quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Feriado espichado... e bom!

Vera Pinheiro

Ai, ai... Estava tão bom que espichei o feriado em mais um dia! E tão bom estava que prefiro guardar comigo a lembrança desse tempo. Não vou compartilhar, sinto muito por quem é curioso. Alguns momentos e vivências a gente precisa reservar na mais profunda intimidade, naquele compartimento individual e intransferível a que ninguém tem acesso. Não porque não mereça, mas porque é tão intensamente nosso que não dá para dividir. E se dividisse talvez ninguém compreendesse. Ou não, mas prefiro não arriscar, neste caso especialíssimo.

Enfim, de volta à rotina, e a vida reclama assumir meus compromissos com tudo o que está à minha espera para ser feito. Sei, no entanto, que, antes de tudo e de todos, quem precisa de mim sou eu, e me devo uma felicidade inteira, como bem mereço.

E tudo segue em perfeita e divina ordem, como é e como deve ser. Nada é eterno, mas me faz feliz enquanto dura. Porque tudo passa, não deixo que passe sem que eu viva a intensidade do que é possível viver.

sábado, 13 de novembro de 2010

Poder voltar (*)

Vera Pinheiro

          Certa vez, despachando com o Vice-Presidente da República José Alencar, ele me deu uma grande lição de vida, das tantas que deu a todos, durante a sua enfermidade: “O importante na vida é poder voltar”, frase que lhe disse o pai em 1946, quando deixava a casa paterna para trabalhar em Muriaé como balconista em uma loja de tecidos. 

          “Quando saí de casa, aos 14 anos, pedindo “bênção, mamãe”, “bênção, papai”, ele falou comigo: “Meu filho, não se esqueça: o importante na vida é poder voltar! Voltar a uma pessoa, a uma família, a uma casa, a uma cidade, a um emprego, a um cargo, a uma instituição, a uma entidade, a uma situação... Voltar! Poder voltar significa viver altivo, de cabeça erguida”, explicou José Alencar, e eu ouvia comovida, rememorando convívios e experiências do passado. Seu Antonio estava coberto de razão e o filho cumpriu à risca, desde o momento em que estava de saída para o mundo com pouco mais de nada na mala, mas municiado de vontade férrea e de crença em si mesmo.

          Voltar a um lugar em que moramos um dia é marcar encontro com histórias inesquecíveis, que fazem parte de nossa trajetória. Retornar, ainda que por pouco tempo, é reverenciar os aprendizados e homenagear a vida que nos permitiu ultrapassar fronteiras e ampliar horizontes. Que bom poder voltar e replantar raízes das quais jamais nos afastamos. Por não ter qualquer razão para afastamento definitivo, reencontrar portas e corações abertos faz querer voltar, mesmo que seja para partir novamente e reconstruir a saudade.

          Voltar a uma cidade onde estivemos como visitantes nos permite lembrar a circunstância anterior que nos levou até lá. Feliz de quem tem boas lembranças, que façam brotar suspiros no peito e lágrimas de emoção nos olhos ao repetir o passeio, mesmo que tudo seja diferente de outrora, e é. Afinal, o tempo passa e a nossa paisagem interior se modifica, assim como o jeito de olhar os instantes e de vivenciá-los. Ainda bem que mudamos, porque estagnação não se coaduna com o dinamismo da existência.

          Voltar a um emprego mostra que a ruptura dos laços profissionais não carregou prejuízos ao relacionamento no plano pessoal, que estabelece o primeiro contato para traçar objetivos em comum. Que bom saber que não há perspectiva de desemprego porque, desfeito o vínculo laboral, a oportunidade está sempre aberta, ainda que outro nos substitua na vaga que ocupávamos.

          E quem não gostaria de rever, emocionado, a casa onde nasceu, a primeira escola, algum trecho da infância ou algo que acenasse para a adolescência já distante? No entanto, nem todos os prédios são preservados, eles dão espaço para a modernidade e seus lucrativos condomínios verticais. É enorme o contentamento dos que tiveram o privilégio de poder voltar ao chão onde o umbigo foi enterrado, bem como o dos que viram o quadro negro onde escreveu o primeiro bê-á-bá. E encontrar uma antiga professora produz uma emoção tão profunda e incontida que não é possível narrar, senão pela voz embargada que dá vez ao silêncio.

          Reencontrar pessoas que fazem parte de nossa vida, mas não do nosso cotidiano, é festejar a alma em sorrisos de prazer. Para isso, é fundamental não haver mágoas que desabonem a conduta de quem reaparece de surpresa. Se as recordações são boas, bastam umas poucas palavras para que a velha intimidade se restabeleça, e dali em diante nova etapa começa. Por isso a alegria de rever o primeiro amor, independente de qual seja a última anotação do estado civil feita em cartório. A sensação é a de que ter vivido aquela época valeu qualquer pena, como os desencontros e as despedidas que hoje a gente nem sabe por que aconteceram. Em vez de cobranças, um olhar maduro sobre os acontecimentos, que não são maiores do que os sentimentos.

          Entre risos, beijos e abraços, a gente nem percebe que envelheceu nesses anos de ausência. Não importam as rugas e um ou outro probleminha de saúde que modificam o visual e o comportamento, se comparados com a juventude. São, sim, outros tempos. Mas e daí? O que importa é poder voltar àquela pessoa, que jamais saiu de onde estava: dentro do coração, adormecida num cantinho privilegiado, a espera da segunda e derradeira chance.

(*) Crônica publicada na edição de 13 e 14 de novembro de 2010 do jornal A Razão (www.arazao.com.br) de Santa Maria, RS.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Mendicância amorosa

Faz parte da minha rotina diária trocar a água dos cães e gatos e alimentá-los. Logo cedo faço isso e, invariavelmente, os cachorros ficam à espera de que eu derrame no chão algumas migalhas da ração dos felinos. Pelo desespero com que abocanham uma ou outra migalha que escapa da minha mão, até parece que eles não têm sua própria ração, a canina, que lhes sirvo em boa quantia. Hoje aconteceu de novo.

A situação no mundo dos meus animais me fez lembrar dos humanos apaixonados que, não sendo correspondidos em seus sentimentos, se dedicam à mendicância amorosa e suplicam migalhas de amor. Tantas vezes eles são amados por outras pessoas, mas não se importam com elas, querem aquela pessoa que os despreza. Homens e mulheres insistem nisso e mantêm, à custa de muita humilhação e falta de autoestima, um vínculo de mão única, porque ama sozinho, quer quem não o quer e, o que é devastador, se satisfaz com o pouco que recebe, como se mais não merecesse.

Amor é para dar e receber. Quem ama sozinho não consegue amar por dois, mas se infelicitar, sim. Não é fácil, mas é necessário sair fora dessa relação que não conhece troca. É menos doloroso ficar sozinho, e na boa companhia de si mesmo, do que se deixar sugar por um sentimento que não é compartido.

Quem se submete a isso age como os meus cãezinhos. O prato deles está cheio de ração, mas eles querem o que não pode ser deles. Uma migalha, ao menos.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Reencontro

Vera Pinheiro 
           
            Estou em estado de graça, rindo à toa! Bem, nem tão à toa assim, porque tenho uma excelente razão. E mesmo que eu quisesse escrever sobre outro assunto, esse não sai da minha cabeça de cachinhos louros!
            Tive um feliz e belíssimo reencontro com alguém que faz parte da minha história, mas mora no passado. Já o havia reencontrado há alguns anos, mas estávamos em momentos pessoais diferentes e nada aconteceu. Nada além do reencontro, quero dizer. Poderia ter sido melhor, na época, mas foi bom, de todo modo. E agora, mesmo sem saber se pode ser, só a alegria que senti já é motivo para bendizer a vida, que proporciona essas visitas do inesperado.

            Estive pensando o tempo todo, de ontem para cá, em como tudo aconteceu, anos atrás. Não fiz outra coisa senão agradecer por tudo o que vivi, aprendi e conheci com ou sem ele. Creio firmemente não ser em vão cruzarmos e compartirmos vivências com alguém. E percebo, entre relembranças e saudade, que as distâncias se desvanecem diante dos melhores sentimentos.

            O tempo e o amadurecimento mostram que tudo passa. Então, aprendemos a relevar, a perdoar, a esquecer e a amar de um jeito melhor, antes que todo o resto passe e que fiquemos definitivamente a sós conosco, dormindo abraçados a recordações, sem construir o futuro,que começa agora. E a hora de ser feliz é já! Porque isso também passa.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Um rosto à arte

Vera Pinheiro

O (meu) chefe da Assessoria de Comunicação Social da Vice-Presidência da República Amaury Teixeira Machado foi quem me apresentou as belíssimas crônicas de Tião Martins, mineiro da melhor cepa, que escreve diariamente no jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte.


Tião é bom de escrita uma barbaridade! Cada crônica sua é melhor que outra, melhor que outra, melhor que outra. Os assuntos são variados e a fala dele baila ora com o humor ora com o romantismo, sempre com extrema sensibilidade e máxima correção e intimidade com a língua pátria. Já gostava dele, e agora gosto muito mais por tê-lo conhecido e, assim, dado um rosto à sua arte, que tanto aprecio. Ele veio de Belo Horizonte para visitar o amigo Amaury e nos encontramos.

É um cronista sensível, que admiro, e colega de jornalismo com um respeitável currículo, de foca, como todos começam, a diretor de Redação, que nem todos alcançam. O Dr. Amaury denunciou que eles foram colegas na Última Hora, e lá se vão 47 anos, segundo seus cálculos. Esses dois maravilhosos senhores estão na ativa, felizmente, e o convívio com eles é um privilégio pelas aulas de jornalismo que dão todos os dias. Podem me dar um autógrafo, por favor?



Churrasco,
feijão tropeiro
e frango com quiabo



Eu, feliz da vida com o abraço de Tião Martins, ladeado (como dizem as colunas sociais) por Amaury Machado.