segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Deusa Gerda, a Luminosa

Vera Pinheiro

            Pertencente à raça dos gigantes, filha de Gymir e Aurboda, Gerda era a deusa da luz, status adquirido pelo casamento com o deus Frey. Conhecida por sua radiante beleza, ao caminhar ela deixava um rastro de fagulhas e, quando levantava os braços, irradiava uma luminosidade brilhante sobre o céu, a terra e os mares, conforme a escritora Mirella Faur, que descreve Gerda (Gerd, Gerdi ou Gerth) como a “Deusa Luminosa”, em seu livro Mistérios Nórdicos (Ed. Pensamento). Para alguns autores, essa luminosidade é a Aurora Boreal.
Na Islândia, em 22 de abril, celebrava-se o Dia da Terra, que comemorava a chegada da primavera e homenageava Gerda, a severa deusa escandinava, Senhora da Terra Congelada pelo inverno, que despertava pelo toque luminoso de Frey, o alegre deus da primavera e da vegetação.
            Antes de se casar, a giganta Gerda habitava uma casa simples de madeira, cercada de montanhas, em Jötunheim, de onde saiu para morar  no faustoso palácio de Frey em Alfheim, junto com Frey, adquirindo, pelo casamento, o status de deusa. Seu nome era associado com a terra, os lugares sagrados e os campos, e o seu casamento foi descrito como “a união sagrada entre o céu e a terra”, celebrado nos rituais dos Sabbats celtas e dos Blots nórdicos.
            No seu livro Ragnarök, o crepúsculo dos Deuses – Uma Introdução à Mitologia Nórdica (Ed. Cultrix) Mirella Faur diz que a principal característica de Gerda era a sua maneira reservada de se comportar e a sua firme recusa em se deixar coagir ou comprar com presentes. “Como seu nome é associado também a local cercado, templo, a sua determinação em não ceder mostra o recolhimento no seu próprio espaço sagrado, simbolizando, assim, a preservação do self”.
            Como giganta, Gerda tinha o potencial de manifestação do poder primal, caótico e destrutivo, que ela controlava e continha com maestria e domínio. Gerda não se deixava governar por impulsos e paixões, pois sabia como dominar o caos e por isso ensinava o respeito e a manutenção dos limites. “Ela orienta, portanto, a manutenção da integridade, o fortalecimento da autoestima, a lealdade dos próprios valores e o recolhimento interior”.
De acordo com Mirella Faur, a deusa Gerda pode ser invocada nas situações em que é preciso vencer a oposição ou a resistência de pessoas ou de circunstâncias, e para ativar e reforçar novos projetos, bem como em rituais de embelezamento, para aumentar a sensualidade e o poder de sedução. Mas a sua proteção vai muito além disso. “Como protetora das mulheres solteiras, Gerda lhes recomendava o respeito pela própria sacralidade feminina, para que assim abrissem seu “templo” apenas no devido tempo, para o parceiro certo e com a necessária observação, avaliação e precaução”.
A escritora explica que “a autopreservação é uma qualidade importante que era conferida por Gerda àquelas que dela precisavam, seja como proteção nas práticas mágicas e espirituais, seja nos relacionamentos familiares e afetivos. Ela protegia contra a falsidade, as ilusões e as armadilhas emocionais ou sensoriais, evitando que as mulheres ficassem enfraquecidas pelas concessões ou submissões, recomendando-lhes a clara observação e a prudência nas escolhas e ações”.
No livro “Ragnarök”, Mirella Faur dá uma significativa maneira de recorrer a essa deusa nórdica. “Gerda ensinava também como fortalecer a hamingja (sorte, poder) pessoal e familiar e honrar os ancestrais, resgatando os vínculos com as energias sagradas da terra, dos ciclos e das estações, das pedras e das plantas”. A sabedoria de Gerda recomendava paciência, autoestima e a reverência pela sacralidade dos espaços exterior (nas práticas espirituais) e interior (o templo do Eu Superior), onde devia ser procurado o silêncio e ouvida a voz divina.
As gigantas são descritas nos mitos como lindas e atraentes mulheres, corajosas e dotadas de poderes mágicos. Em razão de conhecerem o “wyrd” (o destino), algumas delas foram cultuadas com fervor mesmo depois da cristianização.
A relação entre deuses e gigantes, e seus eternos combates, é analisado pela pesquisadora como uma alegoria da conquista e da submissão da sociedade e dos valores matrifocais e geocêntricos pelos povos e deuses patriarcais. “Na Tradição Nórdica, a Terra também era feminina, sempre disputada e conquistada, segundo contam todos os mitos que exaltam a vitória dos deuses sobre os gigantes e seu desejo pelas gigantas, cobiçadas por sua beleza, força física ou poder mágico. Muitas se tornaram amantes ou esposas dos deuses e algumas conquistaram seu status divino graças a essas alianças”. Os deuses jamais subjugavam ou maltratavam as gigantas. “Pelo contrário, elas eram respeitadas, desejadas e adoradas, e seus conselhos e auxílio eram muito valorizados”, diz ela.

            

Os nossos ovos (Equinócio de Primavera)

Vera Pinheiro

            Nós, mulheres, botamos ovos. Eles são os nossos sonhos, desejos e projetos, a nossa esperança, os nossos quereres e as vontades que alimentamos no mais profundo de nosso ser. Nós gestamos ovos de expectativa acerca de acontecimentos futuros e projetamos neles a nossa necessidade de ser feliz. Isso é uma aposta com a vida e suas surpresas. Vence quem tem tenacidade, capacidade de reinventar as ambições e de administrar bem todas as possibilidades que nos oferece a existência.
            Quantas vezes choramos os ovos que não vingaram, os que apodreceram, os que foram esquecidos em algum canto do ninho, os subtraídos por alguém que não acompanhou o nosso gestar e não deu a devida importância por não estar em unissonância com as nossas aspirações. Os ovos femininos são a nossa contribuição para um mundo melhor, que renasce das cinzas das incertezas para se tornar concreto, palpável e realizável.
            Os nossos ovos acondicionam filhos que oferecemos para a vida, sem nos prepararmos para a independência nossa e deles. O estreito vínculo entre nós e eles permanece, não importa que idade eles tenham nem a consciência que alcançamos de que os filhos não nos pertencem, apesar de terem vindo de nossos úteros e planos. Sempre e para sempre queremos nos manter em vigília sobre os nossos ovos, cuidá-los e protegê-los das vicissitudes e dos perigos. Eles nos dispensam, mas nós nos mantemos atreladas ao ovo como se a razão de nossa existência dependesse de quão bem eles se norteiam na vida. Falta-nos a aceitação de que eles, os ovos filhos, têm direito a sua independência e ao seu aprendizado, sem a nossa tutela. Como nos é difícil o desvínculo dos ovos humanos que queríamos ter eterna e ternamente sob as nossas asas e debaixo de nossos cuidados. Essa é uma lição de desprendimento.
            No mais das vezes, cantamos ao universo os ovos de êxitos que realizamos no mundo, mas nos recolhemos em silêncio quando eles se transformam em lições que preferíamos não aprender, sem nos darmos conta de que os ovos nos ensinam muito sobre quem somos e a respeito de nossa vida atual, assim como das vidas pregressas também. Essa é uma lição de compreensão.
            Os ovos que sonhamos felizes nem sempre se tornam realidade. Conviver em harmonia com as frustrações nos dá maturidade, mas exige de nós uma humildade que não construímos, por termos nos forjado apenas para as vitórias e os sucessos. Afinal, é o que exigem de nós e é o que nos exigimos sem dar trégua para impossibilidades ou limitações. Essa é uma lição de paciência.
            Os ovos que se tornam o que aspiramos para eles nos dão a lição da gratidão, além da consciência de que tudo o que acontece resulta de uma conjugação de fatores que vão além de nosso entendimento. Então, nos tornamos gratos em máxima plenitude por saber que nem tudo depende de nós. Nem mesmo quando tudo parece depender de nós. Então, aceitamos a existência de forças além das nossas e o que é traçado pelas linhas sagradas do universo em consonância com o nosso merecimento. Essa é uma lição de reconhecimento.
            As esperanças são ovos que acalentamos em nosso peito, jogando as esperas para um logo ali que não sabemos onde se situa. Queremos algo que se faça em algum tempo, antes que a vida se esgote e que as oportunidades passem. Esperança é um querer tênue, que não se debate com as chances nem provoca o destino a fazer o que queremos. É uma pretensão que se deita na cama do tempo, sem saber se um dia se tornará possível. Mas a alma se alimenta de esperança, enquanto a mente não perde o viço do querer profundo. E de esperanças a vida se nutre, pois que nada esperar é o retrato do desânimo.

            Somos os nossos ovos, e cada um de nossos ovos nos representa e define. O que queremos de nós está nos ovos que oferecemos ao mundo, e o que o mundo nos dá tem a ver com os ovos que vieram de nossas ações, atitudes, comportamentos. E nada é em vão ou inútil, a gente sabe. O que produzimos (ovos, sementes ou obras) é a nossa essência revelada. E tudo o que vai de nós, um diavolta. O que plantamos será a nossa colheita e os ovos que botamos serão as vidas que vão desabrochar um dia, a nossa energia em formato de realização dos nossos desejos mais profundos. Inclusive os que calamos, os que não temos coragem de anunciar ou de admitir. Afinal, tudo é em absoluta consonância e harmonia com quem somos, com o que queremos e com o que pensamos.

A paz e a harmonia da deusa Concórdia

Vera Pinheiro

            Concórdia, conhecida também como Caristia, é a deusa romana da paz e da harmonia, simboliza o princípio do relacionamento harmônico e é a própria concepção do entendimento e da reconciliação entre as pessoas. De acordo com “O Anuário da Grande Mãe”, livro de autoria de Mirella Faur, escritora, pesquisadora, Sacerdotisa da Grande Mãe e criadora da Teia de Thea, a 16 de janeiro era celebrado em Roma o Festival de Concórdia e no dia 29 de janeiro, em honra a essa deusa, eram purificadas as casas e harmonizados os relacionamentos familiares. Em 22 de fevereiro, em outro Festival dedicado à Concórdia, as famílias festejavam a resolução de conflitos com banquetes, música e troca de presentes, e no dia 1º de abril, em celebrações greco-romanas com a participação apenas de mulheres, se invocavam as bênçãos das deusas Fortuna, Virilis e Concórdia para ter sorte no amor, melhorar a relação com os homens e garantir a harmonia nas famílias.
Concórdia é representada como uma mulher madura, segurando em uma mão uma cornucópia e na outra um galho de oliveira. Cornucópia é um símbolo rebuscado e antigo, representativo de abundância, fertilidade e riqueza. Na mitologia greco-romana aparecia como um vaso em forma de chifre, que remete ao sagrado masculino, ornamentado com flores e frutos em seu interior, simbolizando a generosidade da terra fértil e o sagrado feminino. Dos frutos da oliveira, as azeitonas, os homens aprenderam a extrair o azeite, empregado como ungento, combustível e usado na alimentação, sendo a árvore, por sua utilidade e longevidade, venerada por diversos povos. Esses dois símbolos, que a deusa Concórdia traz em suas mãos, têm relevância para todos os relacionamentos, e a maturidade, que é menos idade biológica e mais sabedoria, os enlaça e os faz duradouros, quando não eternos.
Os relacionamentos familiares, profissionais, amorosos, sociais, de amizade, de vizinhança ou de crença, de certa forma nos validam como pessoas, fornecem um atestado de nossa capacidade de interação e são demonstrativos de como nos situamos nos diferentes círculos de convivência. Não é raro procedermos ao julgamento e à consideração negativa de alguém que tem dificuldades para se relacionar com os outros. E é raro admitirmos conscientemente que temos uma parcela preponderante de contribuição para a harmonia de nossas relações com os outros. Essa resistência é devido à tendência de terceirizarmos essa responsabilidade e da vontade de nos esquivarmos dos próprios erros, deixando de encará-los e de, por conseguinte, resolvê-los.
 O ego é um dos algozes quando se trata de criar e de manter relacionamentos equilibrados. Onde o ego se manifesta a paz não se instala. Onde o ego ganha espaço não há construção do diálogo. Onde o ego se exalta o consenso não tem vez. Assim, dominar o próprio ego é condição para que a serenidade chegue e permaneça, permeando todas as nossas relações de afeto ou, que seja, de mera necessidade de convívio. E, de fato, há convivências que a gente tem por força de parentesco ou por razões de trabalho, e essas são as mais tempestuosas, por não serem exata e conscientemente escolhidas. Elas vêm no pacote que a vida nos entrega como uma maneira de aperfeiçoar quem nós somos. E são justamente essas pessoas as que mais nos fazem aprender sobre nós mesmos, pois se tornam instrumentos de nossa evolução.
Essa compreensão é alcançada a duras penas. Os aparentados a gente atura, não sem enumerar todos os defeitos e falhas que enxergamos neles. Seria menos penoso se nos questionássemos a respeito das razões pelas quais as pessoas se juntam em uma mesma família, apesar de todas as suas diferenças. O aprendizado que elas nos proporcionam leva ao nosso crescimento individual e à cura das relações conflituosas para além desta existência.
Além disso, é preciso amar e amar muito, mesmo quando julgamos que as pessoas não são merecedoras, especialmente as que têm conosco laços de parentesco. Ninguém nasce em uma família por acaso, mas por um divinal desígnio que nos conduz à elevação. E exatamente aqueles que menos fazem por merecer o nosso afeto no âmbito familiar são os que mais dele precisam, e o amor, com sua força curadora, pode modificar atitudes, comportamentos e direções existenciais. A deusa Concórdia nos diz que não tenhamos dúvida de que a família em que nascemos é a mais perfeita para a evolução de que necessitamos. A deusa Concórdia nos sugere sermos gratos por isso, pois é uma chance de nos harmonizarmos espiritualmente com outros seres, ainda que sejam os que menos compreendemos ou os que mais nos dão trabalho na arte de amar incondicionalmente.
 Relacionamentos profissionais parecem ser tecidos pelo acaso, mas não são. Quando compreendemos que as pessoas se juntam por uma razão que transcende a eventualidade, percebemos que temos um aprendizado humano e espiritual a fazer com todas elas. Mesmo com os que temos como abomináveis, os execráveis, os tiranos e os que detestamos desde o momento em que botamos os olhos neles estão ali, à nossa frente, por um propósito muito mais significativo do que a mera casualidade. Desconhecemos a tessitura existencial do ponto de vista dos resgates espirituais que temos a fazer com a grande irmandade universal.
O chefe impiedoso, o diretor grosseiro, a colega maldosa, a invejosa vizinha de mesa, todos eles nos ensinam acerca de quem somos e moldam a nossa capacidade de lidar com os infortúnios da convivência laboral. Todos eles são uma fonte de aprendizado que não devemos dispensar, por mais difícil que isso seja. Porém, a deusa Concórdia diz que é preciso prestar atenção ao que não está evidente: a razão de estarmos juntos. É preciso ouvir a indagação do próprio espírito, arguindo os motivos dessas experiências que julgamos dispensáveis, mas que não são, pois todas elas nos burilam e nos aperfeiçoam.
Em um círculo de amizade, tudo vai bem até que surge a primeira discordância. Se as pessoas não entenderem os delicados liames do diálogo harmonioso, vão se perder em elucubrações inúteis em busca de ter razão, sem considerar a necessidade vital de mútua compreensão. As razões alheias podem ser diferentes das nossas, mas não são menos importantes. Isso é respeitar o sagrado ponto de vista alheio, independentemente de nos acharmos donos da verdade ou não. O outro tem direito à sua opinião, que pode ser diferente da nossa, mas não menos respeitável. A deusa Concórdia nos diz que é preciso ser humilde para perceber que o mundo não gira em torno do que pensamos e queremos, e que todos são iguais na importância de seus argumentos, mesmo quando discordamos deles. É preciso humildade para ouvir o outro e reconhecer os seus direitos, inclusive o de discordar de nós.
E quanto ao amor? Ah, o amor, fonte de prazer e de sofrimento! O que une a essência das almas é a harmonia, a paz, o equilíbrio, não o tormento da convivência, as angústias e as desconfianças. As almas se unem pelo que têm em comum, não por suas diferenças. O que perturba uma relação amorosa é não perceber no outro a divindade que a habita, pois quando a reconhecemos é tamanho o amor que não sobra espaço para desavenças. O que estraga uma convivência que deveria ser plenamente amorosa é ter a si mesmo(a) em maior importância do que o outro, que não é visto como uma presença abençoada, mas como um elemento perturbador da paz. O que faz a diferença é olhar o outro como uma parte nossa, que jamais queremos magoar ou ferir. E a deusa Concórdia nos diz que haverão de se harmonizar no amor todos aqueles que conseguirem vislumbrar a pessoa amada como uma sagrada divindade com quem trocarão a energia vital do amor em sua totalidade.
A vida em sociedade se tornou sinônimo de cobrança do que se deve ser em detrimento do apreciável conceito do que se é. Passamos a usar máscaras que aderiram permanentemente à face que mostramos aos outros e deixamos de ser quem, realmente, nós somos. Na realidade, nós nos desaprovamos e então fingimos ser quem não somos, em busca da apreciação e da aprovação dos outros. Falta-nos a prática da aceitação de nós mesmos e dos outros, pois quando nos aceitamos conseguimos acolher os outros exatamente como eles são, sem o julgamento de como eles deveriam ser para se enquadrarem ao nosso modo de ver o mundo e as pessoas. A deusa Concórdia nos diz que o verdadeiro acolhimento se traduz na aceitação, e que nenhum coração alcançará sua verdadeira dimensão sem saber acolher os outros sem julgamento, mas com amor incondicional.
Quando temos relações de amizade ampliamos a nossa família universal. Os amigos são irmãos que nasceram de outros úteros e que se aproximam de nós por afinidades espirituais, mais do que por interesses em comum em outras áreas. Amigos(as) são a ponte que une a espiritualidade com a nossa humanidade. Eles nos sopram verdades que esquecemos e nos lembram de lições que não praticamos. São anjos que a vida coloca ao nosso lado para vigiar a nossa felicidade. Um laço de amizade nos relembra a conexão divina que jamais devemos perder. A deusa Concórdia diz que os amigos são mensageiros enviados às nossas vidas para que nos recordemos da nossa necessidade de integração com todas as pessoas e com todos os seres do universo.
Os vizinhos nos trazem o ensinamento da partilha. Nada é deles e nada é nosso. Tudo nos pertence e de nada somos donos. O espaço existencial é compartilhado e esse é um exercício de desapego. A ilusão da propriedade nos separa, mas, na realidade, somos todos parte e somos o Todo, sem distinção. A deusa Concórdia nos diz que é preciso combater com amor a ideia da separação e sugere nos integrarmos em uma comunidade em que compartilhar seja a melhor expressão do amar indistintamente.
E, finalmente, na crença é que se manifesta a verdadeira irmandade. Na fé compartida é que conhecemos o significado de estarmos juntos(as) e unidos(as), fortalecidos(as) uns(umas) com os(as) outros(as), uns(umas) pelos(as) outros(as), quando a fraqueza de um(a) se apoia na força de outro(a). A confiança nos reúne e nos integra. O amor nos conforta e unifica, então sabemos que realmente somos um(a) e que apenas a vontade divina pode nos separar, tudo com vistas à nossa evolução e ao nosso melhor aprendizado. A deusa Concórdia nos diz que a fé que nos une é tão intensa que nos faz irmãs e irmãos em espírito, superando a própria descendência humana, pois, afinal, todos nós viemos do mesmo espírito sagrado a que voltaremos ao fim de nosso aprendizado.
A deusa Concórdia traz a paz e a harmonia para todos os nossos relacionamentos. Seja Ela guia e inspiração para as nossas palavras e ações. E sejamos nós a fonte permanente e imorredoura do amor que acolhe, respeita e perdoa por saber que todos nós estamos em diferentes processos evolutivos e em constante aprendizado. Que as nossas diferenças sejam suplantadas pela vontade de nos harmonizarmos com todos os nossos irmãos da Criação. Que reconheçamos uns aos outros como caminhantes da mesma senda evolutiva e que cada um nos serve, assim como nós servimos, para o aprimoramento individual e coletivo. Que tenhamos  desprendimento de nossas vaidades e egoísmos para que os relacionamentos fluam na plenitude de sua beleza. Que nenhum(a) de nós se tenha em medida avantajada sobre os(as) demais, pois que todos(as) estamos em aprendizado. Que sejamos mestres de nós mesmos(as) e aprendizes com todos(as) os que passam por nossas vidas, pois todos têm algo a nos ensinar. Que tenhamos a percepção aguçada para não dispensarmos as lições que a vida nos oferta a cada instante. E que sejamos, cada um(a) de nós, a presença em totalidade da deusa Concórdia em nosso cotidiano, para semear e colher a paz e a harmonia que aspiramos para os nossos dias nesta encarnação.
Ao final, a deusa Concórdia nos diz que para ter sorte no amor é preciso amar com desprendimento, entrega e generosidade; para melhorar a relação com os homens, as  mulheres devem considerá-los como parceiros e não como inimigos, além de conviver harmoniosamente com as diferenças e de combater qualquer forma de opressão de um gênero sobre o outro, e para garantir a harmonia nas famílias o recurso é a aceitação, além do amor incondicional.

Por fim a deusa Concórdia nos traz a lembrança de que o amor sintetiza e explica o melhor da vida. Que tudo seja feito por amor e com amor. Em se tratando de relacionamentos (de qualquer ordem), o amor explica e justifica, cura e recupera tudo. O amor só faz bem. Se não fizer bem, pode ser tudo e qualquer coisa, mas não será amor, a grande força unificadora do multiverso em um único e verdadeiro universo, em que a paz se faz e a harmonia acontecem. Que a deusa Concórdia nos harmonize para alcançarmos mais este degrau de nossa evolução. Que seja assim e assim se faça para o nosso bem, para o bem de todos e para o bem do Todo a que pertencemos na perfeita e indissolúvel unidade.

A Mulher Búfala Branca

Vera Pinheiro

Há muito tempo atrás, a tribo nativa norte-americana Lakota (ou Sioux) vivia de forma simples, caçando búfalos nas campinas para sua sobrevivência. Um dia, dois jovens índios saíram a caminhar, atentos a qualquer movimento, quando vislumbraram no horizonte algo se movendo com rapidez. Chegando mais perto viram que era uma linda mulher, envolta por uma luz brilhante.
Os jovens tinham índoles diferentes: um deles apenas apreciou a beleza da mulher, enquanto o outro dela se aproximou com intenções de violentá-la. A mulher abriu seus braços e cobriu o conquistador com seu xale, ambos ficando dentro de uma névoa. Quando a neblina se dissipou, o outro jovem viu com espanto, saindo do xale da mulher o esqueleto do seu companheiro, que logo se transformou em poeira soprada pelo vento. Comovido, o jovem se ajoelhou perante a misteriosa mulher e pediu-lhe que fosse com ele para ensinar à sua tribo os mistérios da vida e da morte. Ela concordou e pediu que preparassem uma grande tenda onde toda a tribo pudesse se reunir.
 Lá a mulher mostrou um cachimbo feito de argila vermelha com um longo cabo de madeira, e pediu que o cachimbo fosse usado em ritos sagrados para lembrar e honrar a ligação dos seres humanos com todas as outras formas de vida, além de reverenciar a Mãe Terra, pois cada passo que fosse dado sobre seu solo seria como uma oração. Após esses ensinamentos a mulher se afastou e se transformou lentamente em uma novilha de búfalo branco. Foi por isso que essa misteriosa mestra foi denominada Mulher Búfala Branca, detentora do cachimbo sagrado e de seus mistérios.
O relato deste mito faz parte das publicações da escritora Mirella Faur, sobre a Mulher Búfala Branca, cujo ventre era Wakan, a causa primeva de tudo, o princípio primordial da Criação na antiga tradição Lakota. Reverenciado como o vazio cósmico, um receptáculo de infinitas possibilidades de Criação, Wakan era descrito como um grande recipiente estrelado, contendo inúmeras centelhas de vida adormecidas, esperando serem ativadas para se integrarem à realidade terrena. O principio ativo e co-procriador era Skan que, semelhante a um relâmpago cósmico, mergulhava no receptáculo sagrado e acordava as centelhas para a luz da existência. E nós, como toda a Criação, somos essas centelhas de luz!
Nas tradições nativas, diz a pesquisadora e escritora, a mulher era a representante de Wakan na Terra, responsável pela continuação da vida humana, sendo um ser sagrado respeitado por todos. Ela também tinha a missão de preservar e cuidar da paz e da harmonia dos relacionamentos entre os membros do clã, com as outras tribos e com os reinos da Criação. Eram as mulheres que criavam e cuidavam da complexa teia das atividades e relacionamentos humanos, evitando conflitos e divisões e ensinando como “caminhar suavemente sobre a terra”.
Mesmo com a chegada dos conquistadores europeus, que despertou a cobiça, a rivalidade e a violência entre as tribos, os Conselhos das Matriarcas dos clãs e das Avós se empenhavam em restabelecer a paz e relembrar a suprema lei da Criação: “viver em harmonia com todos os seres do círculo da vida”. As decisões finais competiam às avós, por desfrutarem de muito respeito e honra por sua sabedoria ancestral e experiência de vida.
Mirella conta que, desde tenra idade, os meninos eram ensinados pelas mães a respeitar e vivenciar as qualidades femininas. Eles viviam no meio das mulheres até os sete anos e aprendiam qualidades e artes femininas como gentileza, respeito, compaixão, cozinhar, costurar, plantar, colher, bem como manter as tradições e a harmonia, natural e humana. Quando passavam para o círculo dos homens aprendiam as atividades masculinas, mas jamais lhes era incutida a violência ou falta de respeito para com a Natureza, as mulheres, as crianças, os idosos ou os doentes. “Um homem de respeito e autoridade era aquele que cuidava bem da sua família e da sua tribo, preservava os reinos da Criação e honrava as tradições e os ritos sagrados”, observa.
A LIÇÃO
Segundo Mirella Faur, a mensagem que a Mulher Búfala Branca trouxe para o mundo contemporâneo é lembrar que todos os humanos, independentemente de cor, origem, gênero ou situação social, fazem parte da complexa teia da vida e “somente vivendo com respeito, harmonia e paz, poderemos atravessar os períodos cruciais que nos aguardam”.
Para ela, a lição da Mulher Búfala Branca é: “viver em paz com todas as nossas relações” e “tudo o que fizermos à grande teia da Criação faremos a nós mesmos, pois somos um só ser vivo”. A expressão ”todas as nossas relações” é usada para representar o círculo da vida ao qual todos nós pertencemos, simbolizado pelo cachimbo sagrado. O bojo feito de argila vermelha representa a Terra e no seu interior está gravado um búfalo, significando todos os seres de quatro patas, e também a abundância da Terra que sustenta toda a vida. O cabo ou tubo do cachimbo, feito de madeira, simboliza tudo o que cresce sobre a terra. As doze penas que o enfeitam são de águia e descrevem as criaturas que voam, enquanto as conchas representam o reino aquático. Ao acender e fumar o cachimbo reúnem-se os elementos (associados com as ervas, a chama, a fumaça, as cinzas) e também todos os reinos da Criação. A oração que acompanha o ato de fumar o cachimbo é direcionada em benefício de todos e do Todo, e é o objetivo principal desse rito sagrado.
Mirella assinala que a Mulher Búfala Branca continua se comunicando conosco através das visões e mensagens recebidas por muitas mulheres contemporâneas. Um comovente testemunho é o encontrado em uma linda canção, recebida em uma visão pela xamã, compositora e divulgadora dos antigos rituais sagrados, Brooke Medicine Eagle, sugerindo refletir e colocar em prática esses atuais e necessários conselhos:
Mulher Búfalo está chamando!/ Quem vai responder a ela?/ Ela está chamando luz, ela está chamando paz! Ela está chamando o espírito, ela está chamando você! Mulher Búfalo está chamando!/ Quem vai responder a ela?/Eu responderei a Ela!/Nós responderemos a Ela!/
            Como trazer os ensinamentos da Mulher Búfala Branca para a realidade atual, em que os diferentes círculos da existência parecem não se cruzar, e quando o fazem, são permeados de conflitos e contradições? A Mulher Búfala Branca nos ensina a lição da harmonia com todos os seres do círculo da vida e, não à toa nem por coincidência, que a Matriarca da Primeira Lunação, “A Que Fala Com Todos Os Seres”, é reverenciada nesta época, em janeiro, justamente para nos ensinar o diálogo com todas as manifestações de vida. Somos uma grande irmandade universal vivendo no colo da Mãe Terra e o princípio da unidade nos sugere honrar, amar e respeitar todos os seres em sua forma e em sua individualidade.
            Devemos caminhar com suavidade e delicadeza sobre a Terra, com a consciência de que todas as formas de agressão ao solo são capazes de feri-la. Quanto mais esse entendimento estiver translúcido em nossas mentes, mais os nossos corações sinalizarão o respeito que devemos ter com todos os seres da existência, a começar por aquela que é a nossa Mãe, a que nos deu a vida e todas as suas inquietantes possibilidades.
Assim como a reverência à Mãe Terra e por todas as formas de vida, pois tudo veio da divina Criação, a Mulher Búfala Branca nos relembra os sentimentos de amor e gratidão ao Grande Espírito pela chama sagrada da nossa existência e precisamos nos conectar com a nossa sagrada e luminosa centelha de luz interior, a que anima o nosso ser. A tradição do cachimbo sagrado é uma forma de reverenciar todos os seres, vivam eles na terra, no ar ou nas águas, e com eles os humanos precisam harmonizar-se para o seu bem, o bem de todos e o bem do Todo.
E a busca da harmonia vai além, deve estender-se aos próprios humanos, para que se relacionem em paz, com amor e respeito por sua sacralidade e pelo sagrado que o outro é, sem que ninguém se considere melhor do que outrem, já que estamos, todos, em um processo de evolução humana e espiritual. Que jamais nos falte humildade, portanto, pois todos os seres são sagrados. Os humanos, apesar de suas limitações e imperfeições, também o são. Que todos os humanos sejam despertados pela grandeza, inspiração, beleza e sabedoria do Grande Espírito, que nos mostra o caminho e nos ensina a caminhar, mas depende de nossa boa vontade seguir as suas orientações. Em caso de desconexão com a sacralidade de todos os seres, a Mulher Búfala Branca nos instrui a, primeiro, reconhecer-nos sagrados; depois, a ver o outro como sagrado também. A partir disso, toda a Natureza será reconhecida e reverenciada com amor e gratidão.
Outro dos ensinamentos preciosos da Mulher Búfala Branca diz respeito à forma como criamos os filhos para o convívio com as mulheres, amando-as e respeitando-as na totalidade do seu sagrado ser, para uma significativa e harmônica troca entre o feminino e o masculino complementares, não opostos e sem qualquer forma de subjugação física, mental, espiritual, emocional ou energética.

Extrai-se, ainda, do mito da Mulher Búfala Branca que o homem movido por paixões, atraído apenas pela beleza exterior da mulher, não é merecedor de alcançar a sua beleza divina. Esse privilégio é concedido apenas aos que não se deixam consumir pelo desejo físico em detrimento dos valores do Grande Espírito que habita na mulher, desconhecendo também as necessidades do próprio espírito. Mas esse é um longo caminho a percorrer no processo evolutivo masculino, enquanto as mulheres reafirmam e crescem nas qualidades e virtudes femininas. Que esta Grande Mãe nos agigante em paciência, amor e consideração uns pelos outros para que vivamos em paz, harmonia e equilíbrio. Que seja assim.

Sob a proteção de Ísis

Vera Pinheiro

            Ísis (em egípcio, Aset) é uma das principais divindades da mitologia egípcia que foi cultuada e adorada no Egito, no Império Romano, na Grécia, na Alemanha, e ainda venerada em inúmeros lugares em todo o mundo, como deusa da maternidade e da fertilidade, modelo de mãe e de esposa ideais, protetora da natureza e da magia. Além de ser considerada a representação maior da essência materna e da esposa perfeita, é atribuído a Ela também velar pelo reino natural, portanto, por todas as dimensões da existência e da magia. Deusa lunar, Ísis simboliza o princípio feminino personificado na natureza e no cosmos, outorga a vida e a saúde, e é protetora e condutora dos mortos.
            Os primeiros registros escritos acerca de sua adoração surgem pouco depois de 2500 a.C, durante a V dinastia egípcia, período em que são encontradas as primeiras inscrições literárias a seu respeito, embora o seu culto apenas tenha proeminência ao final da história do antigo Egito, quando se iniciaram também cultos firmemente estabelecidos de muitas outras deusas.
O culto à Ísis difundiu-se além das fronteiras do Egito e se alastrou por todas as partes do Império Romano. Na península Itálica, a fé nessa deusa egípcia era uma força dominante. Em Pompeia, evidências arqueológicas revelam que Ísis desempenhava um papel importante. Em Roma, templos e obeliscos foram erguidos em sua homenagem. Na Grécia Antiga, os tradicionais centros de culto em Delos, Delfos e Elêusis foram retomados por seguidores de Ísis, e isso ocorreu no norte da Grécia e também em Atenas. Inscrições mostram que Ísis possuía seguidores na Gália, na Espanha, na Alemanha, na Arábia Saudita, na Ásia Menor, em Portugal, na Irlanda e na Grã-Bretanha.
           A morte e o renascimento de Osíris eram revividos anualmente em rituais e o Egito preserva uma cerimônia denominada a Noite das Lágrimas, lembrando as lágrimas de Ísis durante a busca de seu amado Osíris. Ela ocorre em junho, portanto é conhecida como Festival Junino de Lelat-al-Nuktah. Nessa tradição, mantida pelo povo árabe, revive-se o enlace de Geb e Nut, ou seja, da Terra e do Firmamento, e o surgimento de sua descendência, que inclui Ísis e Osíris, além de seus irmãos, que assim totalizam nove deuses, a famosa Enéada, que teve seu princípio com a Divindade criadora originária.
             Juntos, Ísis e Osíris simbolizavam a realeza do Egito. Ela representava o trono no qual despontava o poder real do marido. O culto desta deusa foi de grande importância na Antiguidade, especialmente no Império Romano, no qual ela obteve muitos discípulos como Senhora da Lua e Mãe do Sol, rainha da Terra e das estrelas, deusa-mãe do amor e da magia, perdurando o seu culto até à supressão do paganismo na Era Cristã. Hoje a arqueologia comprova este fato, e é possível encontrar vestígios de templos e monumentos piramidais em todas as partes de Roma.
        A estrela Spica (“Alpha Virginis”) e a constelação, que modernamente corresponde aproximadamente à de Virgo, surge no firmamento acima do horizonte em uma época do ano associada à colheita de trigo e grãos e, desse modo, ficou associada a divindades da fertilidade, como Hathor. Ísis viria a ser associada a esses astros devido à posterior fusão de seus atributos com os de Hathor.
          Ísis também assimilou atributos de  Sopdet, deusa da mitologia egípcia descrita como uma mulher com uma estrela de cinco pontas sobre a cabeça, que foi a deificação de Sothis, a estrela considerada por quase todos os egiptólogos como a Sirius. O nome Sopdet significa “Ela quem é”, uma referência ao brilho de Sirius, que é a estrela mais brilhante no céu noturno. Logo após Sirius aparecer no céu de julho, o rio Nilo começa seu ano de inundação, e assim os antigos egípcios ligaram os dois fenômenos. Consequentemente, Sopdet foi identificada como uma deusa da fertilidade do solo, que foi trazida a ele por inundações do Nilo. Outras fontes indicam que o surgimento de Sirius no firmamento significava o advento de um novo ano e que os antigos egípcios acreditaram que as cheias anuais do rio Nilo ocorriam por causa das lágrimas de tristeza de Ísis pela morte de seu marido Osíris.
     O mito sobre Ísis, de grande importância nas crenças religiosas egípcias, retrata-a como uma linda mulher, de longos cabelos negros, pele morena, olhos brilhantes como duas contas de ônix, usando um vestido ricamente bordado com esmeraldas e rubis, adornada com uma tiara e várias pulseiras de ouro, e coroada com o hieróglifo (um sinal de escrita de antigas civilizações) que significava “trono”. 
      Embora Ísis fosse considerada como mãe universal, ela era venerada como protetora das mulheres em particular. Sendo aquela que dá a vida, que preside a vida e a morte, ela era protetora das mulheres durante o parto e confortava aquelas que perdiam seus entes queridos. Em Ísis as mulheres encontravam o apoio e a inspiração para prosseguirem suas vidas. Ísis proclamava ser, em hinos antigos, a deusa das mulheres e dotava suas seguidoras de poderes iguais aos do homem.
        O MITO - Ísis é a primeira filha de Geb (deus egípcio da terra) e Nut (deusa do firmamento), esposa de seu irmão Osíris e mãe de Hórus (deus dos céus deus do firmamento, inebriado de energia solar, cuja designação na língua egípcia era Horu-sa-Aset, que significa exatamente Hórus, Filho de Ísis), com os quais integra a principal tríade (ÍSIS, Osíris, Hórus) da religião do antigo Egito. O outro irmão, Seth, responsável pelos desertos, se transforma no principal inimigo do casal.
         Seth invejava profundamente Osíris, que tinha como missão governar a terra, mais especificamente o Egito, e assim tinha a oportunidade de transmitir aos homens conhecimentos preciosos sobre agricultura e trato com os animais. Segundo a mitologia egípcia, Osíris é traído por Seth, morto e esquartejado por esta divindade que é associada à essência do mal.
       Ísis, desesperada, procurou e conseguiu reunir todas as partes do corpo que tinham sido despedaçadas e espalhadas por todo o Egito por Seth e, por meio de suas habilidades mágicas e de seu poder da cura, recompõe o corpo do amado Osíris, com exceção do genital masculino, trocado por um órgão de ouro. Após isto, ela consegue procriar com o corpo de Osíris, gerando o filho solar Hórus, e manteve o corpo recomposto do marido para proteger Hórus enquanto criança, para que ele crescesse e então tivesse direito a reivindicar o trono usurpado por seu tio Seth, a quem ele mata.
     Após ter assimilado muitos dos papéis da deusa Hathor, a cobertura de cabeça de Ísis passa a ser a de Hathor: os cornos de uma vaca, com o disco solar inscrito entre eles. Às vezes, também representada como uma vaca, ou uma cabeça de vaca. Frequentemente, porém, era retratada com o seu filho pequeno, Hórus (o faraó), com uma coroa e um abutre. Também foi representada ou como um abutre pairando sobre o corpo de Osíris, ou com Osíris morto em seu colo enquanto o trazia de volta à vida por meio de artes mágicas.
            Literalmente, o seu nome significa "Ela do trono". A sua cobertura original para a cabeça foi um trono. Como personificação do trono, ela foi uma representação importante do poder do faraó, assim como o faraó foi representado como seu filho, que se sentou no trono que ela forneceu. Na maioria das vezes, Ísis é retratada segurando apenas o símbolo Ankh, cruz ansata, que na escrita hieroglífica egípcia era o símbolo da vida, conhecido também como símbolo da vida eterna. Os egípcios usavam-na para indicar a vida após a morte. Entretanto, no período final de sua história, as imagens mostram-na com itens geralmente associados apenas a Hathor: o sistro sagrado e o colar símbolo de fertilidade “menat”.
       O sistro é um instrumento de percussão que produz um som de chocalho. O instrumento já existia na Suméria do ano 2500 a.C. No Antigo Egito recebia o nome de sechechet e era utilizado por mulheres da nobreza e pelas sacerdotisas. Geralmente feito em bronze, também existiam exemplares em madeira e em faiança, uma espécie de cerâmica branca. Os sistros estavam particularmente associados ao culto da deusa Hathor, mas poderiam também ser empregados no de Ísis. Agitando-se o sistro pelo cabo produzia-se um som agudo e prolongad, muito apropriado para acompanhar ou ritmar o canto.
     Acreditava-se que o sistro tivesse virtudes de apaziguamento, aliviasse as mulheres no parto, afastasse os malefícios e abrandasse os modos das pessoas. Eram sempre tocados em momentos de alto significado religioso como, por exemplo, quando chegavam os que estavam de luto, quando o faraó e a rainha apareciam, quando as cantoras começavam a cantar. As sacerdotisas de Hátor e as de Bastet costumavam agitá-los como parte dos rituais que realizavam e, ao que parece, supunha-se que eles estimulavam a fecundidade. A própria forma do instrumento tinha conotações com a junção das energias masculina e feminina: sua parte superior continha as sementes ou címbalos, simbolizando o ventre da mulher e o cabo alongado simbolizava o falo do homem. Quando o culto de Ísis se difundiu na bacia do Mediterrâneo, o sistro tornou-se um instrumento popular entre os romanos.
     O menat é um misto de instrumento musical e colar. Eram largom e pesadom colares feitos com pérolas ou contas coloridas de cerâmica, pedra dura ou metal precioso, montadas em semicírculo formando um grande crescente. A borda externa podia ou não ser guarnecida por pingentes. Eram dotados de longos contrapesos, os quais equilibravam seu peso considerável quando eram colocados no dorso do portador. Ao serem agitados nas festividades produziam o ruído característico do choque das miçangas. Esse som transmitia vida e poder, tornava as jovens mulheres fecundas, mas também favorecia o renascimento espiritual do ser no além-túmulo.
     Esses instrumentos também eram empunhados e agitados principalmente pelas sacerdotisas, que podiam usar o colar no pescoço ou, levando-o nas mãos, apresentá-lo à pessoa a quem desejasse oferecer boas vibrações. Diversos estudiosos concordam que o menat simbolizava prazer e júbilo, tanto do ponto de vista da fertilidade, quanto da perspectiva da satisfação sexual. As suas fileiras de contas e o contrapeso de aparência fálica parecem combinar os princípios feminino e masculino em ação. Ele evocava a união de Ísis e Osíris na criação de Hórus e, ao ser oferecido aos mortos, o instrumento permitia a revitalização deles no outro mundo.
    Por fim, na mitologia egípcia, Hórus (ou Horu-sa-Aset, Heru-sa-Aset, Her'ur, Hrw, Hr ou Hor-Hekenu) é segunda pessoa da divina família egípcia, composta por Osíris, o pai; Hórus, o filho e Ísis, a mãe. Hórus tinha cabeça de falcão e os olhos representavam o Sol e a Lua. Matou Seth, tanto por vingança pela morte do pai, Osíris, como pela disputa do comando do Egito. Após derrotar Seth, tornou-se o rei dos vivos no Egito. Perdeu um olho lutando com Seth, e o Olho de Hórus, anteriormente chamado de Olho de Rá, que simbolizava o poder real, foi um dos amuletos mais usados no Egito em todas as épocas. Depois da recuperação, Hórus conseguiu organizar novos combates que o levaram à vitória decisiva sobre Seth.
       O olho que Hórus feriu (o olho esquerdo) é o olho da Lua, o outro é o olho do Sol. Esta é uma explicação dos egípcios para as fases da lua, que seria o olho ferido de Hórus. O Olho de Hórus, um dos amuletos mais importantes no Egito Antigo, tornou-se um importante símbolo de poder também conhecido como udyat e significa poder e proteção e era usado como representação de força, vigor, segurança e saúde.
      E como, afinal, podemos trazer a deusa Ísis para a nossa vida? As Melissas, em canção de Clarissa Vargas, sugere apelar: “Ísis, me proteja! Oh, Grande Ísis, me proteja nas suas asas, gavião. Ísis me preencha! Oh, Grande Ísis, me preencha com sua cura e visão! ÍSIS me preencha! Oh, Grande Ísis, me preencha de amor e gratidão! ÍSIS que abençoa, faz a cura e voa. Ísis eu sou tua!”. E assim tem de ser, com entrega, qualquer apelo à Grande Ísis. Não apenas pela hora da morte, para que nos conduza e proteja, mas para que nos traga a vida plena, com exuberante saúde em nossos corpos físico, mental, espiritual, emocional e energético, para que possamos revivescer de pequenas mortes cotidianas em forma de sofrimentos causados por decepções, desilusões, angústias e tristezas, quando então mais precisamos do amparo dessa deusa amorosa para nos conduzir em nossa jornada humana e espiritual. Ísis, nos proteja!!! Sigamos, pois, confiantes de que estamos, desde já e para sempre, sob a proteção de Ísis. Que seja assim. E assim é!