusa Sarasvati, enquanto a energia material é chamada Savitri. De acordo com o mito, relatado pela escritora Mirella Faur, Savitri foi fecundada pelo deus Brahma e sua gestação durou um século. De seu ventre nasceram a música, a poesia, os anos, os meses, os dias, as quatro eras da criação e a própria morte.
No sentido mundano, Sarasvati é a Deusa da Educação. Em várias instituições educacionais, o Vasant Panchmi (calendário indiano) é comemorado como aniversário de Sarasvati, adorada por ensinar à humanidade a importância da educação e do avanço do intelecto. Diz a lenda que Sarasvati era rival de Lakshimi, a deusa da riqueza. “Assim, uma pessoa não podia ser abençoada pelas duas deusas, ou seja, não podia ter o talento e também a prosperidade”, conta Mirella Faur. Ao contrário da deusa Lakshimi, Sarasvati é adornada com ouro e joias simples, representando a sua preferência pelo conhecimento e não pelas coisas materiais do mundo. 
Os sábios orientais, antes de começar qualquer leitura, sempre invocam o nome de Sarasvati para que ela conceda a perspicácia e o discernimento necessários para o aprendizado, pois dizem que a chave para os planos superiores é o conhecimento. Diz a lenda que as pessoas que buscam sabedoria devem orar para Sarasvati.
A importância de um intelecto aguçado e puro deve ser transmitida aos outros. Deve-se também dar importância a ganhar riqueza eticamente e a obter conforto material. O poder de Sarasvati nos ajuda a alcançar tanto as alegrias materiais quanto o progresso espiritual, a amadurecer a nossa capacidade intelectual e a tornar a mente mais focada, superarando a turbulência mental. Adorar e meditar com a Deusa Sarasvati é útil para induzir entusiasmo por estudos intelectuais e para desenvolver o estudo da alma ou autorreflexão. Orações para Sarasvati trazem inspiração artística, porque ela é o esclarecimento, a sabedoria da mente cósmica, a deusa da beleza em criação. O brilho dela representa a luz poderosa e pura da sabedoria, capaz de destruir a escuridão da ignorância.
Mirella Faur nos aconselha que, ao homenagear a deusa Sarasvati, devemos invocar seus dons de expressão fluente e criativa para o nosso trabalho, e recomenda limpar a escrivaninha e o computador, passando um incenso de sândalo sobre eles. Coloque ao lado flores, uma vela amarela e uma imagem da deusa ou, então, escreva com tinta dourada seu nome, ensina. “Entoe o mantra OM e visualize essa linda deusa irradiando sua luz dourada sobre você e seu local de trabalho. Peça-lhe inspiração, conhecimento, criatividade e sucesso para os seus projetos”.
Peçamos, sobretudo, a sabedoria de Sarasvati para a nossa melhor inspiração, as respostas mais acertadas aos nossos questionamentos e as decisões mais corretas para o nosso caminho. Vamos pedir à deusa de todas as artes criativas que nos favoreça com os dons necessários a fazer da vida um aprendizado com as nuances de beleza da poesia, da prosa e da música. Que Sarasvati toque a nossa alma com delicadeza e nos faça mais sensíveis e com a vida exalando amor, beleza e sabedoria.



Qualidades: o sentido da beleza, a facilidade de expressão, inspiração, eloquência, poesia, música, receptividade, fluidez, harmonia.
Dificuldades psicológicas: dificuldades de se expressar, opor resistência às mudanças, sarcasmo, desarmonia interior.
Sintonia: artes, música, poesia, incenso, o alaúde, as flores, os frutos, as folhas de palmeira, o lótus, as pérolas, as penas de pavão, os cisnes, os rios, a cor azul.
Invocação: “Graciosa Sarasvati, envolvei-me com os sons suaves da sua melodia, levai-me junto nas asas do seu cisne encantado, envolvei-me com a luz misteriosa da lua brilhando nos seus cabelos, ensinai-me a escrever certo o livro da minha vida”.

A magia da gratidão (Lammas ou Lughnasadh)

Vera Pinheiro

Lammas, também chamado Lughnasadh, é o tempo da colheita e da celebração dos frutos do mistério da Natureza, e de dar graças pela generosidade da Deusa em seu aspecto de Rainha da Terra. Festa da primeira colheita, é o momento de agradecer aos Deuses por tudo o que colhemos, expressando a nossa gratidão por tudo o que vivemos, seja bom ou nem tanto, pois tudo na vida faz parte do nosso caminho evolutivo.
            Não se pode ser feliz sem conhecer a gratidão. Aliás, a felicidade é a expressão da gratidão em sua exuberante alegria e no extremo contentamento que a alma experimenta. Gratidão deve fazer parte da nossa rotina por toda a vida, todos os dias, de hora em hora e a cada minuto, pois é um sentimento renovador de esperanças e, ao mesmo tempo, um incentivo a novas conquistas e vitórias no cotidiano.
            A começar pelos pais, devemos ser gratos por todos os que passam pela nossa vida, até mesmo os que nos parecem desinteressantes ou não merecedores de nossa gratidão, nisso se incluindo os desafetos e inimigos, bem como quem nos aborrece com a sua presença e nos causa alívio quando se ausenta. Agradeçamos em vez de julgar, e sentiremos fluir nas veias a bênção divinal por esse gesto.
            Tenhamos gratidão por todos os bens a nosso dispor, e tudo é muito farto, basta olhar em volta e agradecer. O amor da Mãe Terra por nós é tamanho que a vida diariamente acorda em raios de luz, festejando o amanhecer de um novo dia, e nos oferta luares e estrelas na primavera, verão, outono e inverno. Embora sofra com a ação irresponsável de seus filhos, a Natureza se doa constantemente em flores e frutos, sementes e colheitas, animais e plantas, terra, água, fogo e ar. Mesmo que não descubramos qualquer outro motivo igualmente grandioso para nos alegrarmos, agradeçamos pela amorosa doação da Grande Mãe.
            O que nos acontece precisa de nossa gratidão também. Ainda que não compreendamos uma sucessão de acontecimentos que dilaceram as emoções e racham feridas em nosso ser mais profundo, agradeçamos! Nada é em vão, mesmo que não alcancemos de imediato o significado e a razão dos fatos. Em estado de gratidão, entreguemos as amarguras ao tempo, que traz entendimento, aceitação e faz serenar as dores, adormecendo-as lentamente até que elas saiam do foco de nossa atenção. O decurso do tempo nos desvia do sofrimento permanente pela lembrança viva do que doi.
            Pelos amigos e por amores, tenhamos muita gratidão! Os relacionamentos são luzes brilhantes que se acendem no caminho, e nos abençoam com crescimento e evolução. Mas não somente a esses. Agradeçamos aos que nos açoitaram o coração e o feriram, os que traíram a nossa confiança e estima, a quem não retribuiu na mesma medida e com igual sinceridade o amor e a amizade que devotamos. Todas as pessoas que cruzam por nós têm um propósito que, às vezes, sequer elas sabem, pois esse assunto está no conhecimento restrito do amor divino, do qual jamais devemos duvidar. Quem nos ajuda a ser feliz merece a melhor gratidão, mas não sejamos menos gratos com quem nos mostra a verdadeira essência que nos habita e que se revela quando de algum modo somos machucados.
            De manhã à noite, sempre que respirarmos, manifestemos a nossa gratidão por todos, por tudo e pelo Todo a que estamos integrados em unidade. Nossos passos estão cadenciados com o ritmo do caminhar de cada um nas veredas da espiritualidade. Cultivemos a gratidão por ser quem somos e a cada ser por aquilo que ele é. Gratidão sem fronteiras nem limites, sem medidas nem condicionamentos. Em extremado e gentil amor, agradeçamos sem julgar o merecimento. Gratidão! Gratidão! Gratidão! Essa é a grande magia do Sabbat Lammas.
        

Laima, Deusa do amor e do destino

Vera Pinheiro

            Os países bálticos, a 19 de julho, celebram a Deusa Laima, doadora da boa sorte, da beleza, dos poderes mágicos e do amor. Ela era representada em forma de cisne e, por isso, guardar uma pena de cisne atraía as suas bênçãos, conta Mirella Faur, escritora e sacerdotisa da Grande Mãe, criadora da Teia de Thea. Na Lituânia, nessa data, os jovens se reuniam de noite para danças circulares e trocas de votos. Eles usavam guirlandas de flores colhidas nos campos como promessas de amor e celebravam dançando ao redor do altar de Laima.
Os países bálticos são formados por Estônia, Letônia e Lituânia e se localizam na porção nordeste do continente europeu, na costa leste do mar Báltico. Essas três nações integraram a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e declararam suas independências em 1991, passando a Estados autônomos.
Com o fim da URSS em 1991, as ex-repúblicas soviéticas, juntamente com a Rússia, criaram a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), que consiste num bloco econômico cujo principal objetivo é estabelecer um sistema econômico e de defesa entre as nações. De todas as ex-repúblicas soviéticas, somente os países bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) nunca integraram a CEI, pois essas nações, desde a independência, sempre tentaram diminuir as relações políticas com a Rússia, principal integrante do bloco.
O panteão de deuses da Lituânia é bastante rico e diversificado. Os lituanos, assim como outras nações antigas, desenvolveram no período do patriarcado a imagem do único Deus supremo, o criador e Senhor do universo e de toda a vida, considerado o Mestre do Destino, o Senhor do mundo, que governou o Céu e a Terra. “Dievas”, o nome de Deus em lituano, muitas vezes personifica o brilho do céu, luz ou dia.
Os lituanos respeitavam os deuses e deusas da fazenda e da casa. O culto dessas divindades originava-se a partir da imagem da Mãe Primordial; mais tarde, a imagem do pai influenciou também. Estas deidades protegiam a casa, as pessoas que vivem nela, a agricultura, os animais domésticos e aves.
Alguns elementos arcaicos do culto da Mãe Primordial sobreviveram no século 19. Durante o casamento, a noiva se despedia de sua casa paterna e de seus deuses, devendo rezar e fazer sacrifícios para um ídolo feminino feito de um feixe de palha, implorando para perdoá-la por sair de casa e se mudar para um novo lar, onde teria de adorar outros deuses.
As deusas de nascimento e morte eram, respectivamente, Laima e Giltine. Ambas pertenciam à geração mais velha de deusas. Laima era responsável pela fertilidade, predeterminando o destino do recém-nascido, cuidando de mulheres no parto, segundo os fenômenos cósmicos. Originalmente com imagem ornitomorfa (forma de ave), aos poucos ela adquiriu forma humana. Na área de Aestii, as aves de pedra encontradas no chão devem ter representado a Deusa Laima. Estas aves-estatuetas expressavam a ideia do elemento feminino. O culto das árvores tílias é vinculado à Laima-pássaro. Como Laima adquiriu uma imagem antropomórfica, ela se tornou protetora não só da vida terrena, mas também da vida celeste.
A natureza é um ponto muito importante na religião dos lituanos, que têm muitos deuses e deusas que simbolizam os poderes da Natureza, que são o vínculo das pessoas com fatos supranaturais. Os ancestrais costumavam realizar seus ritos religiosos em florestas sagradas, perto de riachos sagrados. Mais tarde, especialmente na Idade do Metal, apareceram templos, cujas relíquias foram descobertas em diferentes lugares da Lituânia.
Segundo o livro “Senoves Lietuviu mitologija ir religija”, de Prane Dunduliene, traduzido em inglês para “Ancient Lithuanian Mythology and Religion”, desde os tempos mais remotos, os lituanos respeitavam criaturas divinas como ídolos: primeiro, totens; depois, zoomórficas-antropomórficas e, finalmente, divindades puramente antropomórficas, conforme revelado por fontes arqueológicas e escritas, bem como por dados linguísticos e etnográficos.
A Lituânia foi o último país a ser cristianizado, em 1387, e foi uma tarefa muito difícil, que durou séculos. No entanto, seus cultos pré-cristãos sobreviveram pelas tradições orais e a sua religião pagã é uma das mais poderosas dentre as que foram reconstruídas em nossos tempos.
A Deusa Laima é a personificação do amor, do destino e da sorte, e, associada ao parto, é padroeira das mulheres grávidas. O nome Laima deriva-se da palavra laime, que significa “felicidade” ou “sorte”. Os nomes alternativos incluem Laime, Laimė (Lituânia), Laimas Mate, Mate Laimes (“Mother of Luck”).
Laima é uma das poucas deusas dos povos bálticos que incorpora uma ampla variedade de funções individuais e sociais, dos quais dois são particularmente notáveis: determinação do destino e agente de fertilidade. Essa deusa está intimamente envolvida com a vida humana. Sua função básica está relacionada com o nascimento da criança e decidir o seu destino. Laima profetiza como será a vida de um recém-nascido, detendo o poder supremo de determinar a vida do indivíduo.
Suas decisões neste contexto são radicais e imutáveis, não racionalmente motivadas: determina se a vida vai ser curta ou longa, abastada ou pobre, despreocupada ou não, bem como cabe a Ela decidir o momento da morte de uma pessoa. Ela assegura a fertilidade dos campos e dos animais (do cavalo, em particular) e as moças solteiras rezam para ela, pedindo bons maridos e um casamento feliz. Ela ajuda, ainda, em outros aspectos importantes da vida e para o bem estar das pessoas em geral.
Por vezes, havia apenas uma Laima, enquanto em outros casos, três Laimas dariam previsões contraditórias com frequência. O pronunciamento final sobre o destino da pessoa seria irrevogável e nem mesmo Laima poderia alterá-lo.
A menção às três Laimas significa que essa deusa tem três aspectos ou que este pode ter sido o nome de três divindades. No moderno Dievturi, movimento religioso neopagão que afirma ser um renascimento da religião popular dos letões antes da cristianização no século 13, essas três deusas são referidas como a mesma deidade em três aspectos diferentes.
O triunvirato de irmãs decidia o destino dos seres humanos desde a gestação até a morte. Laima cuidava dos fetos, Dekla das crianças e Karta dos adultos. Quando um nascimento estava por ocorrer, as três faziam previsões sobre o destino da criança, mas Laima tinha a palavra final, e era também quem decidia sobre a data de morte. Laima toma a decisão final sobre o destino individual e é consideravelmente a mais popular delas.
Assim como a bondosa Zemyna, a deusa da terra, uma das mais populares divindades lituanas, o trio de deusas era visto como o combustível para a ferocidade lituana nas batalhas. Por isso, seu politeísmo resistiu tanto, de forma similar ao que ocorria com os vikings e sua mitologia. A religião dos lituanos era fatalista: já que o seu destino, assim como os dos inimigos, estava traçado, eles se entregavam à batalha sem temor.
Enquanto três deusas do destino têm menos apoio entre os acadêmicos, o conceito está bem estabelecido nas religiões europeias. Na Letônia, Laima e suas irmãs Dekla e Karta formavam uma trindade de deidades do destino semelhante às Nornes, da mitologia nórdica, às Moiras, da mitologia grega, e às Parcas romanas.
Em conexão com a Deusa Laima, agradeçamos o nosso destino, a nossa vida e todas as experiências, mesmo as que preferimos não ter vivenciado ou que tivessem sido evitadas por interferência divina. Nada é inútil ou em vão, pois tudo o que vivemos tem um significado e um propósito, e serve ao nosso processo evolutivo espiritual, do que não conhecemos a extensão. A confiança de que o nosso destino foi divina e amorosamente traçado substitui as suspeitas de que isso ou aquilo não devia ser como é, afasta os temores do que virá a ser e nos dá a certeza de que a nossa vida está em sintonia com a sagrada vontade da Grande Mãe.

Como Laima é deusa do amor também, convém lembrar que os pedidos neste sentido não devem incluir pessoas nem identificar nomes. É preciso confiar que a Deusa do Destino sabe o que – e quem – é melhor para nós. Às vezes, a solidão é a melhor alternativa. Vamos pedir amor, simplesmente tudo isso! O amor que nutre, cura, abençoa, alegra, enche a alma de contentamento! O amor que faz vibrar o coração das pessoas entre si e delas por toda a humanidade e por todos os seres. O amor de que o mundo está carente hoje, mais do que sempre.

A sutil força do amor

Vera Pinheiro
            Ah, o amor... Queremos saber mais dele, aprender tudo sobre ele, conhecer todas as suas nuances, descobrir cada uma de suas tantas possibilidades! Um ritual para celebrar uma Deusa do Amor parece-nos perfeito para alargar a nossa compreensão sobre esse sentimento tão lindo e nutridor e para atender as nossas expectativas de sucesso amoroso. Mas o amor não se sujeita a teorias, vive pela prática constante e exercício persistente.
            Sob as bênçãos da Deusa Laima, quem já tiver um amor comemore a sua união criando com o seu parceiro um ritual pessoal para reverenciar o Deus e a Deusa interior, reforçando e selando, assim, os laços de amor, compreensão, apoio e colaboração recíproca. O ensinamento é da escritora Mirella Faur que, em seu “Anuário da Grande Mãe” (editora Alfabeto), acrescenta sugestão mágica para quem esteja passando por uma fase de frieza em sua relação: “Olhe para o céu e peça à estrela Sirius que ajude seu amor a renascer e a renovar-se”. Isso porque a data de Laima é consagrada também à estrela Sirius ou Sothis, da Constelação de Canis Major, chamada também de Canopis ou “Olho do Cão”. É mesmo um dia de energia amorosa, o 19 de julho. Em Roma, celebrava-se a união de Vênus, a deusa da beleza feminina e do amor, com Apolo, o belo deus regente da luz solar, das artes, da música, profecia, poesia, harmonia e cura. Não poderia ser ocasião mais propícia a vivenciar a sutil força do amor.
            Amor se aprende? Sim, se aprende pelo exercício de abrir o coração e de fechá-lo para o medo de amar. Amar é um verbo que se aprende deixando o amor tomar conta de todo o nosso ser, negando-o a influências contrárias a esse sentimento, como o são todas as energias baixas. A negatividade faz mal ao amor. A inveja também. A ansiedade estraga o amor. O comodismo também. Dominação não combina com amor. Subserviência também não.
            Amor limita-se a duas pessoas? Não, isso é uma escolha individual. Uma única pessoa pode amar todos os seres do universo como verdadeira irmandade e será o mesmo amor, de outro jeito. Devotar o seu amor a alguém vincula, cria laços. Amor entre casais, amor familiar, amor universal, tudo é a mesma energia expressando-se de maneiras diferenciadas. E o amor é tanto, e tão imenso em sua essência, que cabe a humanidade toda dentro dele, ao mesmo tempo em que, pela troca, se renova e se refaz a todo instante.
            Um ritual para uma deusa do amor dá certo? Tudo depende do ambiente – propício ou não – criado por nós em nossas vidas. As plantas nos ensinam que precisam de um terreno favorável ao seu germinar, por que o amor seria diferente, se tudo faz parte da mesma natureza? Se o nosso coração estiver inflamado pelo ódio, pelo rancor, por ressentimentos    , como há de o amor nascer nele e se manifestar? Antes, precisamos erradicar as dores antigas e abrir espaço para o amor, que traz um novo tempo.
            Amor tem de ser correspondido? Nem a gente precisa preocupar-se com isso. Amor é uma força tão grande que funciona como um bumerangue: vai e volta. Com a mesma intensidade e na mesma medida, devendo lembrar que esta é a lei do universo. O que acontece é que o amor que se entrega nem sempre vem de quem a gente espera, mas no caso não estamos falando de pessoas e, sim, do amor em si. Quem ama tem a resposta do amor que deu, mesmo que não seja daquela pessoa que recebeu. O que importa é compartir a energia do amor, que tem suas razões e seus mistérios.
            De que adianta amar sozinho? O equívoco está em dar um nome, um rosto, um corpo ao amor, que é muito maior do que qualquer pessoa. O amor é a energia vital que está acesa dentro de nós enquanto cumprimos a nossa trajetória sobre a face da terra. O amor é o que faz brilhar os olhos, mesmo que eles fiquem marejados de vez em quando. O amor é o que nos fortalece em meio aos desafios da existência. O amor é o que nutre o nosso espírito, que se originou da fonte criadora da existência, a Grande Mãe. Lembremo-nos da nossa condição de aprendizes nesta oportunidade de vida que recebemos: somos indivíduos comunitários, que precisam coexistir pacificamente com todos os seres do universo, pois tudo e todos são sagrados. O amor que tanto os humanos aspiram não está nos outros, portanto não adianta tentar encontrar fora o que está dentro de cada um. Amem-se primeiro e com tamanha dedicação que o cotidiano lhes seja leve, não importa o que aconteça. Amem todos os seres e conhecerão a harmonia. Amem simplesmente porque amar é bom e faz bem. Não se preocupem com a recompensa. Amar já é a melhor recompensa, pelas bênçãos que traz em forma de felicidade extremada à nossa vida.

Litha, plenitude e êxtase

Vera Pinheiro

A Roda do Ano, representada por oito Sabbats, sincroniza a energia humana com as Estações do Ano, ou seja, com os ciclos do planeta Terra, e descreve o Caminho do Deus Sol durante o ano: nascimento, crescimento, união com a Deusa e, finalmente, seu declínio e morte. Da mesma forma que o Sol nasce e se põe todos os dias e assim como a primavera faz a Terra renascer após o inverno, esse ciclo nos mostra que a morte é apenas um ponto no ciclo infinito de nossa evolução e que é necessária para o renascimento do útero da Grande Mãe.
As celebrações anuais da Roda do Ano honram os Deuses, os espíritos da natureza e os antepassados. Durante os festivais, agradecemos e pedimos proteção, saúde, prosperidade, fertilidade, inspiração e paz aos Deuses e Deusas que comandam tais mudanças.
O Ano Celta dividia-se em duas metades: uma clara e quente e outra escura e fria, associadas ao verão e ao inverno e classificadas como Festivais do Fogo (Samhain, Imbolc, Beltane e Lughnasadh/Lammas) e Festivais Solares (Solstício de Inverno e Verão, Equinócio de Primavera e Outono).
O Ano Novo Celta se inicia no Samhain, que significa “Sem Sol”, referindo-se ao tempo de inverno. Litha, Solstício de Verão (Midsummer), é celebrado no dia 21 de junho no hemisfério norte, e é quando a Deusa e o Deus estão vivendo o êxtase de sua união, enquanto a natureza comemora com a beleza das flores e a abundância dos frutos. O casal sagrado está pleno de promessas e os rituais visam nutrir e fortalecer a nova vida no ventre humano, animal e no ventre da própria natureza.   
O amor entre o Deus e a Deusa atinge seu clímax neste Sabbat, e a exuberância da natureza significa o orgasmo cósmico. A atmosfera reinante em Litha é de plenitude, realização, manifestação e mudança. Todos os desejos podem ser realizados, pois o Deus e a Deusa estão cheios de possibilidades e a força vital está em seu auge. A Deusa, radiante e plena, floresce por toda a parte e, em breve, do seu ventre nascerão as colheitas. O alegre e vibrante Deus Verde da Vegetação está na plenitude de seu amor pela Deusa e, ao amadurecer, iniciará a sua jornada para o mundo subterrâneo.
O Solstício de Verão era celebrado pelos antigos povos - principalmente os celtas, escandinavos e saxões - como o auge da trajetória anual do Sol. Neste dia, considerado o mais longo e claro do ano, o nascer e o pôr-do-sol alcançam seus pontos máximos ao norte da linha do horizonte, marcando o auge do verão.
Em Litha o poder e a força da natureza chegam ao seu ponto mais alto. A Terra está repleta e abundante com a fertilidade da Deusa e do Deus e fogueiras são acesas para homenagear a energia do Sol, que atinge seu ápice: esta é a noite mais curta e o dia mais longo do ano.
O auge da luz solar marca o poder máximo do sol, mas prenuncia, também, o começo do seu declínio, quando o Deus Solar mergulha nas profundezas da escuridão. Esse paradoxo nos lembra que a mudança é a essência da vida, carregando dentro de si a semente do seu oposto, e é por isso que Litha, o Solstício de Verão, assinala o início da metade escura do ano, explica Mirella Faur, pesquisadora, escritora e sacerdotisa da Grande Mãe.
Quando o Hemisfério Sul passa pelo Solstício de Verão – evento que marca o início desta estação – quem vive no Hemisfério Norte da Terra está passando pelo Solstício de Inverno, considerado o dia com a noite mais longa do ano. O solstício de Verão pode acontecer no dia 21 ou 22 de dezembro, dias em que a radiação solar incide de forma vertical sobre o Trópico de Capricórnio.
O Brasil está localizado no Hemisfério Sul, enquanto a Europa e os Estados Unidos, dentre outros, fazem parte do Hemisfério Norte. Em países do Hemisfério Sul, como é o caso do Brasil, o Solstício de Inverno acontece normalmente no dia 21 de Junho, quando o Sol atinge a maior declinação de acordo com a linha do Equador.
O Solstício acontece graças aos fenômenos de rotação e translação do planeta Terra, pois graças a eles a luz solar é distribuída de forma desigual entre os dois hemisférios. O Solstício de Inverno significa que a luz do sol não incide com tanta intensidade no hemisfério em questão. São fenômenos opostos dependendo do hemisfério em que um determinado país se encontra. Por esse motivo, quando é inverno no Brasil (Hemisfério Sul), é verão na Europa e nos Estados Unidos (Hemisfério Norte).
No Hemisfério Sul, é comum que se desloquem estas festas por seis meses para coincidir com as estações locais. A Teia de Thea optou por seguir a tradição celta, de que se originam os Sabbats que ocorrem oito vezes ao ano, levando-se em conta a posição da Terra com relação ao Sol, divididos em Equinócios e Solstícios.
Entendemos que a Roda do Ano é o calendário que simboliza a concepção de tempo dos pagãos e principalmente a dos Celtas, um tanto quanto diferente da atual, semelhante ao zodíaco. Eles não viam o tempo de forma linear, mas circular, cíclico, e seus calendários levavam em conta não só o ciclo solar como é o nosso, mas também o ciclo lunar e é nessa egrégora que vibra a Teia de Thea. Essa é a explicação para realizarmos o Solstício de Verão em junho.
Na noite de Midsummer (o Solstício de Verão), fadas, duendes e todos os elementais correm pela terra, celebrando o fervor da vida. Nos tempos antigos, a data era comemorada geralmente com jogos e festivais, homenageando os Seres da Natureza e as Divindades do Solstício, depois substituídas pelas populares e folclóricas festas juninas com danças ao redor de fogueiras. Nessa noite de Grande Poder Mágico, é costume acender uma grande fogueira, continuando a Tradição de Beltane, e pular sobre ela para livrar-se dos infortúnios e da negatividade.
As antigas culturas europeias começavam as celebrações ao nascer do Sol, no primeiro dia do signo de Câncer, saudando Deuses Solares (Baldur, Lugh e Dagda) e Deusas Solares (Grainne, Sunna, Sol, Sundy Mumi, Paivatar, Saule), e continuavam com festejos, cantos e danças até a noite, quando eram acesas inúmeras fogueiras nas colinas e nos campos.
Mirella Faur conta que era costume também rolar colina abaixo uma roda de fogo, feita de galhos ou barris com piche, simbolizando o disco solar e purificando, em seu percurso, as vibrações negativas dos campos e lavouras. Tochas acesas eram carregadas em procissões para “limpar” as casas e aldeias, trazendo, assim, saúde e prosperidade. O gado também era passado por entre duas fogueiras acesas, afastando doenças e aumentando a fertilidade, enquanto casais de namorados pulavam juntos a fogueira para atrair e garantir a permanência e fidelidade de seu amor. As fogueiras permaneciam acesas durante toda a noite e as pessoas dançavam ao seu redor, cantando e bebendo hidromel e vinho aromatizado com ervas solares.
Essas festividades, ditas pagãs (paganus sendo a palavra romana que designava o homem do campo), persistiram até a Idade Média, camufladas sob a forma de feiras - agrícolas, de artesanato, esportivas ou artísticas - para evitar a perseguição da Igreja. Até que, em 1985, o Grande Festival de Stonehenge foi proibido. Considerado uma continuação de uma antiga feira medieval - que por sua vez era a reminiscência das Celebrações Druidas - a participação pública neste evento foi proibida (devido à erosão do solo e ao vandalismo dos visitantes), sendo reservado apenas às Ordens e Círculos Druídicos atuais.
Depois de ficar fechado por alguns anos, Stonehenge reabriu para o solstício de verão em 1999. O evento agora atrai mais de 20 mil visitantes que desejam ficar acordados para ver a alvorada lado a lado com os druidas vestidos de túnicas brancas. As pessoas se reúnem durante a noite no círculo de menires para ver o sol subir em alinhamento com duas pedras no círculo externo e dançam ao som de tambores e músicas variadas. Ocasionalmente é permitido o acesso fora desta data com a devida supervisão para evitar estragos aos menires.
No momento do solstício recomenda-se fazer afirmações ou rituais para a saúde, justiça, sabedoria, verdade e paz. Segundo os Druidas, os primeiros raios do Sol nascente do dia do Solstício de Verão são a manifestação visível da descida do Espírito na matéria. O dia do Solstício também é considerado favorável para o recolhimento de ervas, preparação de água cromodinamizada, confecção e imantação de talismãs e amuletos, além de oferecimento de cereais, agradecendo a luz solar ao Avô Sol e as dádivas da Mãe Terra.
A planta dedicada a este Sabbat é o hipericão (Erva de São João), que era colocado embaixo dos travesseiros para intensificar os sonhos ou, sob a forma de guirlandas, ser colocado no telhado das casas para atrair boa sorte. Com a cristianização, o Deus Baldur foi sincretizado à figura de São João e as celebrações pagãs foram transformadas em festas juninas, podendo-se, então, usar o sincretismo e utilizar a Erva de São João, já que o hipericão não é cultivável no Brasil.
Mirella Faur observa que na mitologia grega, nesta data, a deusa Perséfone atingiu sua plenitude de mulher (celebrada no Sabbat Beltane, de 30 de abril) e entrou no labirinto que a levou ao mundo subterrâneo, reino de seu esposo Plutão e da deusa Hécate. Segundo a lenda, sua descida inicia-se à medida que a força do Sol declina e a luminosidade dos dias diminui (no Hemisfério Norte).
Com o intuito de enriquecer sua vida moderna e tecnológica com o encanto dos antigos rituais, aproveite esta data e faça seu próprio ritual. Acorde cedo e, em jejum, saúde o Sol no momento exato em que ele se eleva acima da linha do horizonte, entoando - de acordo com a sua intuição - uma oração para um Deus ou uma Deusa Solar, pedindo saúde, sorte, sucesso nas suas realizações, luz para a mente dos governantes, paz ao seu redor e no mundo.
Olhe rapidamente para o disco solar, feche os olhos e inspire a energia dourada, trazendo-a para seu chacra solar. Em seguida, acenda uma vela dourada ou amarela e coloque-a em uma vasilha de vidro, despejando, depois, água mineral ao seu redor, cuidando para não apagar a vela. Toque um gongo ou sino, tome três goles de água mineral, expressando um desejo para cada gole. Medite, olhando a vela, sobre o que você precisa clarificar em sua vida, como se renovar ou fortalecer sua saúde. Apague a vela com os dedos (não assopre) e guarde-a para acendê-la quando se sentir enfraquecida ou desvitalizada. Despeje a água sobre a terra ou em um vaso de plantas como oferecimento à Mãe Terra.
Em seguida, defume sua casa e prepare água solarizada (água com uma drusa de cristais de rocha magnetizada com os raios solares). Coloque alguns galhos de erva de São João embaixo de seu travesseiro e peça aos Anjos e Deuses Solares que lhe enviem informações, intuições ou mensagens que lhe ajudem a fortalecer sua saúde, vitalidade e desempenho pessoal. E, ao participar de uma festa junina, lembre-se das antigas celebrações e pule sobre a fogueira para se purificar ou, junto a seu parceiro(a) ou companheiro(a) para reforçar os laços de amor.