sábado, 4 de dezembro de 2010

Homens reparam, sim! (*)

Vera Pinheiro

Sempre achei que as mulheres são reparadeiras, mas estou começando a mudar de opinião para atribuir aos homens também o hábito de reparar na vida alheia. O detalhe é que o termo “reparadeira” é substantivo feminino que significa “mulher que repara em tudo, que tudo olha”, e não há correspondente masculino na Língua Portuguesa. Pode uma coisa dessas? O substantivo masculino “reparador” significa outra coisa: “Que ou aquele que repara, que melhora, ou fortifica”. Assim, reparar não tem a ver com a questão, mas com refazer, restaurar, consertar e outras palavras assemelhadas. Mas posso garantir: os homens reparam, sim! E muito! Talvez até mesmo mais do que nós, mulheres, o fazemos. Ou tanto quanto.

          Nesta semana, eu almoçava no restaurante do serviço com três colegas. Como sou lerdinha para fazer as refeições (ainda bem, porque isso é mais saudável do que a pressa), demorei a terminar o meu almoço e as três, precisando retornar às suas atividades, saíram da mesa antes de mim. Sentaram-se, então, dois homens, um de cada lado da mesa e eu na cabeceira, onde costumo me acomodar para ter melhor visão do espaço onde me encontro. Tal e qual os homens, gosto de ficar com a parede às costas, e quando vou a um restaurante com um deles quase disputo essa posição de resguardo, mas me controlo e dispenso o privilégio da localização no ambiente. Afinal, homens ficam inseguros com gente às costas. Isso é um comportamento masculino ancestral para se prevenir de ataques pela retaguarda. Quem deseja comprovar, basta fazer com que eles se sentem de frente para a parede e de costas para o público e observar como ficam inquietos e desconfortáveis na cadeira. 
    
            A conversa começou e a primeira pergunta de um dos homens foi curiosa: sobre o meu carro. Hã? Quase engasguei com o osso do peixe, mas me recompus a tempo de responder, engolindo a questão “Por que, raios, ele quer saber isso?”. Como entro em assunto de carro com um homem que, provavelmente, sabe muito mais do que eu? Estará me testando? Aaaah, que desafio bom!

            Num átimo, lembrei de todos os manuais de automóveis que já li para reunir um cabedal de conhecimento próprio. As reportagens sobre carros passaram na minha cabeça num instante e, igualmente, as opiniões masculinas, principalmente as do meu filho, que verdadeiramente levo em conta, sobre a matéria.

            Falei com propriedade, desculpem a falta de modéstia. Qualidade dos pneus, desempenho do motor, espaço interno, design externo, mecânica, estabilidade, agilidade, economia, conforto e itens tecnológicos. Depois, falei das frescurinhas que a gente, mulher, adora: porta-trecos, espelhos, cores, assentos aveludados, acessórios e utilidades etc e tal. Foi nesse ponto que os dois homens retomaram o assunto para dizer que a indústria automobilística se preocupa com detalhes que encantam as mulheres porque elas se tornaram grandes compradoras. E eu não sei? Sei, mas deixei que eles falassem. Afinal, enquanto eu discorria sobre carros os dois se calaram. Ambos estavam boquiabertos, com os garfos paradinhos no ar e os braços apoiados na mesa.

            No entanto, a prosa não acabou nisso. Quando, enfim, respirei e lhes dei a palavra, um deles diz ter reparado que o meu carro está sempre muito limpo, apesar do tempo chuvoso em Brasília nesta época. “Como é que ele viu?!”, pensei. Nunca cruzei com a pessoa fora do ambiente de trabalho e sequer o vi no estacionamento onde tenho uma vaga fixa. Será que ele reparou nisso também?! Quem mais repara em quem?

            Daí, então, a conversa convergiu para o que os homens, em geral (com as honrosas exceções que confirmam a regra), adoram: lavar carro. Acrescente-se o olhar desvanecido deles quando o trabalho termina e pode ser contemplado com verdadeira idolatria... e a última passadinha de flanela para alcançar um brilho extra na lataria onde é possível espelhar o sorriso de satisfação. Eu faço isso! Trocamos informações a respeito e não me neguei a repassar as dicas que um lavador de carros me ensinou. Eles questionaram, ainda, como mantenho as unhas arrumadas, no que também repararam. Aí não pude explicar, porque certas coisas só uma mulher sabe quanto esforço custa! Homens não entenderiam.

(*) Crônica publicada na edição de 4 e 5 de dezembro de 2010 do jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Colheita farta

Vera Pinheiro
Lá em casa tudo dá, uma maravilha! Os coqueiros deram cocos, as mangueiras darão muitas mangas, a romãzeira está dando romãs e a caramboleira dá carambolas o ano todo. Quantas bênçãos da natureza para o meu recanto!


No fim de semana eu e Camila subimos na romãzeira para colher os frutos maduros e eu fui premiada com uma romã na testa! Tóim! Doeu, claro. Mas o sabor da fruta vermelhinha, vermelhinha, era delicioso. Compensou o esforço, mas o fato é que eu preciso – urgentemente – me equipar para a colheita para não precisar trepar nas árvores. Ainda bem que são baixinhas e posso pegar os frutos com a mão. 

Pensa numa romã do tamanho da mão caindo na minha testa...

 


 A colheita será farta lá em casa neste final de ano. Os cachorrinhos já estão se fartando das mangas maduras. Tudo é tão bom, tudo é tão belo na natureza! Eu me desvaneço, cheia de gratidão.
É o cão chupando manga!
   

Meu coqueiro já dá cocos!



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Gafe!

Vera Pinheiro
Gafe é um acidente de percurso quando a gente sabe como proceder, mas a mancada é inevitável, simplesmente escapa. É um incidente que seria possível evitar, não fosse uma distração qualquer e... putz, já era. O que fazer? Nada a fazer. Se não der pra sair correndo rua afora, permanece, congela e encara a situação com a maior cara de “sinto muito, foi mal”. É melhor não tentar explicar a gafe, pois geralmente a agrava. Deixa quieto e espera que se esqueçam do acontecido.

          Hoje eu almoçava num restaurante self service. No início eu estava só, mas depois se sentaram um homem e duas mulheres. Conversavam animadamente à mesa e eu, quietinha na cabeceira, afinal, a conversa não era comigo.

          Lá pelas tantas, o coitado do homem está cortando a carne quando um pedaço voa fora do prato. Já aconteceu isso contigo também? Pois é. O pedaço quase parou no meu prato, tirou um fininho, mas passou rápido demais e... escanteio para o naco da bisteca do cara! Ele nem viu onde ela foi parar: coladinha nos meus pés. Mas eu não ia juntar do chão e perguntar: “É seu?”. Fiz que não vi e continuei comendo como se nada tivesse acontecido. Segurei o pranto de piedade pelo homem... e o riso. Pensei em contas a pagar, porque não tem coisa que me faça ficar mais séria do que isso. Broxadas que testemunhei me fazem rir, então nem penso nisso, senão ninguém me segura. Passo mal.

Espiei com o rabo do olho e vi o vermelhão intenso da cara dele. Tadinho. Ele se ocupava em recolher o arroz que fugiu do prato para a mesa, tudo esparramado sobre a toalha. Por que não chamou o garçom? A pior coisa é tentar consertar com as próprias mãos. Aquilo também!

Logo saí dali e fui para a fila pagar o meu almoço. Na fila ao lado, pessoas se serviam de café. Dali a pouco, uma mulher de uns 40 e poucos me olha e começa a fazer uma cara estranhíssima! Parecia querer dizer: “Fiz merda” ou “Fodeu geral”. Longe de mim pensar que a culpa fosse minha ou que aquela cara de quem vai começar a chorar tivesse a ver comigo. O problema é que ela olhava de um jeito muito estranho mesmo. Eu não sabia se falava com ela para perguntar se ela estava passando mal e precisava de ajuda ou se me calava, ou, talvez, ela houvesse soltado um pum na fila e queria disfarçar. Ah, vai saber os problemas por que passa um ser humano!

Parecia estar engasgada e eu já estava para cair de tapas nas costas dela quando um garçom passou no meio das duas filas e ela, finalmente, se atreveu a falar. “Moço, fiz uma coisa...”. Será xixi nas calças? Só pensei, claro, e continuei quieta, observando a cena. Ai, meus sais, por que as pessoas não vão direto ao assunto? Será que precisam mesmo das preliminares?

“Tudo bem, senhora. Eu dou um jeito nisso”. O garçom foi o máximo! Nem esperou que ela mostrasse o que fez, já entendeu tudo. Vai ver não era a primeira que desmontava a máquina de fazer café a jato...ou sei lá como se chama aquela cafeteira. Eu ainda prefiro que me sirvam café na mesa.

Não ouvi a mulher agradecer, mas espero que o tenha feito. Ei, volta aqui e te desculpa por teres me olhado com aquela cara de “socorro!”. Não gosto de levar sustos, porra! Nem posso!






O café derramado.


Como será que ela fez isso?!


O garçom deu um jeito e eu tirei uma foto!

domingo, 28 de novembro de 2010

A sós

Vera Pinheiro
Todo mundo devia ficar a sós (um pouco, ao menos) para cultivar a própria companhia e saber como anda a relação íntima consigo mesmo. Ficar, estar ou ser só amplia o autoconhecimento, obriga a descobrir quem a gente é – ou o quê – e a se confrontar com a identidade do ser.

Eu preciso de alguma solidão, às vezes. Ela me faz bem. E diria que ela me é necessária.

Quando dou folga de mim às pessoas, ou se elas me dão folga, eu me recolho e me contemplo. Vendo-as de longe, geralmente mais desejo manter a proximidade. Ou não, em alguns casos. O afastamento e a solidão mostram quem e o quê realmente importa, quem e o quê nós queremos. 

Um dos problemas do convívio é não haver saudade. A saudade desvenda os mistérios do desejo. Se não sentimos saudade não temos razões para ficar perto.

Preciso ficar só para entender isso, às vezes. Mas a saudade que me consome, também às vezes, não tem o poder de trazer de volta quem partiu ou quem não quer voltar. E a vida segue, entre ausências, despedidas e solidão contemplativa.

Não é tão ruim ficar, estar ou ser só. Eu até gosto...

sábado, 27 de novembro de 2010

Os instrutores (*)

Vera Pinheiro
            Vive a tua vida de modo que não precises franzir o cenho por contrariedades. Que não te falte a serenidade que amaina a forma de encarar os acontecimentos e permite resolver os problemas sem aflições. Que o teu olhar seja manso, suave e iluminado de contentamento. Que não se inquiete o teu espírito perante as dificuldades e que elas sejam reais oportunidades de aprendizado. Que as tuas palavras sejam temperadas de doçura e que a tua voz não se eleve além do tom de uma carícia, mas sê firme no que dizes, e seguro do que expressas até mesmo com o silêncio.

            Não permitas que outras pessoas comandem as tuas vontades. Só tu podes – e deves – ser dono de ti mesmo, do que queres para o teu destino e o único responsável pela maneira como escolheste viver. Exerce pleno domínio sobre as tuas atitudes e te sentirás fortalecido. Procura conhecer-te ao máximo para que as tuas reações não sejam imprevisíveis ao teu conhecimento e para que possas esquivar-te das ciladas e dos perigos que tu mesmo podes, inadvertidamente, armar.

Não te deixes embalar pela vaidade, que cobre de ilusões o teu auto-retrato e o faz muito diferente do que, na realidade, és. Cuida da tua essência para que ela se mantenha íntegra e não se esfacele com apelos que são o vazio disfarçado de alegria. Não esperes lucros fáceis nem vantagens que não venham com o trabalho de cada dia e a dedicação somada a esforço. Desconfia de garantias de sucesso sem custo e observa se o pagamento, em troca, não será a entrega da tua alma, começando pela perda de valores. Não te deixes corromper e vigia o teu comportamento para que ninguém faça a vigilância que te cabe. Nada faças sem a aprovação da tua consciência, e que ela seja transluzente.

Ousa na medida da confiança que tiveres do que podes fazer na circunstância que exige que sigas em frente ainda que não conheças bem o caminho. Avalia as possibilidades, mede os riscos e toma os cuidados necessários para que todos os resultados sejam benéficos, ainda que eles contrariem as tuas expectativas.

Evita os derrotistas e os invejosos, e não gastes teus argumentos para convencê-los de que devem agir em sentido contrário. Não há o que fazer por quem não quer fazer por si e o crescimento individual se dá no ritmo de cada um. Não te desgastes em aborrecimentos pelo que fazem contra ti, entrega tudo à perfeita ordem do universo e ela se encarregará de responder aos teus algozes. Jamais queiras o que pertença a outrem. Busca por teus méritos o que desejas sem prejudicar quem quer que seja, para que não geres um débito futuro com a vida, e ela te cobrará inapelavelmente todo o mal que praticares assim como te recompensará generosamente por todo o bem que tu fizeres.

Não te revoltes com pessoa que, a um olhar distraído e de pouca sabedoria, pareça estar no mundo para te causar desagrado e por quem nutres antipatia que não é gratuita por ser, aquela criatura, muito hábil em tirar a tua paciência. O que nos causa repugnância é um instrumento para a nossa evolução e aquele a quem rejeitamos, com ou sem razão, atua como instrutor do nosso processo evolutivo, verdadeiro mestre que nos ensina virtudes cada vez mais raras como a compreensão e o perdão. Mantém distância sem terceirizar o poder sobre as tuas decisões e sobre o teu humor. Não te empenhes tanto em fazer amigos e, sim, em não colecionar inimigos, pois a ajuda que podes receber por meio de uma amizade não é tão grande como o mal que impulsiona as ações de quem te odeia. Porém, apesar de tudo, não retribuas ódio com sentimento de igual natureza. Eleva-te acima das provocações e das ofensas e não sintonizes com energias densas, que diferem da tua, que a paz habita e a brandura é a maior aliada.

Age em vez de preocupar-te e sorri mais vezes e para quem cruzar contigo. Poucos adentrarão no convívio com o teu ser mais profundo e, assim, nem todos te conhecerão. Então, pode acontecer de que chores sozinho e venças sem auxílio, mas não te amargures pela solidão nem te sintas como um abandonado pela humanidade. A fé preenche o coração e nos põe em contato com forças que nos amparam nos momentos mais difíceis, tenhamos gente por perto ou não. E se tuas feridas emocionais sangrarem, o bálsamo ao alcance da mão é o amor, que se fundamenta na bondade. Ocupa-te, portanto, em ser bom e serás o refúgio em que o amor repousa e vibra, se recompõe e se resguarda para depois se espargir por onde andares.


(*) Crônica publicada na edição de 27 e 28 de novembro de 2010 do jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.