segunda-feira, 5 de março de 2012

Véspera de aniversário

Vera Pinheiro
Sempre me emociono quando recordo o nascimento das pessoas mais importantes da minha vida, os meus amados filhos Camila e Guilherme. Na véspera de 6 de março de 2012, enquanto espero o nascer dos 28 anos da minha filha, recordo com emoção a caminhada que fizemos juntas até aqui. Os melhores momentos, os desafios, as vitórias, as superações e, sobretudo, o imenso amor que nos une. Tudo passa como um filme das minhas lembranças. Então, ajoelho, abaixo a cabeça e ponho as duas mãos no peito, em profunda gratidão! Graças, graças, graças!

domingo, 4 de março de 2012

Estou cansada

Vera Pinheiro
            Sim, estou cansada! Muito cansada! Cansei de ler e reler manuais de etiqueta e bom comportamento que me tiraram a espontaneidade e a liberdade de cometer gafes sem me sentir culpada por isso. Cansei de me sentir obrigada a pedir desculpas pelo meu jeito de ser, que nem sempre combina com a expectativa das pessoas, e cansei de me sentir errada toda vez que exercito o direito de ser eu mesma, não importa como imaginam que eu seja.
            Estou cansada de me vestir de acordo com a ocasião e, sobretudo, conforme o que me cobram os olhares das pessoas que convivem comigo, mas não estão na minha pele para saber como me sinto quando a minha aparência contraria a minha vontade. Cansei de me sentir cobaia dos anseios dos outros, que exigem de mim o que nem eles conseguem ser ou fazer.
            Estou cansada de pedir licença para ser a pessoa que sou sem causar surpresas ou rechaços. Cansei de tentar conciliar o que me interessa com os interesses de pessoas que não têm coisa alguma a ver comigo a não ser o frágil vínculo de um trabalho temporário, que vai se esgotar quando eu não mais servir a elas.
            Estou cansada de opiniões contrárias às minhas decisões, sem que eu tenha pedido; de intromissões voluntárias, sem nenhum convite, de quem acha que pode invadir a minha privacidade sem qualquer reprimenda. Cansei de prestar conta da minha identidade para tentar, inutilmente, provar quem sou e a razão disso.
            Estou cansada de me exigirem as forças que me escapam, a coragem suficiente para as demandas que me colocam como desafios, a firmeza que se acaba ao sopro das circunstâncias mais difíceis do que eu poderia prever. Cansei de mostrar valentia que não tenho, de ser montanha quando estou planície, de ser torre quando sou janela escancarada, frágil ao ataque.
            Estou cansada de aparentar ser outra pessoa para não perder quem somente estima o brilho da minha luz, mas não compreende a importância das sombras que tenho. Cansei de me justificar perante os demais quando as intempéries emocionais arrasam o meu equilíbrio e devastam o que esperam de mim, transformando esperança em decepção. Cansei de decepcionar por terem, os outros, esperado muito além do que posso dar e ser.
            Estou cansada de scripts bem elaborados, dos discursos pré-elaborados, das sentenças previsíveis e de agendas sem espaço para o inusitado das surpresas. Cansei de cumprir fielmente os roteiros que fizeram para mim sem a minha concordância, das regras que me ditaram sem a minha anuência, das imposições feitas sobre a minha cabeça e que me aprisionaram sem direito à defesa. Cansei de sucumbir aos ditames alheios, que não me consultaram, impingindo atitudes que me agridem e violentam.
            Estou cansada de dar satisfação aos outros sobre escolhas que somente a mim dizem respeito, das vozes que se sobrepõem à minha na hora de eleger um caminho a percorrer ou uma pessoa a amar. Cansei de esperar que concordem comigo ou que, ao menos, não discordem de mim, e daquela sensação de desaninho quando todos discordam e me fazem sentir um erro sem conserto.
            Estou cansada de pessoas que tentam viver a minha vida, esquecendo-se das vidas que são delas, e das que me cobram uma racionalidade que se conflita com o meu emocional, pedindo que eu não tenha emoções, sensações, tampouco lágrimas para chorar as perdas, os sustos e o que não compreendo. Cansei de não ser compreendida quando peço um colo e me dão uma vala para enterrar meus sonhos, nas vezes em que preciso de amparo e me chamam para guerrear sem trégua.
            Estou cansada de esculpir a imagem de guerreira, sendo anjo. De me pedirem para agir como anjo enquanto empunham a espada no meu peito. De ter o peito aberto quando devastado de saudade e dor. De não sofrer pela dor e ofertar sorriso. De não sorrir, mesmo achando graça. De ser graciosa, quando estou fera. De ser quente quando o meu olhar esfria. De ser fria quando o meu sangue esquenta. De ser gente num mundo de manipulados e fingidores. Estou cansada de fingir a paz no meio da disputa e de aparentar ser tão boazinha como convém aos outros. Cansei de não me amarem como sou, mas pelo que sonham que eu seja. E estou cansada de ter de me cansar todos os dias com tudo isso para não abdicar do convívio, da presença humana, ou teria de viver apenas entre os bichos, que são os que verdadeiramente praticam a aceitação.
           
    Crônica publicada na edição de 3/4 de fevereiro de 2012 no jornal A Razão, de Santa Maria, RS.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Depois de um ano, ele vai me deixar...

Vera Pinheiro
            Um ano convivi com ele em minha casa, dois ou três dias por semana, dependendo da minha necessidade. Vinha cedo, saia tarde e fazia tudo com muito esmero, no capricho mesmo e, melhor, do jeito como eu gosto. Aliás, o meu gosto geralmente combinava com o dele, profissional experimentado no ofício, apesar de muito jovem ainda.

            Pegava forte nas ferramentas, cuidava delas e as deixava bem guardadas até que voltasse. Nunca precisei reclamar nada! Começava e terminava tudo o que eu pedia no mesmo dia, não deixava coisa alguma para depois, e fazia tudo bonito e bem feito.

            Pois, depois de um ano, ele vai me deixar! Ficarei sem o meu jardineiro, segundo anúncio que ele me fez hoje. Isso para mim é uma grande chateação, porque encontrar outro igual pelas redondezas não é fácil.

            Porém, não posso ser egoísta. Ele é tão bom no que faz que recebeu uma excelente proposta de uma empresa de jardinagem e me contou seus planos de se encaminhar pelo ramo do paisagismo. Dou força e boto fé! Adoro gente que tem projeto de vida, que sabe o que quer e aonde quer chegar. Trabalhar na minha casa não é futuro para ele, portanto, que vá em frente e seja próspero e feliz.

            Perdi o jardineiro, gente boa pra caramba, mas estou feliz por ele. O que me pergunto é: onde vou arrumar outro bom assim? Gente honesta e boa de serviço na roça não dá em qualquer touceira, a gente sabe disso. Conto agora com a minha boa sorte, que nunca me faltou, para encontrar outra pessoa. Ou vou ter de pegar firme no arado, no ancinho, na enxada, na pá, na máquina de cortar grama... Ai, minhas unhas!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Reconstrução da rotina

Vera Pinheiro
         Sinceramente? Não sei como consegui, ao longo da vida, tomar conta de casa, atender os filhos e trabalhar fora, tudo ao mesmo tempo. Certa vez, cheguei ao abuso de ter cinco empregos, mais dois filhos e um marido. Só um! Não me perguntem como eu conseguia dar conta de tudo, porque já me perguntei isso um monte de vezes e não encontrei a resposta. Devia ser alguma mágica, pois é algo humanamente inconciliável. Ou conciliável com altos prejuízos humanos, familiares, amorosos, sociais.

            Quando, hoje em dia, olho a minha cara no espelho até que o estrago não foi tããão grande...rrsrsrs... Mas eu poderia estar bem melhor! Foi trabalho demais para uma pessoa. Não faria isso de novo. Aliás, muito do que eu fiz, não faria de novo. Mas arrependimento é o tipo de coisa inútil. A gente não deve fazer o que mais tarde pode gerar arrependimento. Porém, é fato que a gente vai “no embalo”, não avalia o nível de exigência que impõe a si mesma e não pensa no preço que vai pagar por isso.

            Um pouco é por necessidade, sim, mas um bom tanto é por exagero. Eu poderia ter pensado se valia a pena me impor os sacrifícios que me impus. Sim, ninguém colocou faca nos peitos me obrigando a trabalhar feito uma condenada. Eu me envolvi demais com o prazer do trabalho e – que absurdo! – cheguei a achar bonito ser uma típica e autêntica workaholic! Eu, que nunca experimentei drogas, exceto alguns homens que conheci, fui viciada em trabalho! E é bem verdade que, em determinada época, essa dedicação extremada ao trabalho era muito valorizada. E a gente pensava que ganharia um cavalinho de ouro, que seria recompensada e reconhecida, que nos aplaudiriam para todo o sempre. Que nada!

            E agora? Onde estão os que se locupletavam com esse estilo de vida que trucidou a gente e gerou enorme abandono? Os únicos beneficiados com isso foram os que pagaram pelo nosso serviço. Pagaram apenas pelo serviço executado, não pela vida que a gente perdeu, pelos amigos que cansaram de nos procurar, pelos amores que desistiram de nós, pela solidão que descobrimos ou, enfim, reconhecemos quando nos libertamos daquilo que era, praticamente, a essência de nossa vida, o trabalho. Uns se libertaram pelo desemprego; outros, por doença; alguns pela opção da aposentadoria.

            Eu sei o preço que paguei pela vida que escolhi. Se tiveres chance, tempo e vida, refaz a rotina para que ela não te engula. Reconstrói a rotina, antes que ela acabe com a tua vida!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Lamentos e oportunidades (*)

Vera Pinheiro
            Tem gente que se queixa demais da vida! Aliás, tem gente que só se queixa da vida, da falta de sorte, das desventuras, mas não faz coisa alguma para melhorar. São pessoas que insistem em ver as dificuldades e não enxergam as oportunidades. Reclamam de tudo e alimentam um espírito de coitadinhas, querendo granjear a comiseração alheia. Algumas são tão eficientes nisso que chegam a despertar, nos outros, culpa pela situação delas. Trabalham tão habilmente os seus queixumes que, se não ficarmos atentos e vigilantes à manipulação dos sentimentos, acabamos por assumir uma responsabilidade que não temos pelo que elas vivem.
            Cada um tem a sua vida e ninguém pode fazer o que a cada um é devido. Nem mesmo no ambiente familiar podemos trocar os lugares para que uns e outros sejam poupados de experiências que decorrem de escolhas individuais. E cada qual escolhe o que deseja para si, isso é fato. Porém, os que preferem cultivar descontentamentos em vez de agir, enfiam a cabeça nos joelhos e se lamentam, enquanto aguardam ajuda externa, sem buscar recursos em si mesmos para solucionar suas questões.
Todas as pessoas têm em si um manancial de capacidades, mas muitas não usam. Isso, afinal, pode ser muito trabalhoso. O que faz alguém vencedor é o uso de seu potencial criativo e realizador, sem meramente aguardar que o destino o favoreça sem que ele nada faça. Temos de contribuir com a nossa parte para que tudo dê certo, seja um sonho, um trabalho ou um relacionamento. Esperar que o outro se esforce para que nos beneficiemos dos resultados é uma verdadeira preguiça em relação ao compromisso que temos com a nossa realidade.
            Além disso, quem estiver disposto a auxiliar o próximo deve saber cuidar, primeiro e muito bem, de si mesmo.  Não é à toa que as instruções de voo indicam que um adulto deve colocar a máscara antes de ajudar uma criança e pela mesma razão as mães devem alimentar-se antes dos filhos para que possam sustentá-los. Curiosamente, às vezes ouvimos dizer: “Fulano só é ruim para si mesmo”. Isso não pode ser crível, porque as pessoas que não se amam não sabem amar os outros, os que se odeiam não cultivam pelos demais um sentir oposto, e quem se maltrata não consegue tratar bem os outros.  E não somos pessoas boas ou más seletivamente. Somos, apenas isso. O tempo e a convivência o comprovam.
            Os incansavelmente queixosos põem a culpa na vida! Pobre vida injustiçada pelos pessimistas, de fé rala, frouxos de confiança, lassos, acomodados e dependentes, que esperam tudo venha pelas mãos dos outros, sem qualquer empenho pessoal. Os que são dados a lamúrias e reclamações são justamente aqueles que não pegam o cavalo encilhado que passa na soleira da porta. São os que dobram a primeira esquina quando a vida coloca algo maravilhoso em seu caminho. São os que morrem se queixando de sede mesmo ao se depararem com uma fonte de água cristalina. São os que recusam o banquete divino que lhes é servido a cada dia e não se abastecem de nutrição e ânimo. São os que naufragam em oração, mas não aceitam o socorro que lhes é enviado. São os que têm faca e queijo na mão e não se alimentam. São os que perdem o bonde que passa na frente deles. São os que muito pedem, mas pouco fazem. São os que vivem à espera de milagres, mas não os percebem.
            As oportunidades estão diante dos olhos, mas as aproveita quem está disposto a não perdê-las! Quem se mexe e não espera que a chance se repita para ter certeza de que vale a pena. Quem examina atentamente o que a ocasião oferece para não desperdiçá-la. Quem sabe dizer “sim” e “não” com convicção, reconhece os presentes que a vida dá e não os joga fora.
            Faz toda a diferença ter plena consciência de si mesmo, do que é e do quanto pode, saber de suas potencialidades para avançar no processo de crescimento a que nos destinamos, observando que lamúrias não ajudam nisso e que o fortalecimento pessoal está, em alguns momentos, nos desafios e obstáculos que enfrentamos com determinação, firmeza e coragem.
          (*) Crônica publicada no Jornal A Razão, de Santa Maria, RS, na edição de 25/26 de fevereiro de 2012.