segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Um pouco sobre o amor

Vera Pinheiro

            Quem de nós jamais entregou às deusas o amor que transpassa o peito sem solução, feito de desejos e esperanças, sem compensação nem respostas, que frauda as nossas expectativas e nos retém em uma demora sem prazo para terminar? Que jogue o lencinho encharcado de lágrimas e borrado de delineador quem não pediu socorro durante os suplícios amorosos! Seriam os deuses e deusas insensíveis aos nossos tão flamejantes desejos? Não! Nós é que não sabemos pedir direito! Nós invertemos a ordem do amor e queremos recompensa à altura, com o mesmo peso e idêntica medida. Nós nos submetemos aos tormentos do amor não correspondido e esperamos que a história chegue a bom termo, com um final feliz ao melhor estilo novelesco. Não é assim como queremos. Amar alguém e esperar que essa pessoa corresponda ao que esperamos do amor é jogar em braços alheios a força que carregamos em nosso próprio ser amoroso e belo. É permitir que outra pessoa escreva a nossa história e dê um destino aos nossos sentimentos. Entretanto, podemos escolher amar o amor em vez de amar alguém que julgamos ser especial – e alguém realmente o será?
            A sustentar nossos anseios de um amor duradouro e feliz, as deusas nórdicas do amor nos abraçam e estão a vibrar em nosso ser quando estamos em agonia por um amor que não deu certo ou que não foi exatamente aquilo que dele esperávamos.  
            Que haja amor e que o amor se faça em cada um, em todos nós, para que a vida seja mais feliz. Não que o amor garanta a almejada felicidade, mas por ser o amor o que dá sentido às relações humanas, e nelas o viver se exerce.
            Que o amor seja tanto que pulverize as dores, alivie as mágoas e aniquile qualquer resistência ao perdão. Que brote espontâneo como um jardim feito ao acaso pela Natureza, que siga o curso dos rios e ganhe as marés, percorra todos os ciclos, anime as quatro estações. Que o amor escorra sem pressa pelas horas, demorando-se no instante que cabe em um minuto, e embeleze cada um dos dias de todas as semanas, dos meses de cada ano, e faça o futuro se tornar um passado de alegres recordações, enquanto o agora se desenlaça feliz como um presente.
            Que o amor não se limite a uma pessoa, com quem se quer correspondência e partilha, mas se expanda a todos os que estão em volta sem desejar nada em troca, e abranja os ausentes, os que estão longe, os que se foram e aqueles que estão por vir, enlaçando vidas no pulsar de um mesmo coração. Que não se circunscreva aos conhecidos, mas se alastre em benefício de toda a humanidade, irmanada pelos vínculos sutis dos sentimentos.
            Que o amor, por ser tamanho, não possa ter definição, parâmetros, explicação. Por amor, simplesmente. Com amor, isso é tudo. E que amar seja muito mais que um verbo que se conjuga pela vontade, ou um querer ardente, mas que seja um estado do espírito em tal harmonia consigo que alcance os outros e com eles se una.
            Que o amor seja o princípio de todas as atitudes e intenções para lhes conferir um toque do Divino Ser que em cada um habita. Que seja a meta e o desejo. O plano e a estratégia. A teoria e a prática. Que o amor não seja somente um sonho, mas a realidade possível.
            Que o amor não tenha sombras nem sobras. Que acalme a tristeza e a adormeça, e não se faça por migalhas, pedaços, trechos, mas tenha uma inteireza que preencha a alma de satisfação, enlevo, prazer e graça. Que o amor não precise de justificativas para ser como é e não tema ser mal recebido ou negado. Que se manifeste com a delicadeza de que é feito e com o entusiasmo de que se reveste, entre esperanças, incertezas e confiança.
            Que o amor dissipe as dúvidas de que todos merecem ser amados, e que por amar bastante a pessoa se inunde de amor em si e disso não precise contrapartida, pois amar assim basta para refletir o amor em cada partícula do seu ser até que a totalidade aconteça em êxtase.
            Que o amor ande de mãos dadas com a generosidade e com a compaixão para acolher quem pouco o conhece e os que nunca o receberam. Seja, o amor, o colo em que se deitam os abandonados, os esquecidos, os rejeitados, e para aqueles que tudo perderam seja, o amor, o conforto e a energia do recomeço feito de coragem, determinação, persistência.
            Que o amor não se enquadre em conceitos, mas seja uma vivência em que amar sempre, e cada vez mais, seja um exercício prazeroso e sem nenhum sacrifício. Que seja o amor capaz de extrair de nós a porção melhor, exibir a nossa face mais bonita, mostrar a nossa alma nua, livre e bela. E que possa atravessar o tempo para ser inesquecível sem se consagrar à saudade, sem carregar pesares.
            Que o amor tenha liberdade de chegar e de partir, de vir e ficar, de estar pelo tempo que faça a gente entender que não se pode aprisioná-lo refém de nossas ansiedades e carências. Que seja, mais do que uma busca, o encontro da unidade, que cinge todos os seres, e a precisa sensação de pertencimento, de exato ajuste ao que o coração procura.
            Que o amor seja a espera e a chegada, o plantio e a colheita, o dar e o receber, o sonho e a realização, o que persiste além dos obstáculos, a entrega, a doação, o ilimitado que se ajusta às possibilidades. Que seja, o amor, a coragem que resiste às dificuldades e a humildade da aceitação. Que seja tão grandioso que o faça modesto, tão nobre que a todos alcance, tão sublime que se molde eterno, tão justo que a ninguém esqueça, tão nosso que o sinta meu, tão meu que seja sempre nosso. Que nos invada com doçura e nos anime a cada amanhecer. Que nos faça apreciar a vida com jeito de criança, que tudo gosta de descobrir. Que nos acolha como o fazem as mães, sem condicionamentos. Que nos faça donzelas e príncipes ansiosos uns pelos outros só para nos fazermos felizes. E que nos ampare com a paciência amorosa dos anciãos, que nos abraçam antes de arguir sobre as nossas angústias.


Concórdia, deusa da paz e da harmonia
Vera Pinheiro

            Concórdia, a deusa romana da paz e da harmonia é representada como uma mulher madura, segurando em uma mão uma cornucópia e na outra um galho de oliveira. Cornucópia é um símbolo rebuscado e antigo, representativo de abundância, fertilidade e riqueza. Na mitologia greco-romana aparecia como um vaso em forma de chifre, que remete ao sagrado masculino, ornamentado com flores e frutos em seu interior, simbolizando a generosidade da terra fértil e o sagrado feminino. Dos frutos da oliveira, as azeitonas, os homens aprenderam a extrair o azeite, empregado como unguento, combustível e na alimentação, e a árvore, por sua utilidade e longevidade, tornou-se venerada por diversos povos. Esses dois símbolos que a deusa Concórdia traz em suas mãos, têm relevância para todos os relacionamentos, e a maturidade, que é menos idade biológica e mais sabedoria, os enlaça e os faz duradouros, quando não eternos.
            A deusa Concórdia simboliza o princípio do relacionamento harmônico e é a própria concepção do entendimento e da reconciliação entre as pessoas. De acordo com Mirella Faur, em seu livro “O Anuário da Grande Mãe”, a 16 de janeiro era celebrado em Roma o Festival de Concórdia e no dia 29 de janeiro, em honra a essa deusa, as casas eram purificadas e os relacionamentos familiares harmonizados. Em 22 de fevereiro, no Festival dedicado à Concórdia, conhecida também como Caristia, as famílias festejavam a resolução de conflitos com banquetes, música e troca de presentes, e no dia 1º de abril, em celebrações greco-romanas com a participação apenas de mulheres, se invocavam as bênçãos das deusas Fortuna, Virilis e Concórdia para ter sorte no amor, melhorar a relação com os homens e garantir a harmonia nas famílias.
            O primeiro plenilúnio de 2014 exatamente no dia de Concórdia não poderia ser mais apropriado para que, ao reverenciarmos essa deusa, façamos uma avaliação de nossos relacionamentos familiares, profissionais, amorosos, os que se circunscrevem ao âmbito das amizades, na vizinhança, nos diferentes grupos de convivência social ou sagrada de que participamos, e do curso de nossa integração à grande irmandade universal.
            Quando se trata de avaliar o estado das relações humanas tendemos a apontar o dedo na direção das outras pessoas, responsabilizando-as pelos desencontros e desacertos e, em defesa própria, nos isentamos de qualquer contribuição para os desentendimentos que ocorrem. Entretanto, relacionamentos se constroem em uma via em que trafegam duas vontades, nem sempre na mesma direção, mas ainda assim, havendo disposição ao diálogo, o consenso atende os interesses de ambos para continuarem juntos na caminhada, convergindo as diferenças para a verdadeira unidade.
            O equilíbrio de uma relação se dá pela conjugação de esforços de acertar, não de ter razão. O entendimento acontece se não há exaltação de egos, um querendo sobrepujar o outro. Para se alcançar a harmonia há que se prescindir da vaidade, que exalta acontecimentos sem significância, amplia pequenas divergências e valoriza sobremaneira aborrecimentos que poderiam ser contornados e relevados. A ânsia de vencer precisa dar lugar à conciliação, e isso é permitir que a deusa Concórdia traga seus atributos para os nossos relacionamentos, convertendo-os no que a presença divina enseja: paz e harmonia, indispensáveis à felicidade.      
            Não adianta invocar os predicados da deusa Concórdia para harmonizar os nossos relacionamentos sem que a nossa humanidade se recolha para dar lugar às características da espiritualidade que habita em nós e, assim, poderem fluir a comprensão e o bom entendimento. É de pouco proveito, igualmente, que tentemos modificar alguém que não a nós mesmos. Sejamos os primeiros a mudar, antes de desejarmos que as outras pessoas deixem de ser como são. Sejamos quem primeiro estende a mão em busca do restabelecimento da ordem e do comum acordo para o bem de todos e para o bem do Todo. Não esperemos que um se renda para que o outro se considere vencedor do embate. Não há luta onde há cordialidade, acolhimento, gentileza. Não há vencedores nem vencidos quando o que queremos é o bem comum, que atenda os interesses e as necessidades de todos. Não há logro de vantagens se o objetivo é meramente derrotar alguém em suas opiniões, desejos, anseios, modo de ser.
            Sejamos o humilde que propõe a paz e se submete, antes de todos, ao abraço de união, ao perdão e ao amor que não guarda rancores nem ressentimentos. Não tenhamos pudor em amar e perdoar sempre que alguém esbarrar em suas dores, em seus medos e em tormentos interiores que o fazem desviar-se da temperança, da generosidade, da ternura. As pessoas a quem mais profundamente amamos servem de instrumento para avaliar e medir a nossa capacidade de amar, e nos trazem a noção da importância de desculpar, entender, deixar passar sem novas explicações e renovadas promessas. Perdoar simplesmente porque é bom, faz bem e ajuda-nos a crescer mais que o orgulho e avançar sobre a arrogância.
            Que Concórdia lance o bálsamo de Sua sagrada presença para aliviar as tensões provocadas pela falta de compreensão, pela impertinência, pelo julgamento, pelo desamor, pelo desrespeito. Não permita, Ela, que sejamos tragados pelas mágoas, ofensas e indelicadezas com que somos abatidos, a fim de evitar que nos transformemos em quem não queremos ser. Que todos os gestos sejam pacificados pelo amor universal e todas as palavras nutridas de afeição, bondade, moderação, serenidade e brandura.
            Invoquemos a deusa Concórdia para o nosso cotidiano, onde estivermos, com quem estivermos e no que fizermos, para que Ela nos favoreça com suas virtudes e enalteça as nossas qualidades para conquistar e manter relacionamentos que nos façam individual e coletivamente felizes, mostrando-nos o caminho para ascendermos sobre as falhas que impediram que algumas relações, no passado, não resultassem em progresso e sucesso. E que, doravante, ao longo de nossos dias, estejamos conscientes de que a paz, o amor e a harmonia, base dos convívios saudáveis, não dependem apenas dos outros. Tudo começa e está em nós e na forma como nos vemos, no que podemos dar, no que sabemos receber e no quanto queremos trocar.


Deusa Ops traz abundância
Vera Pinheiro

            Ops era uma deusa romana da Terra, da fertilidade e da prosperidade, protetora da agricultura e dos recém-nascidos e esposa de Saturno, o Deus invocado no plantio das sementes. Como Ops Consiva,  “A Senhora que Planta”, era reverenciada nos plantios e nas colheitas. Em seu aspecto de Opífera, era padroeira dos partos e protetora dos recém-nascidos. Considerada um dos aspectos da Magna Mater, era também conhecida como a deusa Patella “a que abria o invólucro das sementes para que o broto pudesse sair” e a deusa Runcina, “a que facilitava o corte das hastes na colheita”. Deusa pré-helênica muito antiga, foi equiparada posteriormente à Rhea, a deusa grega da Terra, honrada com oferenda de flores, vegetais, cereais e frutas.
            Em 17 de dezembro iniciava a Saturnália, 12  dias de festejos dedicados aos deuses romanos da agricultura Saturno e Ops. Esse festival era marcado por extrema liberalidade e licenciosidade, com orgias, fantasias com máscaras, peças burlescas e troca de presentes entre amigos. Por ser um tempo de transição entre a morte do velho ano e o nascimento do novo, havia um período de caos e abolição de regras e leis. Donos e escravos trocavam de lugares, os prisioneiros eram libertados e os julgamentos eram suspensos. As crianças recebiam presentes e tinham várias regalias. A 19 de dezembro, a festa de Opália, em Roma, celebra o aspecto de fertilidade da Deusa Ops, descreve Mirella Faur no livro “O Anuário da Grande Mãe” (editora Gaia).
            E antes que alguém se lembre de associar a deusa Ops com a interjeição “Oops”, que em inglês equivale a “opa”, a palavra latina ops significa “riquezas, bens, abundância, presentes, generosidade, fartura. A palavra está relacionada também com opus, que significa “trabalho, particularmente no sentido detrabalhar a terra, arar e semeá-la. Esta atividade foi considerada sagrada, e muitas vezes era realizada a partir de rituais religiosos destinados a obter a boa vontade das divindades ctônicas  como Ops. A palavra ops também está relacionada com a palavra sânscrita ápnas, que significa “bens, propriedade”.
            Ops era uma deusa ctônica, ou telúrica, o que em mitologia, e particularmente na grega, significa “relativo à terra”, “terreno” e designa ou refere-se aos deuses ou espíritos do mundo subterrâneo, por oposição às divindades olímpicas. Ops fazia crescer a vegetação. Como o seu domicílio estava dentro da terra, a deusa era invocada pelos seus seguidores sentados, com as mãos tocando o solo, honrando, assim, a terra, doadora de todas as riquezas.
            Ops, a deusa mãe, também era considerada a Grande Mãe dos Deuses e a Grande Deusa. Segundo a tradição romana, o culto a Ops foi instituído por Tito Tácio, um dos reis sabinos de Roma. Os Sabinos habitavam as colinas próximas a Roma, no Lácio, a oeste dos Apeninos. Atualmente a área chamada Sabina constitui uma sub-região do Lácio, a leste de Roma. Ops logo tornou-se a padroeira da riqueza, abundância e prosperidade e teve um famoso templo no capitólio. Ela também adquiriu status de rainha e tinha a reputação de ser uma deusa eminente. Por decreto, todos os templos públicos, sacerdotes e sacrifícios deveriam ser concedidos a ela.
            Essa deusa romana das colheitas, prosperidade e fertilidade não é estritamente ligada à agricultura, à vida no campo, ao trabalho na terra. Mesmo sendo uma deidade da colheita agrícola, Ops abrange as noções mais amplas da abundância. A Ela podemos, então, entregar os pedidos de boa sorte, sucesso e fortuna para as nossas vidas, estabelecendo também uma relação de gratidão pelas oportunidades de colheita farta que nos proporciona.
            Ops nos sugere, ainda, uma avaliação da semeadura que fazemos todos os dias, do cuidado com aquilo que semeamos para evitar queixas futuras a respeito do que colhemos, e da necessidade de paciência para a maturação dos frutos. No solo da Deusa, tudo o que for semeado será colhido. Todos os plantios são favoráveis, prosperam todas as sementes. Não há que se reclamar do que se colhe, mas, antes, escolher bem o que se põe hoje no caminho futuro. Não há, também, que se comparar o próprio farnel com o que é do alheio. Não se compara esforço individual, pois, para uns é maior, para outros mais fácil. Importa observar que cada um(a) recolhe para si o que espalhou, essa é a ordem universal.
            Preparar a terra é fundamental à boa colheita. Vamos avaliar o estado do zelo conosco em todos os nossos corpos: físico, mental, emocional, energético e espiritual. Se um deles está em desarmonia, não haverá o necessário equilíbrio para que a vida nos entregue o seu melhor. Não há semente boa para solo fraco. Portanto, é preciso ajudar a Deusa Ops a favorecer nossas colheitas. Cuidemo-nos bem para podermos desfrutar toda a generosidade da Grande Mãe. Deusa dos grãos, Ops traz a força da natureza, a abundância das colheitas. “Conecte-se à energia da terra, caminhando descalça, abraçando uma árvore, honrando seus irmãos de criação ou ofertando algum produto da terra à deusa”. Essa sugestão de Mirella Faur em seu livro é um ritual a ser inserido no cotidiano, de modo que a terra seja reverenciada constantemente.
            Por fim, cabe avaliar a contribuição de cada um(a) para o bem da Terra. Como tem sido a nossa relação com a mais gentil doadora? Discutamos as questões do planeta, mas pensemos o nosso comportamento no espaço que habitamos, na rua em que moramos, no bairro, na cidade, no estado, no país. De menor a maior, façamos a nossa parte de amor para que a terra não sofra com o nosso descuido e desatenção, que agridem tanto quanto quem diretamente a prejudica. Não sejamos indiferentes à dor da Terra, porque somos integrados a ela do mesmo modo que fazemos parte de uma só teia no universo divino.
            Em parceria com  a Deusa Ops, vamos cuidar da semente preciosa que cada um(a) de nós é no solo fértil da vida, para que a prosperidade material e a abundância espiritual sejam mais do que desejos, sejam a realidade que precisamos, queremos e merecemos.



Prece ao coração da Mãe

Vera Pinheiro
Poderosa Grande Mãe, de todo amor e de toda bondade, eu te saúdo e te reverencio. Aos teus pés coloco meu coração e peço o teu amparo e a tua proteção. Unge a minha existência com o teu espírito e me transforma em um ser à tua imagem e semelhança.
Abre meus olhos e me faz vislumbrar a vida sem temores e ansiedades, e amplia a minha visão para que o horizonte das soluções de que preciso seja percebido com brevidade e adequado ao tamanho das tribulações. Aguça meus ouvidos para que não se confunda o meu entendimento e não se turve a minha compreensão. Cala minha boca diante dos impulsos de proferir palavras que ferem ou magoam, e que tudo o que eu disser seja para construir, socorrer e refletir a tua gentileza.
Estende meus braços na direção de cada ser vivo da tua natureza para eu acolher todos e nunca me negar ao préstimo generoso que ensinaste com o teu exemplo. Coloca a tua ternura em minhas mãos, e que elas sirvam para abençoar, plantar, nutrir, afagar e trabalhar segundo a tua vontade. Conduz minhas pernas e meus pés rumo ao destino do bem, da solidariedade, da misericórdia e da compaixão comigo e com os que estão em meu entorno no universo. Dirige meus passos e me mantém em segurança. Desvia-me das ilusões e das vaidades que possam me afastar do teu caminho sagrado.
Resguarda-me pela frente e pelas costas, pela esquerda e pela direita, acima e abaixo de mim, e livra-me das ameaças, riscos e perigos, e, ainda, das tentações. Põe a tua luz sobre a minha cabeça e ilumina meus pensamentos, e que nenhuma sombra de medo me torne esquiva da perseverança, do otimismo e da confiança.
Lava meu coração das tristezas que ele conheceu, das amarguras que acumulou, dos ressentimentos que guardou, e purifica-o com o perdão e o esquecimento. Acalma as minhas angústias e devolve-me a serenidade, o equilíbrio e a ponderação para eu transpor as dificuldades sem me perder nas sendas dos tormentos humanos. Aumenta a minha fé para eu reconhecer e acatar os teus transcendentes desígnios e para aceitar com resignação as lições que me entregas por meio da dor. Transmuta o meu sofrimento em aprendizado e eleva a minha paciência diante dos infortúnios para que a gratidão seja maior do que os lamentos de minha alma.
Orienta meu espírito na claridade do dia e na escuridão da noite, e sussurra em minha intuição o que devo fazer, desde o meu acordar até que eu adormeça no agasalho de teu ventre. Doutrina-me na humildade e no respeito, molda-me na tua devoção e funde-me em tua índole sublime. Sustenta-me em teu colo quando eu andar sozinha e carrega-me pela mão, de volta, se eu me afastar de ti e do que seja benéfico a mim e, também, aos outros. Liberta-me das opressões que abalam a minha tranquilidade e dos problemas que não sei resolver sem o teu auxílio, e inspira os meus gestos, decisões e comportamento. Renova a minha esperança, anima a minha vontade e fortalece a minha coragem para eu não desistir enquanto não se esgotar o manancial de forças que vêm de ti.
Corrige as minhas imperfeições e cura-me dos erros que pratiquei para que a paz ocupe o lugar do arrependimento. Aperfeiçoa a obra incompleta que sou, desenvolve as minhas aptidões, melhora as virtudes que tenho e me instrui a repreender os meus defeitos. Fortifica a saúde do meu corpo físico, abastece-me de harmonia espiritual, estabilidade emocional, capacidade mental e de bons fluidos energéticos. Derrama as tuas bênçãos sobre o meu lar, sobre a minha família, sobre a irmandade universal, e que a chama do teu imenso amor se mantenha flamejante, espargindo o teu fulgor sobre todas as vidas e em todos os lugares.
Mãe e Senhora! Tu és o meu escudo e a minha guia, quem rege a minha jornada e me defende. Toma a minha vida em tua amorosa graça, onde eu estiver e em tudo o que fizer. Sê tu em mim a cada momento, e me dá permissão para ser uma ínfima demonstração da tua sagrada presença Eu Sou. Revela-te em mim para que eu seja, ao menos, uma centelha do teu divino amor, uma migalha da tua infinita sabedoria, uma faísca da tua magnífica e purificadora luz. Eu me consagro a ti e te ofereço tudo o que sou, tudo o que tenho, tudo o que faço e tudo o que construímos juntas. Que seja assim, agora e sempre!

Mãe, ouve o meu apelo!

Vera Pinheiro
Mãe, ouve o meu apelo! Toca o meu coração com o teu amor e acalma as dores que me tiram a paz. Serena o meu espírito com o sopro da tua compaixão para que as angústias se dissipem. Acolhe as preocupações que me desassossegam e me entrega a confiança de que haverás de me inspirar a melhor solução. Dá-me a virtude da fé se eu desacreditar da vida e me ensina a perseverança em lugar do desânimo. Sê o meu estímulo quando eu desencorajar e o meu ânimo, se eu fraquejar.
Não permitas, Mãe, que os problemas sejam maiores do que a capacidade que me deste para resolvê-los. Que nenhuma dificuldade exceda as forças do meu espírito. Que o mal não me alcance e a desventura não me vença. Que o desespero não me aconselhe e o medo não regre a minha conduta. Que os obstáculos não cancelem a minha alegria e que a tristeza se desfaça pelo contentamento de estar sob a tua guarda e proteção, sempre!
Não deixes, Mãe, que o temor domine a coragem, impedindo que avancem os meus propósitos e se realizem os sonhos que acalento. Que a minha vontade esteja em plena harmonia com a tua, para que a minha caminhada não se desvie dos teus planos. Faz-me compreender e aceitar os teus projetos para mim quando eles forem diferentes do que eu desejar, e que os teus sagrados desígnios se cumpram, não os meus profanos anseios.
Abençoa, Mãe, as minhas mãos com a habilidade realizadora do trabalho para produzir o meu sustento sem agredir a natureza. Abençoa os meus pés para que trilhem o caminho do bem e dele jamais se desviem, seguindo na tua luminosa direção, de volta ao teu aconchego ao fim dos meus dias sobre a terra. Abençoa o meu coração para que pulse em uníssono com o teu e esteja aberto a toda a irmandade universal. Abençoa os meus olhos para que eles se orientem pela verdade dos teus ensinamentos e assim sejam poupados de enganos e ilusões. Abençoa-me onde eu estiver, com quem estiver e no que fizer, como até aqui, hoje e por toda a minha vida.
Liberta-me, Mãe, da vaidade para que eu reconheça que todas as vitórias são dádivas com que me tu favoreces, que os triunfos são partilhas do amor que me ofereces, que as glórias que desfruto são dadas pela tua nobreza, não pela minha. Lembra-me, a cada instante, da humildade que aprecias e da bondade que te agrada, a fim de que eu não busque lauréis efêmeros, mas a graça de ser una contigo. E ainda que não possa comparar-me a ti, que eu não te perca como exemplo.
Perdoa, Mãe, as minhas fraquezas humanas e lapida-me, pelo teu ensinamento, para que me torne uma pessoa melhor do que sou. Releva a minha ignorância e mostra-me o rumo da sabedoria. Que eu não seja indiferente ao meu próximo como não desejo que me relegues ao esquecimento. Que todas as minhas ações contemplem o bem de todos e o bem do todo a que pertenço. Não me afastes dos teus cuidados e, se eu me distanciar de ti, resgata-me de novo ao teu colo, onde quero estar.
Faz, Mãe, com que minha alma seja cristalina, sem marcas de sofrimento nem mágoas do passado, e que ela seja livre para mais te amar e para amar todos os seres da divina criação. Desfaz os nós que possam aprisioná-la a lembranças que acendem ressentimentos e reavivem amarguras. Que minha alma seja leve como a brisa de uma manhã de primavera e que possa bailar entre experiências e aprendizados. Que o meu corpo, abrigo transitório do meu ser, seja tratado com desvelo, respeito e carinho, mantendo-o saudável e longe de qualquer perigo.