domingo, 13 de maio de 2012

Entre idas e vindas

Vera Pinheiro
     A minha relação atual com este meu blog está parecendo aqueles romances do tipo vai e vem, puxa e afrouxa, não ata nem desata, não faz nem desocupa a moita. Sem querer me justificar, devo dizer que a vida real está bem mais animada do que a virtual, que não deixa de ser interessante, mas já teve a minha atenção por demasiado tempo e com muito espaço do que os contatos de pertinho, face a face. A coisa se inverteu e hoje, quando me dou conta, o dia passou e tudo o que quero é não ir para o computador.
     Mas, enfim, entre tapas e beijos, idas e vindas, mais um recomeço. E num bom dia, dedicado às mães e com a vitória do meu time no campeonato gaúcho. Internacional, mais uma vez campeão. Dá-lhe, Colororado, que o Beira Rio não come radiche com polenta.

sábado, 17 de março de 2012

A arte de viver só (*)

Vera Pinheiro
            Viver só muita gente vive. Mas viver só e feliz nem todos conseguem. A arte de viver só e, apesar disso, ser feliz se aprende no cotidiano. Não há fórmulas, receitas nem manuais que ensinem como fazê-lo, e a experiência alheia serve apenas como uma referência. Do que o outro vive nem tudo se aproveita, mas ainda assim é válido observar o método de sobrevivência que deu certo para alguém e tirar o que combina com o nosso jeito de ser. Se há décadas me perguntassem se eu quereria viver só, não titubearia em negá-lo e botaria na vitrola a canção que diz “É impossível ser feliz sozinho”. Mas é um fato. Acontece. Não há dor na constatação. Não há mais dor, hoje é apenas uma constatação.

            A solidão não é exatamente uma escolha, mas conseqüência de nossas escolhas e resultado dos nossos vínculos amorosos ou da ausência deles, e independe dos mil amores que tivemos enquanto buscávamos compartilhar a vida com alguém. A solidão acontece meio devagar, não vem a passos largos, não se instala de repente. Um dia a gente olha em volta e reconhece: “Pois é, estou sozinha”, e ao chegar nesse estágio, já teremos derramado todas as lágrimas e perdido incontáveis noites de olhar grudado no teto em uma busca inútil por respostas, e talvez elas não existam mesmo.

            Antes de nos percebermos sozinhas, cultivamos todas as ilusões do amor eterno e até nos vislumbramos com chinelinhos batidos ao lado de outro par de chinelos gastos de caminhadas com a pessoa amada. Sonhamos bastante com o amor antes de sucumbir à realidade da solidão, mas quando a encaramos ela já não tem a aparência de um fantasma a assombrar nossa velhice. Tampouco a consideramos como inimiga da felicidade ou como algo que anule ou inviabilize as nossas expectativas.

            O passar do tempo e a intimidade que tomamos com a solidão trazem certo conforto. Estar, ser e viver só não ganha contornos de problema, nós nos concentramos nas soluções. Contabilizamos as vantagens e pensamos menos nas desvantagens disso. Aliás, sequer nos importam as desvantagens, procuramos ver o lado bom de ninguém junto e descobrimos uma capacidade extraordinária de fazer a felicidade de um ângulo ainda não experimentado.

            O que poderia ser motivo de amargura vira diversão. Um prato apenas, dois talheres, um copo. Nada de pia cheia e pilhas de roupa para lavar. Tudo em volta fica organizado... ou bem bagunçado, e ninguém tem a ver com isso! Nenhuma reclamação de cardápio ou de horário. Apuramos o nosso paladar e fazemos agrados e concessões sempre que nos achamos merecedoras de algum excesso. O tempo do outro deixou de ser nosso algoz, temos um ritmo próprio, e andamos conforme exigências nossas, não alheias. Tudo em casa nos pertence. Não há que pensar na hipótese de dividir CDs, filmes e livros, bens que não devem entrar em qualquer partilha, no caso de separação!

            Não nos preocupamos com o volume da música, com o estilo musical, com a emissora de rádio, com o controle remoto da televisão, com as horas em frente ao computador. Atendemos as ligações que quisermos, não há cobranças querendo saber onde estamos, fazendo o quê e para onde vamos. E podemos desligar o telefone, dormir com a cara lambuzada de cremes ou com uma camiseta velha, que ninguém se importa. Podemos acordar feias – terá algo melhor que isso? Cabelos desgrenhados, tudo bem, ninguém olha. E curtimos o silêncio com profunda e inexplicável gratidão! Podemos ficar bem quietinhas, mergulhadas em lembranças e reflexões por quanto desejarmos ou precisarmos, e não há quem nos tire dessa toca interior.

            Temos chance de fazer boas amizades e não nos incomodam os casais. Sentimo-nos perfeitamente à vontade como estamos. Não somos ciumentas de quem anda acompanhada e, cá para nós, às vezes sentimos um grande alívio por termos nos libertado da necessidade de ter alguém que anoiteça e amanheça colado em nós, respirando os nossos pensamentos. E o banheiro? Ah, nada mais recompensador do que a intimidade preservada! Porta aberta, cantoria desafinada e o espelho todo nosso!

            A parte chata de ser só é ouvir uma maravilhosa canção de amor e não ter uma única pessoa que se encaixe nela, ler um poema e não enquadrar os versos em alguém. É chorar sem um colo, rir sem um abraço e não ter a quem dizer “bom dia” e “dorme bem” que não seja pelo Facebook.
           
             Crônica publicada no jornal A Razão (Santa Maria/RS) na edição de 17/18 de março de 2012.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Quem não combina mais com a gente

Vera Pinheiro

Algumas pessoas do nosso convívio são como as meias 7/8, pretas e rendadas que encontrei no meu armário. Não tenho a menor ideia desde quando e por que estão lá e, pior, por que, com e para quem eu teria colocado minhas pernas nelas! Quem teria merecido o tamanho sacrifício de usar aquela peça desconfortável? Que raio de fetiche teria sido esse, hoje tão avesso a mim? Vou fazer com elas como faço com peças íntimas, que não dou a ninguém: cortar em pedacinhos! Como é que a gente vai dar calcinhas e sutiãs para outra pessoa, hã? Não pode.

Pensei em deixar uma sacola de doações na porta da igreja perto de casa, mas já pensou se o padre me pega com um pacote de meias 7/8, pretas e rendadas?! Como eu explico isso? Nenhuma paroquiana que se preze nestas redondezas chegaria a tanto. Quem sabe entrego num lar de vovozinhas? Acho que elas preferem um bom par de meias de lã. Eu escolheria isso.

Enquanto penso se rasgo ou faço picadinho do malfadado saco de meias de nylon – coisa fina, isso eu reconheço! –, percebo que algumas pessoas na vida da gente são assim também: não combinam mais. Podem continuar sendo – e certamente são – pessoas boas, bonitas, interessantes, mas não encaixam mais conosco. O relacionamento não funciona. A gente simplesmente não combina. Os caminhos não se encontram mais, falta assunto, não há a necessária semelhança de interesses que havia antes. E não é que a gente não goste, até gosta, mas é como botar nos pés aquele sapato maravilhoso e que é insuportável nos dias atuais. Era, mas deixou de ser. E ninguém tem culpa, isso faz parte da evolução humana, e cada um a seu tempo.

É como se a vida tivesse desviado a gente dessas pessoas que faziam parte de nós. Forma-se, então, um grupo de amigos e amores que não fazem mais sentido. Então sumimos todos. Nem saudade a gente sente. Há um vazio no lugar em que havia uma pessoa, e este espaço somente será preenchido quando a gente encontrar alguém que se identifique com o que somos hoje, com os nossos novos gostos, a nova aparência, os quereres do nosso espírito, sobretudo.

A gente tem certeza que não há mais sintonia quando a gente vai para um lado e a pessoa segue por outro. Um gosta de bar, outro de leitura. Um bebe cerveja, o outro prefere chá. Um vive a expansão interior e o outro está na fase do deslumbramento com o exterior. Um fala demais, o outro silencia. Não andariam de mãos dadas por cinco minutos.

A gente sabe quem combina quando há uma sensação que sussurra ao coração: eu seguiria contigo pelos teus caminhos pelo resto dos meus dias, e tu virias pelas estradas que percorro com a mesma alegria que sinto quando estamos juntos. Pode ser apenas um amigo. Pode ser um grande amor. Se combinar, faz sentido. Se não combinar é como aqueles pares de meias lindas, mas inúteis que geram a pergunta: o que vou fazer com isso?! Nada! Não há mais nada a fazer além do afastamento. Não precisa fazer picadinho da pessoa, claro.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Nada mais a ver com a gente

Vera Pinheiro

Ontem tirei boa parte do dia para mexer nos meus armários. Primeiro queria apenas dar uma organizada, mas depois me rendi à evidência de que tinha coisas em excesso e, muitas, que não têm nada mais a ver comigo. Isso é muito curioso. Não deixei de gostar de várias roupas e de muitos pares de sapatos, apenas as peças se tornaram inadequadas para mim do jeito como sou hoje, ou como me tornei, o estilo de vida que adotei, a minha maneira de ser. Simplesmente não combinam mais comigo.

Fiz então uma experiência quase infantil: experimentei as roupas e os sapatos e passeei em frente ao espelho, me observando. Tive sensações bem estranhas. Olhava para aquela pessoa e não me reconhecia nela. Eu me perguntava, então, quem fui e em que momento deixei de ser, o que aquelas peças significavam como expressão do meu ser e quando foi exatamente que houve a ruptura ontem constatada.

Isso levou algum tempo, o suficiente para eu organizar tudo em sacolas para doação. Apenas não sei quem vai querer receber. As roupas são – ou eram – tão a minha cara que outra pessoa, mesmo necessitada, não sei se terá coragem de usar. Os sapatos eu guardei até descobrir alguém que não passe mal com altura e que tenha equilíbrio suficiente para não desabar de um salto absurdamente alto. E olha que não sou baixinha para buscar nisso uma compensação. Era um incompreensível gosto mesmo de olhar o mundo de cima. Que bobagem...

A vida é tão mais pacata e feliz em cima de um calçado cujo sinônimo seja conforto! Além disso, nada vale os sacrifícios que a gente se impõe querendo ficar bonita. Ando numa fase creme no rosto lavado e cabelos escuros. Aí, só para contrariar – vai entender! - alguém me perguntou o que eu ando fazendo para estar com a aparência de quem fez alguma reforma no rosto. Até faria, juro, mas não é o caso. Aliás, eu me internaria para duas coisas que justificam ir para o hospital: fazer plástica e ganhar filho.

Expliquei, então, para a curiosa que não tenho patrão nem marido. Isso faz um bem enorme à pele!

terça-feira, 13 de março de 2012

Em busca de explicação

Vera Pinheiro

Como é que a gente deixa de fazer uma coisa que era prazerosa? Não, não é o que vocês estão pensando... Se bem que... Bem, deixemos isso para lá...rsrsrs.

Estou em busca de explicação para o fato de eu não escrever com a regularidade de antes, todos os dias. Não é preguiça, tampouco falta de inspiração ou de vontade. Simplesmente o dia passa e não abri a tela do computador.

Não fosse a crônica semanal e um ou outro pitaco no Facebook, não digitaria uma só palavra. Tem a ver com o meu silêncio interior, claro, mas não posso deixar de fazer algo que ainda me agrada muito, e não posso me queixar de falta de tempo porque sou dona dos meus horários.

Pensando nisso hoje cedo – sim, eu continuo levantando cedo apesar de não trabalhar mais fora, só do portão para dentro –, observei que me deixo seduzir pelos apelos domésticos, pelo que há por fazer no quintal, além dos cuidados da minha família animal. Essa parte sempre ficou em segundo plano. Primeiro, o emprego; todo o resto, depois.

Mas como, então, eu conseguia escrever? Porque era a primeira coisa que eu fazia, logo ao acordar. Sendo assim, vou deixar tudo de lado – nem a cama vou arrumar! – e voltar minha atenção para o computador na primeira hora do meu dia.

Estou com saudade de mim e da alegria que sinto quando escrevo. Posso me reencontrar, ainda bem. Já encontrar algumas pessoas, de quem sinto saudade, não depende apenas de mim. Ou nem depende de mim, mas delas. E elas não sentem falta de mim, senão parariam um instante – assim como estou fazendo para repensar os meus escritos – e buscariam uma explicação e uma solução para a ausência. A gente só quer de volta o quê e quem faz falta. No mais a vida segue entre lembranças e esquecimentos.